terça-feira, junho 19, 2012

Obras de mobilidade pararam


O Estado de S.Paulo

Com atrasos em todas as frentes, as obras necessárias para a realização da Copa do Mundo de 2014 estão em pior situação justamente no setor em que mais poderão beneficiar os brasileiros quando forem concluídas: o de transportes coletivos e de melhoria do sistema viário nas áreas próximas dos estádios em que haverá jogos e nas ligações dos centros urbanos a aeroportos e locais de jogos.

Bilhões de reais em recursos públicos ou financiados pelo poder público para a construção ou reforma de estádios - que, em muitos casos, serão administrados por clubes privados - têm sido justificados com a programação de obras que ficarão como legado social da Copa, pois, encerrada a competição, beneficiarão a população. São as obras chamadas de "mobilidade urbana e trânsito". Mas, no que a programação para a Copa tem de mais positivo para os brasileiros em geral, o quadro é o mais negativo de todos.

São conhecidas as deficiências técnicas do governo do PT, o que explica o atraso dos projetos federais na área de infraestrutura, inclusive urbana, mas, no caso das obras necessárias para a realização de jogos da Copa em São Paulo, as administrações municipal e estadual parecem ter sido contaminadas pela incapacidade administrativa. Projetos e iniciativas anunciados há mais de um ano mal saíram do papel e já estão paralisados, ou, como justificou ao Estado (9/6) um órgão municipal, estão "parcial e temporariamente interrompidos".

Entre outros projetos parados ou que nem começaram na zona leste da capital apontados pelo jornal estão acessos a Itaquera, onde o Corinthians constrói o estádio que receberá o jogo de abertura da Copa. Estão abandonados os canteiros das obras da nova faixa da Avenida José Pinheiro Borges (extensão da Radial Leste), de dois viadutos entre Itaquera e Guaianazes, de túneis e de canalização de um córrego. O prazo de entrega dessas obras é fevereiro de 2014.

Lançado em abril do ano passado pelo governador Geraldo Alckmin, um pacote de melhoria do sistema viário da região - incluindo alças de ligação entre as Avenidas Jacu-Pêssego e José Pinheiro Borges e duas novas avenidas - deverá estar concluído em junho de 2013, mas nada ainda foi feito. O novo prazo de conclusão é janeiro de 2014.

Isenções tributárias para empresas que se instalarem na região - medida aguardada com ansiedade por empreendedores e pela população local, pois dinamizará a economia local e permitirá a abertura de muitos postos de trabalho - foram aprovadas em 2004, mas, até agora, nenhum empreendimento foi beneficiado.

Muito pior é a situação das obras programadas pelo governo e que integram a matriz de responsabilidades da Copa, o que lhes garantiria facilidades de execução, se fosse cumprido o cronograma. Está prevista a aplicação, até 2014, de cerca de R$ 12 bilhões do governo federal em obras de "mobilidade urbana" nas cidades que sediarão jogos da Copa, mas, até o ano passado, apenas 2% desses recursos tinham sido utilizados.

Balanço divulgado há cerca de três semanas pelo governo federal mostra que a situação pouco se alterou nos primeiros meses deste ano. A pouco mais de dois anos da realização do Mundial de Futebol, 23 de 51 obras programadas (ou 45% do total) ainda não começaram. Destas, 7 ainda nem têm projeto de execução.

Essas obras foram prometidas aos órgãos internacionais ligados aos esportes pelo governo brasileiro há cinco anos, quando o País foi escolhido para sediar a Copa de 2014. Apesar do tempo que passou, sua execução continua no mínimo duvidosa. O próprio governo já admite que, dado o atraso, algumas poderão se retiradas da matriz de responsabilidades da Copa.

"Em outubro, vamos ter um retrato muito mais sólido do que andou e do que não andou", disse ao jornal O Globo (9/6) o ministro das Cidades, Aguinaldo Ribeiro, ao admitir que algumas obras poderão sair da programação da Copa - embora devam ser mantidas no PAC. Se isso ocorrer, não haverá surpresas, pois serão mais alguns atrasos num programa que tem como característica o atraso de suas obras.

