quinta-feira, outubro 14, 2010

Dilma vai divulgar uma carta aberta ao povo de Deus

Josias de Souza, Folha online


Antônio Cruz/ABr


Na eleição presidencial de 2002, Lula prevaleceu sobre José Serra depois de divulgar a célebre “Carta ao Povo Brasileiro”.

No texto, Lula como que se rendeu ao deus mercado. Renegou o pedaço econômico do evangelho socialista do ex-PT.

Neste ano da graça de 2010, às voltas com uma disputa contra o mesmo José Serra, Dilma Rousseff assinará outra carta.

Dessa vez uma “carta aberta” dirigida ao povo de Deus. Na peça, a pupila de Lula dirá que, eleita, não vai bulir com temas que contrariam as igrejas.

Prometerá não enviar ao Congresso proposta de descriminalização do aborto ou projeto de legalização da união de casais homossexuais.

Ou seja, depois do ideário econômico, vai à lata de lixo outra plataforma cara ao ex-petismo: a atualização dos costumes.

Vai à reciclagem também o pensamento e a coerência da ex-Dilma. Uma personagem que, há três anos, defendida enfaticamente o aborto. Assista abaixo:




Nas últimas semanas, demonizada por padres e pastores e fustigada pelo neocarola Serra, Dilma achegou-se à agenda beata.

Nesta quarta (13), a candidata beijou a cruz. Deu-se num encontro com 51 representantes de diferentes denominações evangélicas.

Ao confirmar que vai mesmo acomodar o jamegão na nova carta, Dilma não esmiuçou o conteúdo da peça.

A julgar pelo que disseram seus interlocutores, a rendição será ampla e irrestrita. É o que se depreende das declarações do senador Marcelo Crivella (PRB-RJ).

Bispo licenciado da igreja Universal, Crivella informou que, além de renegar o aborto e o casamento gay, Dilma se dirá contra outros temas.

Por exemplo: a descriminalização das drogas, a conversão da prostituição em profissão e a adoção de crianças por casais do mesmo sexo.

Há mais: além de não enviar projetos ao Legislativo, Dilma se comprometeria a vetar novas leis que eventualmente os congressistas venham a aprovar.

A ser verdade, o Brasil teria, sob o hipotético governo Dilma, uma presidente pacificada com os templos, mas em conflito com o Judiciário.

A Justiça brasileira já reconheceu, em inúmeras sentenças, o direito de homossexuais à herança e ao plano de saúde e seus parceiros.

Em veredictos mais recentes, o Judiciário admitiu também a adoção de crianças por casais do mesmo sexo.

A cena eleitoral brasileira faz lembrar um personagem literário em cujos lábios Dostoiévski acomodou a célebre frase: "Se Deus não existe, tudo é permitido".

Nelson Rodrigues atualizou o escritor russo. Em meio a uma suruba homérica, personagem de uma peça do cronista brada: "Se Vinicius de Moraes existe, tudo é permitido!"

Na sucessão de 2010, a devoção de conveniência e a licenciosidade poética também tornaram tudo permitido. Inclusive o surgimento de hipócritas praticantes.