domingo, novembro 07, 2010

Ao confundir oposição a ele com oposição ao Brasil, Lula está sendo leviano e irresponsável

Ricardo Setti, Veja online

O presidente Lula está em estado de graça com a vitória de sua candidata à Presidência, Dilma Rousseff. Exsuda felicidade e alegria por todos os poros. Promete que não vai interferir n o governo da sucessora, que não pretende indicar nomes, não participará dos trabalhos da equipe de transição, não é candidato às eleições de 2014.

Agradece a Deus por tudo ter corrido bem e ao povo brasileiro pelo espírito democrático. Jura que não tem apego ao poder, “não estou saudoso coisíssima nenhuma”.

Em meio a esse estado de bonomia, no entanto, o presidente podia dar uma folga à bílis oculta debaixo de tanta felicidade. Um travozinho de amargura que nem a vitória eleitoral acachapante fez desaparecer.

Em pelo menos duas ocasiões na entrevista coletiva que concedeu junto à Dilma, o presidente mencionou, como ocorre incontáveis vezes em seus quase 8 anos de mandato, a políticos que torcem para que “nada dê certo”.

“Queria pedir à oposição que a partir do dia 1º de janeiro — contra mim não tem problema, podem continuar raivosos, podem continuar do jeito que sempre foram –, mas que eles olhassem um pouco mais o Brasil, que torcessem para que o Brasil desse certo”.

Depois:

“Mas eu queria apenas pedir que no Congresso a nossa oposição não faça contra a Dilma a política que fez comigo, a política do estômago, da vingança, do trabalhar para não dar certo”.

Ora, são acusações muito graves — e irresponsáveis.

Quer dizer que a oposição que Lula teve — fraquinha, fraquinha –, por cumprir o dever recebido do eleitorado de se opor a medidas vindas do Palácio do Planalto ou de forças que o apóiam, “torceu para que o Brasil não desse certo”, “trabalhou para [o país] não dar certo?”

Como, assim?

O presidente tem a obrigação de citar nomes e casos. Quando ocorreu isso? Na discussão de que projeto? Quem quis que “o Brasil não desse certo”?

Quer dizer que quem se opôs a ele, Lula, se opôs ao Brasil?

Ao confundir oposição a seu governo com oposição aos interesses nacionais, ao de alguma forma se julgar titular do monopólio do patriotismo e dono da verdade sobre o que é ou não bom e adequado para o país — desculpem-me carregar nas tintas — Lula está sendo leviano e irresponsável.