segunda-feira, junho 24, 2013

Por que o Brasil chegou a este ponto?

Adelson Elias Vasconcellos

Nada no campo social e político nasce ao acaso. Sempre se encontrará um momento em que os eventos do presente tiveram um primeiro passo, uma primeira causa, um espécie de big-bang. 

A mobilização brasileira, que deixa atônitos políticos e estudiosos, não é um fenômeno parido apenas a partir da reclamação, até simplória, dos vinte centavos a mais no transporte coletivo. E nem isso denotou tanta agitação. Pode até ter sido usado como estopim, mas não se pode reconhecer como o explosivo que estourou e colocou milhões nas ruas.

É preciso um pouco de memória para localizarmos as células iniciais destas manifestações. Voltemos no tempo, e olhemos os resultados das eleições  de 2002 para cá. 

Quando Lula foi eleito, este já foi um acontecimento que prenunciava que havia algo de diferente na sociedade.   Lula representava esta busca de algo novo, capaz de mudar o cenário político que vinha se desmanchando moralmente. 

Porém, na medida que o tempo passava, o que se observou foi que Lula não veio para mudar coisa alguma. O apelo eleitoral  não passava de um apelo eleitoral. Logo, sob a desculpa de se garantir a governabilidade, Lula aliou-se com o diabo (como aliás ele próprio reconheceu várias vezes), não com o propósito de promover mudanças no cenário que encontrou, e sim para reduzir a resistência ao seu nome e se conservar soberano no poder. 

Em seu primeiro mandato, ainda quando a economia esteve sob o comando de Palocci, Lula ainda tentou ser um pouco mais conservador, nem tanto à esquerda, como queria seu partido, nem tanto à direita como as forças retrógradas e apodrecidas desejariam. Esta postura central, tinha por objetivo ganhar terreno, permitir que as reformas herdadas de seu antecessor e bafejado pelos bons ventos da economia mundial,   continuassem produzindo frutos que, espertamente, ele foi colhendo e declarando-se pai da semeadura. 

Deu certo. No plano parlamentar, Lula sabendo do apetite dos políticos, criou o mensalão com um propósito: primeiro fragmentar ao máximo que pudesse a oposição e, segundo, captar apoio para formar alianças e impor uma agenda de mudanças, agora mirando a agenda das esquerdas. Tal estratégia tinha um ponto a ser alcançado: a hegemonia do PT no poder central.

A conquista do segundo mandato já foi um pré aviso: lembram dos aloprados, bando de petistas da cozinha presidencial que tentaram comprar e montar um dossiê falso contra Serra e Alckmin? Pois bem, este escândalo foi uma das causas que provocou o segundo turno. Muito embora tenha vencido, o governo Lula 2 iniciava seu tempo com duas graves máculas: o mensalão, escândalo eclodido em 2005, e os aloprados que provocou o segundo turno em 2006. 

Os dois episódios combinados tinha munição suficiente para que a oposição à Lula se fortalecesse e pudesse representar a ala do eleitorado insatisfeito com os caminhos da era Lula, que se desviava, dia a dia, de seu mote de campanha, um Brasil de mudanças. Porém, na medida que a oposição se acovardou e se apequenou, esta parte da população passou a ver que não tinha, no plano político, um canal representativo para encaminhar suas demandas.

Porém, isto ficava cada vez mais transparente a cada nova eleição, fossem elas de cunho federal ou municipal. Voltem nas estatísticas e reparem que a soma de votos brancos, nulos e abstenções sempre foi crescente, chegando ao ponto de, em 2012, elas terem superado em todo o país, mais de um terço do eleitorado.

Ora, o simples olhar para estes números já indicaria que a mobilização de insatisfação se movia no seio do povo brasileiro com bastante força. E para que ele explodisse como agora,  não se precisaria de um motivo inteiro, bastava meio motivo.

Olhando-se a cara da manifestação presente,  é visível ser majoritariamente de classe média. Já falei aqui da estranheza de um movimento popular desta envergadura, não tenha posto nas ruas o povo mais pobre do país. Estariam eles mais satisfeitos? Claro que não, seguramente a população pobre seja a parcela da sociedade que é mais violentada institucionalmente. É quem mais padece pela precariedade dos serviços públicos. Quando não pela ausência completa de estado.

Porém, as políticas públicas do petismo privilegiaram, essencialmente, os pobres de um lado, com as políticas de distribuição de renda, iniciadas com Fernando Henrique e aprofundadas por Lula, e  a elite empresarial, com concessões creditícias para uns e as políticas de juros altos, que muito agradaram os banqueiros.

