Sebastião Nery
RIO – Lomanto Júnior elegeu-se governador da Bahia em outubro de 1962 e foi aos Estados Unidos. Queria recursos para tocar para a frente o CIA (Centro Industrial de Aratu), próximo à refinaria de Mataripe, pensado, articulado, criado e estruturado por Rômulo de Almeida.
Com Lomanto, viajou o saudoso Marcelo Gedeon, parente do governador, presidente do CCPC (Conselho Consultivo dos Produtores de Cacau), cidadão do mundo, inteligente, sutil e mordaz.
Lomanto foi a uma reunião com empresários e tecnocratas do governo americano, fez longa exposição sobre o projeto do Centro de Aratu, suas perspectivas e possibilidades. Lomanto falava, naturalmente em portugues, Marcelo, casado com uma americana, traduzia.
Lomanto
Quando acabou, os empresários americanos apresentaram uma série de sugestões para investimentos. Lomanto anotava em um caderno branco. Depois, conferiu o relógio, viu que já era tarde, falou ao ouvido de Gedeon:
- Marcelo, vamos embora que esses gringos já estão muito ricos, falam demais e tenho um compromissos daqui a pouco.
Marcelo sorriu, os americanos ficaram curiosos:
- O que é que ele disse?
Marcelo fez uma cara de São Francisco de Assis com gripe:
- Ele disse que 5 por cento de tudo que foi acertado aqui é meu.
E deu uma gargalhada. Os americanos não entenderam nada.
Marcelo
A diferença entre a década de 60 e hoje é que, se fosse agora, os americanos iriam achar a resposta de Marcelo natural e modesta. Anteontem, na pagina 2 da “Folha”, o Fernando de Barros e Silva escreveu:
- “Todos honestos, todos inocentes. O fato é que ministérios como Turismo e Cultura viraram entrepostos de maracutaia”.
E ninguém reclamou, ninguém achou ruim.
Sarney
No mundo inteiro, o turismo tornou-se sobretudo uma atividade para a Terceira Idade. E o Brasil é um pais tão esperto que, para o ministério do Turismo, escolheu logo um ministro da Quarta Idade, o deputado maranhense Pedro Novais, já provecto nos seus 80 anos.
No Maranhão, explicam-me que o senador Sarney, que o indicou, o escolheu não pelo energético apelo das maracutaias, de que falou o Fernando de Barros e Silva, mas porque o Pedro Novais foi o único que Sarney encontrou mais velho do que ele.
Frei Beto
A regra básica do governo é mentir sempre para ver se a mentira pega. Mas nem todo mundo é igual no governo. Poucas pessoas, e dá para contar nos dedos de uma mão, são tão próximas e tão intimas de Lula quanto Frei Betto. E foi ele, com seu compromisso cristão da verdade, quem disse no jornal “O Dia”, do Rio, na semana passada :
1. – “Findas as eleições e vitoriosa Dilma Rousseff, é hora de encarar o Brasil real. Há muito a ser feito. Em que pese os avanços sociais do governo Lula, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD 2009, IBGE), a renda média do brasileiro, calculada em R$ 1.106 em 2009, foi 2,2% inferior (!) à de 2008”.
2. – “Embora o rendimento real médio do trabalho tenha se elevado de R$1.082 (2008) para R$1.106 (2009), numa alta de 2,2%, esta variação ainda é inferior (!) à da década de 1990”.
Desemprego
3. – “Em 2009, trabalhavam no Brasil 101,1 milhões de pessoas. Metade na economia informal, sem carteira assinada. Comparado com o ano anterior, houve aumento do emprego com carteira assinada, de 58,8% (2008) para 59,6% (2009)”.
4. – “Porém, o desemprego teve alta (!) de 18,5%. Em 2009, o índice foi de 7,1 milhões de desempregados. Em 2009, 8,4 milhões, acréscimo de 1,3 milhão de pessoas fora do mercado de trabalho”.
5. – “Com o governo Lula, o Brasil avançou na redução da pobreza e da desigualdade social. Cerca de 20 milhões de pessoas deixaram a extrema miséria. Porém, houve queda (!), nos últimos anos, do ritmo de aumento da renda dos 10% mais pobres”.
Argello
Antes da campanha eleitoral, meses atrás, toda manhã, na Península dos Ministros, em Brasília, caminhavam a ministra-chefe da Casa Civil, o cachorro do Zé Dirceu e um simpático, posudo e metido a bonitão senador.
Tanto caminharam e tanto conversaram que o até então anônimo e desimportante senador começou a disparar em prestigio e poder no Senado. Suplente do ex-senador e ex-governador Joaquim Roriz, o que lhe parecia um labéu, o senador logo se tornou líder de seu partido, o PTB, e sobretudo poderoso vice-líder do governo.
E, logo logo, surpreendentemente, o Palácio do Planalto o catapultou para a presidência da Comissão do Orçamento, uma das mais ambicionadas e disputadas posições do Congresso.
Eis senão quando tudo se esboroou. Enfiado até o pescoço em “maracutaias”, das quais falou o Fernando Barros, o senador Gim Argello, com seu nome de botequim (Gim com Gelo) renunciou à presidência da Comissão do Orçamento e voltou ao anonimato do Senado. Em tempo.