Villas-Bôas Corrêa
Carioca, tijucano, nascido na rua São Francisco Xavier, lá se vão 87 anos, idos e vividos quase todos nesta cidade, sou de décadas em que a então capital da República era um paraíso de tranqüilidade e absoluta segurança. Aqui nasceram e foram criados meus dois filho, Marcos e Marcelo que ainda desfrutariam a época de ouro em que as avenidas e ruas eram do povo, a qualquer hora do dia e da madrugada.
Fui aluno do Instituto La-Fayette por dez anos, do segundo primário aos dois anos do complementar, quando fui aprovado para Faculdade Nacional de Direito, no hoje Largo do Caco. Bacharel na turma de 1947, já casado e com um filho, acabei jornalista para reforçar o pingue salário de servidor público, como redator do finado SAPS, Serviço de Alimentação e Previdência Social.
E acabei jornalista em menos de três minutos. Com um cartão meu saudoso sogro, Joaquim Bittencourt de Sá, subi as escadas para chegar à redação de A Notícia, vespertino com tiragem de 100 mil exemplares, na Avenida Rio Branco. Entreguei o cartão ao Candido de Campos, famoso diretor de vários jornais ao longo da vida. Candido de Campos leu o bilhete e me levou ao redator-chefe, o diretor de fato, Francisco Otaviano da Silva Ramos, de quem me tornaria amigo por toda a sua vida.
Silva Ramos leu o bilhete e foi direto ao ponto:
“O Bittencourt de Sá diz que você á bacharel, o que significa que não que é analfabeto. Tire o palito, senta naquela mesa e começa a trabalhar”. À tarde voltei para casa com o exemplar do jornal e a minha primeira matéria em poucas linhas da segunda página.
E virei pau para toda obra, um curso de jornalismo no batente. Cobria desde pequenos casos de polícia, às chegadas de animais para o Jardim Zoológico. Entrevistei girafas, onças e capivaras. E virei dono da cidade. Das manhãs para o primeiro turno e às tardes, noites e madrugadas, muita vezes até o amanhecer. No suicídio de Getúlio Vargas emendei três dias e noites na redação do Diário de Notícia, na rua do Livramento, quase esquina da Praça Tiradentes. Nunca fui incomodado na cidade que era nossa.
E durante décadas, o centro da cidade, da Câmara dos Deputados ao velho Senado, os pontos para a caça de notícias.
A mudança da capital para Brasília, com o esvaziamento do Rio, livrou-me da tortura de acompanhar a decadência, com a imundície do centro, da Avenida Rio Branco, da rua Ouvidor, a mais chique da capital.
Esta cidade que fomos perdendo aos poucos, por alguns dias parecia perdida para sempre com os traficantes queimando ônibus, carros, motos, espancando quem ousava sair de casa.
Cometeram o erro fatal de desafiar as Forças Armadas. Mas perderam a guerra na batalha do Complexo do Alemão.
E o Rio voltou a ser nosso.