Adelson Elias Vasconcellos
Independente da agenda de reivindicações que cada uma das mais de 200 mil pessoas que foram às ruas nesta segunda feira, o que não podemos ignorar é que, sim, um sentimento de indignação e insatisfação represado na sociedade. Não se trata, apesar de alguns pensarem ao contrário, de extremismos e nem tampouco de se aderir à modismos da moçada.
Claro que pessoas com tais espíritos também se juntaram à multidão. Porém, o sentimento de insatisfação é generalizado e nele inclui-se todos os políticos de todos os partidos.
Porém, muito embora me alegre a ideia de ver milhares de manifestantes firmando sua posição de descontentamento, preocupa a falta de uma agenda única direcionada aos responsáveis pelos descalabros que atingem o país de alguns anos para cá.
Por exemplo, e disto já comentei, o tal Movimento Passe-Livre, ao qual se agregaram os radicalóides de esquerda – que, aliás, querem mais é ver o circo pegando fogo – agem como se eles fossem donos do país. Nada de negociação, nada concessões. É o passe livre e não se fala mais nisso! Ora, isto nem democrático é, uma vez que pedem algo impossível.
E por que passe livre é impossível? Pela simples razão de que o transporte público, esteja nas mãos da iniciativa privada ou não, gera custos, não é de graça, não se movimenta guiado pelos ventos. Quem banca, o poder público? E desde quando o Poder Público faz alguma coisa sem usar o meu, o seu, o nosso dinheiro? Assim, imaginando que houvesse a menor chance de prosperar a ideia do passe livre, mesmo aqueles que não usam o transporte público, acabaria pagando para os outros andarem de graça. Até os que se locomovem de “bike”, ou, no português mestiço, de bicicleta. E, isto, definitivamente, não é justiça social.
Tem aqueles que protestam contra os gastos das copas, das Confederações e do Mundo. Estão chegando com uns cinco anos de atraso. A hora de protestar era lá atrás, não agora com obras já realizadas e os eventos em andamento.Quando critiquei aqui o assanhamento dos políticos, Lula à frente de todos, e afirmei que não tínhamos condições nem competência para bancar os eventos, apanhei muito. O país todo se moveu em festas e gincanas nas ruas, com orgulho de ser brasileiro. Hoje, está claro que a crítica era procedente.
Agora que aconteceu exatamente o roteiro previsto, creio ser um pouco tarde para o arrependimento. Claro que, mesmo tarde, é saudável presenciar que muitos despertaram da fantasia impossível, e caíram na dura realidade do custo para o país,e para o bolso dos brasileiros, de se realizar eventos tão grandiosos quanto dispendiosos num país com tantas carências essenciais.
Disse em artigo anterior, que adoraria ver estas mais de 200 mil pessoas marchando em direção à Praça dos Três Poderes, porque lá encontraremos as raízes de 99% das mazelas nacionais. Não adianta reclamarmos do escalão inferior, amarrado que está à dependência canalha que o petismo criou pelas verbas “federais”. E de lá também emanam todas as políticas esquizofrênicas lançadas nos últimos anos e que estão minando a estabilidade econômica do país. De lá, também, saem as ordens para a liberação de recursos volumosos que castram a cidadania de milhões de inocentes úteis, a maioria sobrevivendo no Norte/Nordeste, e que dão sustentação aos governantes no poder. Claro que me refiro aquilo que deveria ser um programa social amplo, e em favor da libertação do indivíduo, mas que se tornou ao longo dos anos, um imenso programa caça votos, que perenizam a pobreza, encabrestam seus beneficiários, além de iludir milhões deles com a falsa sensação de bem estar.
É contra esta muralha política pobre que o país deve endereçar suas baterias e centrar o fogo dos protestos.
Porém, e muito embora parte da população que está sendo prejudicada pelas tais manifestações, compreenda e até se conforme com a restrição ao seu direito de ir e vir, é preciso saber que, em tudo há limites sim. E, uma vez ultrapassado os limites da legalidade e até da civilidade, como se viu ontem à noite tanto no Rio quanto em São Paulo, as autoridades constituídas devem agir em favor da segurança da maioria ordeira, em favor da preservação do patrimônio público e privado. Qualquer causa, por mais justa que seja, não pode flertar abertamente com a baderna, com a bagunça, com a depredação. Atingido este ponto, a manifestação se esvazia por completa e perde sua razão de ser.
