segunda-feira, junho 24, 2013

Dólar alto afeta ainda mais o crescimento brasileiro

Cássia Almeida e Henrique Gomes Batista 
O Globo

Cenários traçados incluem desde expansão medíocre do PIB até recessão


Reuters 
O lado bom do dólar mais valorizado pode aparecer na balança comercial brasileira, 
segundo a Associação do Comércio Exterior do Brasil. 

RIO — A valorização de mais de 10% na moeda americana no último mês pode esfriar a já morna economia brasileira. Se o dólar se mantiver próximo à cotação de R$ 2,24, como fechou na sexta-feira, as consequências virão tanto nos preços como no consumo e no investimento. Esse é mais um ingrediente sombrio neste momento de crescimento de apenas 1,2% nos últimos 12 meses e inflação superior a 6,5%, o teto da meta fixada pelo governo.

Os cenários traçados pelos economistas são desanimadores. Os mais otimistas acreditam que manteremos a situação atual de crescimento medíocre e inflação alta, mas não explosiva. Outros mais pessimistas, veem até recessão, que será causada por uma política monetária mais austera, o que significa juros mais altos. Assim, a inflação cai juntamento com o Produto Interno Bruto (PIB, conjunto de bens e serviços produzidos pelo país).

O professor do Ibmec Reginaldo Nogueira está entre os pessimistas. Para ele, já vivemos em estagflação, palavra que dominou o debate econômico nos anos 1980, a chamada década perdida, quando o país não crescia e a inflação beirava os três dígitos.

— Ou continuaremos nessa situação ou teremos juros mais altos (com o Banco Central subindo a Taxa Selic, atualmente em 8% ao ano), o que provocará recessão com desinflação (índices caindo).

Para o economista chefe da GAP Asset, Alexandre Maia, não há esse risco. Seguiremos o caminho trilhado hoje: “expansão medíocre e inflação no teto da meta”:

— Teremos crescimento perto de 2% e inflação girando entre 5,5% e 6%. Sobre a alta do dólar, há forças que se anulam. Há política monetária restritiva, ambiente global reduzindo preço das commodities, consumo arrefecendo e mercado de trabalho menos aquecido. O repasse para os preços será comedido.

Balança mais equilibrada
Carlos Thadeu de Freitas, economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio, acredita que o governo usará armas, como intervenções maciças, compra de títulos e retirada de todos os obstáculos para entrada de divisas, o que fará cair a cotação da moeda americana. E os juros devem continuar subindo.

— O custo final é crescer menos. Talvez abaixo de 2% este ano.

Carlos Langoni, diretor do Centro de Economia Mundial da FGV, acredita que o país vive um paradoxo: o governo passou dois anos reclamando da chamada “guerra cambial”, quando os Estados Unidos aumentaram a liquidez mundial, forçando a valorização da moeda de nações emergentes. E agora, quando há a “paz cambial”, o cenário externo conturbado e a fragilidade macroeconômica do país criam dificuldades, justo quando o governo tenta fazer que o investimento assuma o crescimento do país.

— Haverá efeito negativo sobre os investimentos, que ficarão mais caros com bens de capital importados. E as empresas terão mais dificuldades para financiar projetos, seja por falta de recursos global, seja pela dificuldade de lançamentos de ações e de debêntures, que já estão sendo cancelados — afirmou o professor, lembrando que o país deverá ficar mais dependente do BNDES.

O lado bom do dólar mais valorizado pode aparecer na balança comercial brasileira. Na visão de José Augusto de Castro, presidente da Associação do Comércio Exterior do Brasil (AEB), a moeda americana poderá aumentar a competitividade dos produtos industrializados, mas somente em 2014. Esse segmento representa apenas 30% das exportações. No caso das commodities, a alta do dólar vai apenas compensar a queda dos preços destes produtos.

— As empresas estão planejando suas compras de fim do ano. Com dólar caro, mercado de trabalho mais fraco, podem reduzir importações. Isso pode equilibrar a balança, que caminhava para um déficit — disse.