terça-feira, junho 18, 2013

Violência no trânsito depois da Lei Seca

Editorial
O Globo

Desde 2007 o número de acidentes com vítimas aumentou 62%. Transformar esse perfil exige ações do poder público e mudança de comportamento dos motoristas

Uma cidade em transformação, o Rio tem uma demanda de trânsito cujo equacionamento passa também pelas intervenções em curso no seu sistema viário. A cada 20 minutos ocorre um acidente com vítima na capital, não poucos com morte ou mutilação irreversível. São números de uma guerra sem armamento, que atinge as famílias com tragédias que, se não são totalmente evitáveis, podem ser contidas. Indicadores levantados em reportagens do GLOBO assustam. Contabilizados desde 2007, os acidentes registram um aumento de 62%. Apenas 20 ruas concentram 40% dos casos com registro de vítimas, evidência de que problemas pontuais contribuem para agravar as estatísticas. E por aí vai.

O poder público dispõe de instrumentos eficazes para controlar a curva de acidentes. A Lei Seca é um deles — e dos mais essenciais. Desde que começaram a ser realizadas as blitzes contra a mistura de álcool e direção, o Rio de Janeiro registrou uma redução de 34% no número de mortos em acidentes de trânsito. Por si só, este indicador dá a dimensão da importância desse dispositivo, mas a legislação, sozinha, não muda estatísticas.

No primeiro ano de sua vigência, 2009, 20% dos motoristas parados nas blitzes estavam sob efeito do álcool; com o endurecimento da legislação, ano passado, o percentual caiu para 8%. Ou seja, a Lei Seca diminuiu o total de motoristas embriagados nas ruas. Mas o número de acidentes de trânsito cresceu neste período, sinal de que outros fatores pressionam a curva para cima.

Alguns deles são visíveis nas ruas. Vias sem conservação, com sinalização falha ou inexistente, falta de planejamento viário são causas que se podem jogar na conta do poder público; da parte de motoristas, falta de educação, desrespeito à sinalização, impaciência estão entre os maus modos mais constantes no trânsito. E, um problema mais estrutural, há o aumento da frota em circulação — com destaque para o crescimento do total de motos, não por acaso responsáveis pelo aumento mais acentuado de acidentes.

É uma violência que se traduz em dor (o drama da perda ou da mutilação de parentes) e custos sociais (o preço que a sociedade paga com a perda de vidas, internações, reabilitações etc.). O primeiro caso tem um contencioso imensurável, mas o segundo é responsável por prejuízos palpáveis. O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) estima que a soma do que se perde na sociedade em cada acidente com morte pode chegar a R$ 800 mil.

Problemas no trânsito são um mal do crescimento de toda cidade, mas não se pode aceitar que, diante deles, poder público e cidadãos tenham atitude passiva. De um lado, deve-se fiscalizar e punir, cuidar das ruas e aperfeiçoar o sistema viário; de outro, respeitar pedestres ou motoristas com quem se compartilham as ruas. São passos essenciais para começar a mudar o perfil da violência motorizada. A cidade precisa também se transformar nesse aspecto.