A resposta que se busca neste dia seguinte, talvez a gente nem encontre. São muitas causas em jogo, muitas bandeiras e faixas estendidas em nome de objetivos dispersos. Como também são variadas as motivações que estão movendo milhares de pessoas. Daí meu apelo por uma agenda comum, por um objetivo único. A causa? A insatisfação com os governantes, com a política e com os políticos. O objetivo? Mudar os agentes que atuam no cenário político.
Regra geral, manifestações deste tipo, e tome-se a Primavera Árabe como exemplo, acabou transformado em doloroso inverno, movimentos sem cara, sem agenda comum, sem objetivo claro como “o que se quer mudar?, acabaram perdendo o encanto e até cansando.
Quando um povo se mobiliza movido pela indignação, ou se oferece alternativas viáveis que alimentarão o sonho por mudanças, e isto requer lideranças com discursos claros e objetivos, ou a mobilização acaba produzindo mais vazio, mais insatisfação, gerando o triste sentimento de que tudo vai ficar como está.
Portanto, e apesar de comemorar esta mobilização, temo que ela produza muito barulho, muitos estragos, com um triste resultado zero.
Não podem vigorar movimentos nascidos de uma utopia estúpida como é a do passe livre. Tampouco, aquela nascida com enorme atraso, mas incapaz de brecar a farra escandalosa e imoral dos gastos com as tais copas.
Rezo para estar errado, adoraria ver esta mobilização toda ligadíssima a um propósito específico de mudança do quadro político, porém, temo que acabaremos sentados à beira do caminho, exaustos de tanto caminhar e roucos de tanto berrar, mas com as mãos vazias e os sonhos desfeitos. Neste sentido, nem o calendário nos ajuda. Para as eleições, falta ainda mais de um ano, tempo suficiente para poeira sentar.
De positivo? Bem, os políticos estão assustados, procurando por respostas, querendo saber se seu futuro político está, de alguma forma, ameaçado. Alguma resposta, mesmo que pequena, há de vir. Alguma mudança acontecerá para que transmita a falsa sensação de que o “povo venceu”. Pura ilusão. No cenário político dominante, tudo tende a continuar na mesma, por mais maquiagem que seja colocada em seus atores.
E insisto num ponto que entendo mereça atenção da população: todos os serviços públicos essenciais são de responsabilidade do governo federal, mesmo aqueles geridos pelas prefeituras e governos estaduais, uma vez que dependem, diretamente, de verbas controladas pela União. E, como sabemos, os governos petistas condicionam a liberação destas verbas à alianças políticas espúrias, tratando o recurso público, que pertence ao conjunto da sociedade, como se sua propriedade exclusiva fosse. Assim, que o descontentamento geral se direcione ao governo central, e que se inicie um movimento para, no voto, retirar o partido no poder, alguma coisa parecida com “fora PT!”, algo parecido com que eles sempre utilizaram contra governos em que eram e são oposição. Aí sim, será possível promover mudanças até radicais, porque, senhores e senhoras, não imaginem que a situação atual não possa ficar pior do que se encontra. Com o PT no poder, o fundo do poço é sempre mais embaixo.
O dia seguinte, muitas vezes, pode ser melancolicamente silencioso demais para ser percebido se as sociedades se deixam encantar pela estupidez das utopias, põem de lado o bom senso e a razão. E a razão indica que os bandidos estão alojados nos palácios dos três poderes em Brasília. Eles são os inimigos a serem vencidos. Quem imaginar o contrário, sofrerá dolorosas frustrações. Neste sentido, nossa luta não deve mirar as instituições, tampouco transpor os limites da legalidade. Nossa luta deve dirigir seu foco contra aqueles que deveriam gerir as instituições em favor da sociedade, mas apenas as tratam como seus patrimônios pessoais. E este inimigos estão em Brasília. Todos eles. É a cabeça do dragão que precisa ser extirpada.