Pedro Luiz Rodrigues
Se fôssemos acreditar na máquina oficial de criar fatos e versões, estaríamos convencidos de que o Brasil já teria assumido posição de relevo entre os países que produzem energia elétrica de origem eólica.
O Portal Brasil - que é o grande site de propagada e de auto- exaltação do Governo na Internet-, informa-nos de elevados investimentos (R$ 16 bilhões) e de quase 150 parques eólicos a serem entregues no biênio 2012-2013.
Felizmente o pessoal da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) não se deixou seduzir pela purpurina do portal e, em relatório sobre o setor, informou dura e cruamente que dos 71 parques eólicos leiloados em 2009, 32 estão parados.
E estão parados por uma razão simplesmente inacreditável e inaceitável: a empresa que venceu o leilão das linhas de transmissão não as construiu até agora, e, pior ainda, em alguns casos sequer iniciou as obras.
Pelo que reza o contrato, as linhas de transmissão deveriam (obviamente) estar prontas na mesma data da entrega dos parques eólicos. Mas, se daqui para frente tudo correr bem, a conexão com as usinas só ficará pronta no ano que vem.
Mais uma vez caberá a nós, contribuintes idiotas, pagar a conta. Pois mesmo sem poderem passar adiante a energia elétrica que oferecem, as empresas geradoras têm o direito de receber a receita predeterminada nos contratos de concessão.
Assim, os proprietários desses 32 parques eólicos parados têm muito dinheiro a receber: a bagatela de R$ 370 milhões.
Se o deslize tivesse sido protagonizado uma empresa privada, coitada dela. A essa hora o Governo já teria saltado sobre sua jugular, mencionando incúria, pespegando-lhe multas e mandando prender seus dirigentes. Mas não, a empresa é a Chesf (Centrais Elétricas do São Francisco), do grupo Eletrobrás. Portanto nada vao acontecer, tudo fica como está.
O Senador Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP) soube da existência do relatório da Aneel pela imprensa e já encaminhou um pedido de informação ao Governo. Ele está atônito com a situação – aliás, como todos nós – e quer claramente identificar responsabilidades.
Antecipo que a resposta a esse pedido de informação vai ser o transferência de culpas. O mais confortável para o governo será tentar responsabilizar Dilton da Conti, o presidente da Chesf que foi afastado em dezembro passado.
Dilton havia sido indicado para o cargo por Miguel Arraes, ainda no primeiro governo de Lula. Saiu possivelmente por ter se desentendido com o neto de Arraes e seu herdeiro político, Eduardo Campos.
Uma historinha:
Há poucos anos, no âmbito de um programa de cooperação, delegação da Eletrobras visitou grande país da África Ocidental e, no exame de sua infraestrutura elétrica, identificou um absurdo: uma termelétrica fora construída distante dos centros de consumo há vários anos mas nunca funcionara, por nunca ter sido construída a necessária linha de transmissão.
O caso foi, na ocasião, apontado como exemplo de desgovernança e incompetência.