Adelson Elias Vasconcellos
Num país em que um palhaço recebe mais de 1,3 milhões de votos, é intrigante ver pessoas se indignando por conta do aborto ter se tornado um tema recorrente na campanha deste turno.
Como, também, chega a ser cômico ver gente vociferando “fundamentalismo” para algo que, conforme as pesquisas mesmo indicam, é reprovado por mais de 70% da população. Como, ainda, chega a ser canalhice alguns jornalistas, que defendem o governo, o Petê e Lula, apelarem para uma história de crimes da Igreja Católica, para tentarem abortar o tema do debate, como fez o senhor Alberto Dimes, jornalista empregado da TV Brasil, estatal portanto, e que parece não gostar que a sociedade debata um assunto de seu interesse, talvez porque este interesse se choque com o interesse da candidata e de seu partido. .
Para começo de conversa, é preciso deixar bem claro que, quem de fato trouxe o assunto para o centro do debate, foi o próprio PT e o Governo, como ainda a própria candidata quando, há cerca de três anos atrás, indagada sobre o tema, ter dado uma declaração favorável que agora, sob os holofotes da campanha, tentou negar, valendo-se do expediente cínico de que se tratava de intriga da oposição. Ora, Dilma esquece que não foi a oposição quem a indagou se ela era favorável ou não ao aborto, foi a imprensa. E se o fez é porque se sabe que este tema é sagrado para um país de maioria cristã, congregando-se aqui todas as religiões que se derivaram de uma mesma crença.
O tema é relevante? Mas claro que é, e deve ser debatido e discutido pela sociedade sim. E pela simples razão, não da campanha eleitoral, mas pelas tentativas do governo Lula de descriminalizar a prática. A Constituição brasileira já prevê dois casos específicos, aliás, a constituição atual, de 1988, apenas referendou uma lei que existe desde 1940. Serra, ao regulamentar os procedimentos destes dois casos na rede pública de saúde, quando Ministro da Saúde, nada mais fez do que cumprir a lei que existia antes mesmo dele nascer, garantindo assistência às mulheres mais pobres, principalmente, um atendimento legalmente previsto.
No caso de Dilma, governo Lula e Petê, a descriminalização é bandeira, é crença, é valor. Está inscrito no programa do partido, e o governo Lula, de forma furtiva, tentou incluí-lo no tal Programa de Direitos Humanos. Precisou recuar neste e em outros pontos polêmicos dada a reação negativa da sociedade., mas o mantém em seu programa, numa clara demonstração de que sua opinião conflita com a do povo brasileiro.
Assim, o debate se torna oportuno sim, para que fique claro ao sucessor ou sucessora de Lula que o país não aceitará mudar algo contra a qual a maioria se indispõem. Mas o grave não é isto, inadmissível é o oportunismo eleitoral de Dilma Rousseff de tentar iludir a opinião pública sobre sua real posição, que se moldou apenas por conta da campanha eleitoral.
Da mesma forma, sua conversão à fé católica. Para quem se conflitava sobre se Deus existia ou não - e isto está gravado -, o cheiro da demagogia fica escancaradamente exposta.
Claro que há mais temas igualmente importantes que estão sendo deixado de lado, além de outros que são sendo trazidos de forma vigarista e desinformada. O caso das privatizações então, é escandalosamente tendencioso, porque não se informa ao eleitor as vantagens que o programa deu para o país. Pode-se incluir na vigarice coisas do tipo “eles não tinham Bolsa Família”. De fato, o “bolsa família” que está aí, não, mas tinham uma rede de proteção social no qual se incluíam 12 programas bem fundamentados e dos quais o governo atual sequestrou quatro para reuni-los sob a bandeira do Bolsa Família. Dizer que FHC não fez programa social? É apelar para a vigarice e má fé.
Em seu programa eleitoral, Dilma insiste na tese do plebiscito entre Lula e FHC, quando nem um nem outro são candidatos. Bate na tecla errada, como errada é sua avaliação porque, honesto mesmo, seria se comparasse a situação do país que cada um encontrou. Como esconde que o país ainda está sob a clivagem do FMI, que não pagou dívida coisíssima nenhuma, que trocou de forma vigarista uma dívida barata por outra muito mais cara.
Há temas que precisam ser tratados com seriedade e estão sendo postos de lado? Sim, mas como se pode levar para um debate honesto temas importantes quando um dos lados, de forma canalha e vigarista, corrompe a própria história para reescrevê-la de forma tão cretina? Entre ser desonesto também e deixar o assunto para melhor oportunidade, escolhe-se o segundo caminho. Está errado, por certo, mas pelo menos é a maneira mais decente de poder competir contra quem não tem o menor escrúpulo. Para a turma do Pete, Dilma e Lula, desonra é perder eleição. E para evitar a derrota, para eles o “vale-tudo” vale tudo mesmo, ou seja, mentir, iludir, enganar, trapacear e, se possível, até mudar o povo.
Assim, dona Dilma pode assinar a carta aberta sobre o aborto que quiser, que isto não será impedimento para o governo, através da sua base, fazer o projeto avançar. Porque sendo de iniciativa legislativa, mesmo que Dilma o vete, o projeto transformado em lei, mesmo vetado, poderá ser aprovado independente da vontade do presidente. E, neste caso, a boa desculpa já estará desenhada. Como esta gente não é de confiança, e parte dos evangélicos “guiados” por Edir Macedo acompanharão o voto do pastor que já se disse favorável à descriminação, Dilma poderá assinar o que quiser, que seu “compromisso” jamais será verdadeiro, justamente porque não só ela já se disse favorável ao aborto, como ainda o projeto faz parte do programa do PT. Ou por que vocês acham que ela até agora não divulgou seu programa de governo, aquele em que assina e não apenas rubrica, ou aquele que só assina depois de ler?
Porque sempre é bom lembrar: o dossiê contra dona Ruth Cardoso, que era dossiê sim, a Casa Civil de Dilma disse tratar-se de “banco de dados”. O tal Programa de Direitos Humanos, o PNDH versão 3.0, apesar de haver participado da construção de seu texto, ela disse que “assinou sem ler”. O programa de governo que ela protocolou no TSE, onde rubricara todas as páginas, ela disse que a “rubrica não é assinatura” e que o fez sem ler. Ou seja, Dilma, Lula & Cia sempre sacam a versão de que, o que é, não é o que parece ser... Entenderam?