Assim, tendo ampliado sua base de apoio legislativo, com distribuição farta de cargos e verbas, com a elite empresarial agraciada com facilidades via BNDES, e os pobres beneficiados pelas infindáveis bolsa qualquer coisa que lhes transmitia uma falsa sensação de bem estar, entendia-se que não haveria risco à hegemonia política pretendida. 

Ora, todo este investimento foi pago por quem? Quem teve que suportar o peso de tantos benefícios, privilégios e concessões? A classe média, mas a classe média real, não a inventada por Dilma.

Esta parcela da sociedade, de repente, viu que apenas trabalhar e estudar não capaz de lhe garantir um futuro seguro. O custo dos planos médicos disparou. A educação definhou e, onde havia qualidade, esta classe média precisou dividir o espaço com aos beneficiários das políticas de cotas. O valor das mensalidades foi muito além da inflação. A segurança foi para o vinagre.  Afora o trânsito, matam-se 50 mil pessoas por ano no Brasil.

Ou seja, o mundinho da classe média, erguido com trabalho, esforço, estudo e sacrifícios, de repente foi ruindo em troca de coisa alguma. Apenas para que se tenha uma ideia das muitas maldades contra ela cometidas, a isenção do imposto de renda na fonte sobre o trabalho assalariado caiu de 5 salários mínimos em 2002, para cerca de 2,5 salários mínimos em 2013. As tarifas de energia elétrica que, em 2002 tinham  21,6 % de carga tributária, saltaram para 48,0% em 2012. No consumo, a classe média real precisa ir ao exterior para comprar aquilo que no Brasil se tornou caro demais, em razão da carga de impostos diretos e indiretos.   

Estes dados preliminares indicam que, desde 2003, a classe média vem sendo estrangulada e exprimida   para beneficiar, de um lado, os pobres e miseráveis, e de outro lado, a elite econômica que dá sustentação financeira ao fortalecimento do PT. Observa-se uma inversão na lógica de se tirar um pouco de quem tem muito para distribuir com quem nada tem. Aqui, a fórmula foi tirar de quem tinha um pouco, para distribuir para nada tem e, incrível!, também para os que tem muito. Apesar dos discursos, a carga tributária brasileira em relação ao PIB nunca foi tão elevada como agora, e ela pesa muito mais para a classe média real, aquela que, de fato,  sustenta comércio, indústria e serviços.

E é neste ponto que entra a inflação. Os preços que mais se elevam são os serviços, justamente aqueles que esta classe média mais se vale. Basta que olhemos o quanto subiram as mensalidades escolares e as mensalidades dos planos de saúde. 

Colocado tudo num mesmo caldeirão, é lógico que o ponto de ebulição acabaria eclodindo a qualquer momento. Valeram-se da convocação para protestar contra a tarifa de transporte público, para ali darem-se conta que poderiam ir às ruas utilizando-se das redes sociais para demonstrar toda a sua gama de razões para estarem insatisfeitos. E um detalhe: quem mais utiliza o transporte público nem é a classe média real. 

Eis aí um histórico de fatos  que foram contribuindo, um a um,  para a explosão de indignação que se verifica nas ruas. Em artigo anterior, expliquei os motivos dos pobres estarem distantes destes movimentos. Até porque, grande parcela não pode se dar ao luxo de se ausentar do trabalho por dois, três, quatro dias ou mais para ir às ruas. 

Entendidas estas duas questões, é hora de perguntarmos: para onde vamos? No que resultará este movimento de insatisfação que, apesar de ter as cores e a cara da classe média, não é menos popular do que se fossem os pobres a maioria dos que protestam? 

Qual o efeito que as manifestações provocarão na vida política nacional? Bem, este será o tema do próximo artigo. Advirto, porém, que não há um projeção de cenário único. Podemos, muito bem, seguir avançando, e forçando os agentes políticos a mudaram suas atitudes em favor de todos e não apenas de alguns, ou podemos  optar pelos salvadores da pátria, aproveitadores e oportunistas – sejam de direita ou esquerda – que sempre nestas horas de crise e convulsão se apresentam com suas fórmulas mágicas mas com o propósitos  demagógicos e falsos. Os tais lobos em pele de cordeiro.

Daí porque é importante que os formadores de opinião, com competência e isenção, sejam aríetes e guias da racionalidade,  esclarecendo e orientando os manifestantes sobre os caminhos possíveis para alcançar aquilo que almejam e que os levaram às ruas para reivindicar.  Saber identificá-los, num país em que o pensamento político  se tornou tão obscurantista, em que divergir do pensamento político dominante é tão maltratado e malvisto, não será uma tarefa fácil. É preciso colher o máximo de informações, conhecer a fundo o perfil e a formação de cada destes ideólogos. Mas creio já estar entrando no tema que pretendo tratar em outro momento.