Adriana Vasconcelos, O Globo
Depois de uma disputa presidencial acirradíssima e com temperaturas elevadas, confesso que me surpreendi com o primeiro pronunciamento oficial da presidente eleita, Dilma Rousseff.
A verdade é que, com ajuda ou não de um 'ghost writer', Dilma disse o que uma boa parcela da população queria ouvir: garantiu liberdade de imprensa, para todas as crenças religiosas e a defesa dos direitos humanos.
Nas primeiras entrevistas, a presidente eleita também vem demostrando uma desenvoltura muito maior do que a apresentada pela candidata petista, presa à camisa de força imposta pelo marketing político.
Agora, resta saber como Dilma conseguirá enfrentar problemas antigos, a começar pelo apetite voraz do PMDB por cargos.
Ao ceder à vaga de vice para o PMDB, para garantir o apoio formal do partido à candidatura de Dilma e a consequente ampliação de seu tempo no horário eleitoral gratuito, o PT e Dilma acabaram deixando em segundo plano a discussão de uma aliança programática.
É fato também que os peemedebistas não chegaram a insistir nesta aliança programática, até porque o objetivo principal do partido sempre foi outro: garantir sua permanência no poder e nos cargos que dispôs ao longo do governo Lula.
Se Dilma ceder agora ao apetite peemedebista, seguirá o caminho de todos os seus antecessores, o que não chegaria a surpreender.
Mas essa é a hora de impor os limites para essa aliança política, aproveitando-se da força que as urnas sempre confere aos recém-eleitos, estabelecendo crítérios éticos e técnicos para as indicações políticas.
Isso poderá ajudar a presidente eleita também a administrar a pressão dos demais partidos que integraram a ampla coligação que deu sustentação à sua candidatura, pois ela efetivamente virá, mais cedo ou mais tarde.
Será importante ainda que Dilma leve adiante a ideia _ lançada já no seu primeiro pronunciamento oficial _ de estender as mãos para os derrotados.
Para isso, serão necessários gestos concretos, pois a oposição não se contentará apenas com um discurso.
Com os aliados em pé de guerra pela ocupação do futuro governo, será importante garantir uma trégua da oposição.
Um canal para a abertura desse diálogo com a oposição poderá ser um convite não só aos governadores eleitos do PSDB e DEM, como para os principais líderes dos dois partidos, para que participem da definição de uma agenda em comum de interesse para o país.