quarta-feira, dezembro 01, 2010

Tirar alimento e combustível da inflação seria erro social

Verena Fornetti e Toni Sciarreta, Folha de São Paulo

As pessoas "comem e andam de ônibus", diz ex-presidente do BC [Armínio Fraga] sobre proposta de Mantega para criar índice com exclusão de itens

Armínio Fraga, 53, presidente do Banco Central entre 1999 e 2002, é contra mexer no índice de preços que serve para balizar as metas de inflação, conforme proposta do ministro da Fazenda, Guido Mantega.

O governo cogita criar um índice que exclua a variação de preços de alimentos e dos combustíveis, itens que costumam puxar a inflação para cima, muitas vezes sob influência de fatores climáticos e externos.

Eventualmente, esse índice poderia ser usado para balizar as metas de inflação e facilitar a redução dos juros.

Para Armínio, a meta deve corresponder ao que importa para a sociedade. "O povo come e anda de ônibus."

Na gestão de Armínio, o BC instituiu o regime de metas de inflação. Na época, trabalhou com Alexandre Tombini, futuro presidente do BC. Armínio classifica o colega como crítico e firme, mas construtivo e "de fino trato".

Para ele, será "um luxo" tê-lo à frente do Banco Central.

Folha - Qual é a avaliação do sr. sobre a proposta de expurgo da variação dos produtos alimentícios e dos combustíveis da inflação? Acha que funcionaria aqui, dado nosso passado inflacionário?

Acho um erro, inclusive social e político, excluir qualquer coisa do índice. A meta de inflação tem que corresponder ao que importa para a sociedade; só assim o valor do salário fica protegido. E o povo come e anda de ônibus. Já passei pelo BC, e pensei muito nisso.

O BC leva em conta choques de oferta e choques temporários na condução da política monetária, o que resolve bem a questão levantada pelo ministro Mantega.

Chegou o momento de alterar a meta de inflação?

O próprio governo sinalizou que, em algum momento, seria interessante reduzir a meta. Seria positivo. O país está com meta de 4,5% [IPCA] e inflação um pouco acima. Não se pode considerar que a situação é definitiva.

Ela funcionou muito bem ao longo desse tempo, mas em algum momento seria bom caminhar em direção dos nossos pares. Daqui a dois anos, que se determine que vá para 4%.

Não recomendo nada muito radical, mas, à medida que seja possível, aos poucos, chegar a uma inflação mais baixa, talvez seguindo o caminho do Chile, em torno de 3%, [a redução da meta] ajudaria a diminuir a incerteza, os juros nominal e real.

Seria um passo positivo, mas não está na hora porque a revisão é no meio do ano.

E meta para a dívida pública?

Penso que seria importante perseguir essa meta que a presidente eleita sugeriu, de 30% de dívida líquida. A dívida bruta ainda é próxima de 50%. Vai ser necessário preservar esse superavit [primário, economia que o governo faz para pagar juros] de 3%.

Há mágica para reduzi-la?

Acho importante que seja 3%, sem muita criatividade. E que se sinalize que os 3% vão valer pelos quatro anos, a menos que se tenha uma desaceleração. É importante dizer que vai funcionar assim porque daria confiança ao investidor de longo prazo e ajudaria a reduzir os juros.