sexta-feira, outubro 26, 2012

Ações de combate ao crack ainda são tíbias


Editorial
O Globo

Operações contra cracolândia em Manguinhos e Jacarezinho revelam os mesmos defeitos de tentativas anteriores em outras áreas do Rio

A ocupação em Manguinhos e Jacarezinho voltou a expôr o frágil alcance das ações do poder público do Rio, e do país em geral, para enfrentar o cada vez mais grave problema da disseminação da venda e do uso de crack. Retomado o complexo de favelas, passo inicial do processo de pacificação daquela extensa região dominada pelo tráfico de drogas, revelou-se, no rescaldo do tenebroso legado deixado pelos criminosos, a existência de uma cracolândia, uma das mais perversas decorrências das atividades dos traficantes. As frustradas tentativas das forças policiais de acabar com esse espaço compartilhado, quase impunemente, por usuários e atravessadores da droga, repetiram o insucesso de operações semelhantes levadas anteriormente a efeito em outras áreas da cidade e outros estados, como São Paulo.

No caso das ações nas favelas ocupadas no último fim de semana, em 48 horas quase a metade dos adultos recolhidos na cracolândia local já havia abandonado o abrigo para onde haviam sido levados. Saíram de lá e se juntaram a outros viciados numa área protegida por tapumes das obras do projeto Transcarioca, em Parque União. Nova operação, realizada quarta-feira de manhã nessa área, teve como resultado o já renitente efeito do jogo de gato e rato das ações públicas de combate às cracolândias: quatro horas depois de desalojados, quase todos os usuários já estavam de volta ao local para consumir a droga.

O efeito tíbio dos programas de combate ao crack tem razões distintas. Especialistas afirmam que falta estrutura dos órgãos públicos. O diagnóstico é correto. A isso se junta outro problema, mais amplo: a inexistência de uma política nacional de combate efetivo a esse flagelo que integre de fato todos os níveis do poder público, numa capilaridade em que estejam abrangidos órgãos da União, dos estados e do município. Esta é uma falha crucial, num país em que pesquisa indica a disseminação do crack, com variados graus de comprometimento social, em todas as regiões.

O combate à droga, que leva ao vício de forma fulminante, também esbarra em outras questões. Caso, por exemplo, da maneira como o problema deve ser enfrentado. Os índices de consumo no país e os tenebrosos efeitos (médicos e sociais), quase imediatos, que provocam em quem consome a droga evidenciam que o fenômeno deve ser enfrentado como uma epidemia, terreno da saúde pública.

O quadro com que o país se depara hoje nessa área é tão grave quanto o enfrentado na epidemia de Aids. Programas eficientes e uma abordagem séria da disseminação do HIV ajudaram o Brasil a conter em níveis menos críticos os indicadores dessa doença. É o mesmo comportamento que o poder público, em todos os níveis, precisa ter.