***** COMENTANDO A NOTÍCIA:
Lá atrás, quando critiquei aqui a candidatura brasileira pra sediar a Copa do Mundo em 2014, o que não faltaram foram críticas pesadas, algumas agressivas, pela minha postura. Uma das razões inclusive estava bem próxima, os Jogos Panamericanos no Rio de Janeiro em 2007. Ali foi possível perceber o despreparo do país para bancar grandes eventos. Além dos atrasos, das obras superfaturadas, algumas das promessas ficaram pelo caminho.E tínhamos, então, uma unica sede. Imaginem a mobilização que seria necessária para bancar um evento em doze sedes! Absurdos dos absurdos. O País estava assumindo um compromisso para o qual não estava preparado. Faltávamos tudo. Desde obras de mobilização urbana, até rede hoteleira, estádios, etc. Ora, diante disto, e olhando-se para os custos necessários - e sempre levando em conta o que acontecera com o Pan do Rio - a realidade que temos hoje não surpreende. 

O país já abriu mão de sua própria soberania, ao acolher as exigências da FIFA na tal Lei da Copa. Durante décadas a sociedade se mobilizou para proibir a venda de bebidas alcoólicas nos estádios. Além disto, dentre as sedes escolhidas, mais da metade teria jogos em arenas públicas, ou seja, suas adaptações exigiriam recursos públicos, muito embora  se dizia que isto não aconteceria. E é só recurso público que tem entrado em campo. Sabendo que o país não conseguiria atender o cronograma prometido, o governo federal decretou que, em dias de jogo, teremos feriado nacional, o que elimina o movimento de pessoas e veículos à metade. Justamente porque as cidades sedes não poderiam atender o fluxo que os jogos provocam. 

Mais: o grande templo do futebol brasileiro, o Maracanã, é bem um exemplo de dinheiro jogado no lixo. Apesar da reforma que recebeu para o Pan, em 2007, a nova reforma consumirá mais de 1 bilhão de reais para poder receber a Copa. E, como em 2016, também no Rio de Janeiro, acontecerão os Jogos Olímpicos, não será surpresa se outra reforma for realizada e a custo estratosférico. Mas o detalhe degradante nesta história é que o Maracanã somente receberá jogos da seleção brasileira se ela chegar ao jogo final. Inexplicável.

Ainda em relação às arenas, todas as que são do poder público, estão sendo erguidas ou reformadas para abrigar apenas jogos de futebol. E sua maioria se localiza em cidades onde sequer se tem times da primeira divisão. Em consequência, terminada a Copa, teremos meia dúzia de imensos elefantes brancos, porque sabemos que o poder público não tem sequer competência de manter as arenas em funcionamento, fora a conservação de suas instalações, que acabarão apodrecidas. 

Quanto às obras de mobilidade urbana, o quadro acima citado pelo Editorial do Estadão, é bem uma amostra do quanto o Brasil estava, e ainda está despreparado para sediar eventos de grande porte. E olha que não faltaram nem recursos tampouco tempo para que as mesmas pudessem ser iniciadas e concluídas. Há obras que sequer saíram do papel.

Talvez as lições que a Copa nos deixará sirva para que o país caia na real. Apesar de intensa propaganda oficial bombardeando a sociedade diariamente tentando dizer o contrário, é inegável que o Brasil é um país pobre, com parcos recursos, com imensas carências que requerem prioridade e investimentos em grande escala, investimentos que não temos na quantidade que o atendimento às estas carências exigem. Desviar estes recursos da saúde, educação, segurança, infraestrutura, só para citar estes pontos, é um crime. E o pior é que, no caso da mobilidade urbana, as obras em curso, além de custos superdimensionados, elas carecem de uma visão de longo prazo cruel. Atende necessidades do país agora, em 2012, e não demorará muito para logo serem superadas. 

Assim, esta Copa servirá apenas para políticos e outros oportunistas e cretinos engordarem suas contas bancárias, além fazerem cartaz junto à população, que, sedada pelo lusco-fusco do "grandioso espetáculo da terra", continuará sofrendo com serviços básicos da pior qualidade.