quinta-feira, julho 11, 2013

Custos levam aéreas a reduzir oferta de assentos

Geralda Doca 
O Globo

TAM deve seguir a Gol e reduzir o número de voos; grandes empresas abandonam os aeroportos regionais

Michel Filho / 19-2-2010
Companhias estão diminuindo as rotas com conexões 

BRASÍLIA — Diante da alta do dólar e com pouca margem de manobra para repassar custos aos preços das passagens, as maiores empresas aéreas do país já preparam novas reduções na oferta de assentos para o segundo semestre do ano. Segundo fontes do mercado, a TAM está prestes a anunciar corte semelhante ao da Gol, que, a partir de agosto, deixará de operar 200 voos por semana. As menores Azul/Trip e Avianca, que vinham num processo de expansão da malha, também pisaram no freio.

Dados da Agência Nacional da Aviação Civil (Anac) mostram que a quantidade de rotas oferecidas por mês já caiu 4,2% neste ano, de 1.130 para 1.082, o que significa que 48 trechos deixaram de ser atendidos no Brasil. O número de cidades servidas recuou um pouco menos, 2,1%, de 188 para 184, o que leva a concluir que, num primeiro momento, as empresas estão reduzindo o número de frequências. A pesquisa foi feita com base nos dados de janeiro a maio, últimos disponíveis.

Menos conexões
O levantamento revela ainda que, para cortar custos e aumentar o índice de ocupação dos aviões, as empresas estão reduzindo o número de voos com conexões e privilegiando as ligações diretas entre dois aeroportos. A quantidade média de voos de uma só etapa subiu 5,8%, de 13.878 por mês para 14.688; já nas com duas etapas, a queda foi de 16%; nas com três, 24,09%; e nas com quatro ou mais, o recuo foi de 17,6%.

Outra conclusão é que as maiores (Gol e TAM) estão deixando os pequenos aeroportos (regionais) e concentrando as operações nos grandes hubs (centro de distribuição de rotas), os eixos Rio, São Paulo, Brasília, Belo Horizonte e Porto Alegre. O espaço deixado vem sendo ocupado pelas companhias menores.

Tarifas promocionais estão mais escassas
Os ajustes feitos pelas empresas já surtem efeito nos preços, na avaliação do Proteste - Associação Brasileira de Defesa do Consumidor. Segundo a coordenadora institucional do instituto, Maria Inês Dolci, as tarifas promocionais estão ficando cada vez mais escassas e os preços nas compras com pouca antecedência da viagem, cada vez mais salgados. Ela lembrou que o valor da passagem para as cidades que foram sedes dos jogos da Copa das Confederações, entre 15 e 30 de junho, triplicou.

— A percepção é que as promoções são do tipo “relâmpago”, para destinos pouco procurados e em horários pouco atrativos — disse ela, que pretende acompanhar de perto a evolução dos preços no segundo semestre, diante do enxugamento da oferta.

Para a superintendente de Regulação Econômica da Anac, Danielle Crema, os efeitos nos preços ainda não são tão visíveis, porque as companhias estão com dificuldades de repassar o custo para os passageiros. Ela citou dados do próprio setor, segundo os quais um aumento de 10% no preço da passagem resulta numa queda de 14% na demanda.

Impacto de R$ 900 milhões
Danielle ressaltou ainda que a demanda já está caindo, porque o transporte aéreo é uma atividade muito dependente do ritmo de crescimento da economia. Além disso, as famílias estão mais endividadas.

Os dados de que a Anac dispõe (até setembro de 2012) indicavam queda nos preços: 65% dos assentos em voos domésticos foram vendidos com tarifas inferiores a R$ 300, sendo que 10% foram comercializados com tarifas inferiores a R$ 100. A agência não quis fazer previsão sobre o comportamento dos preços diante do atual cenário mais adverso.

O presidente da Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear), Eduardo Sanovicz, disse que a situação do setor, que já vinha registrando prejuízos, piorou com a alta do dólar. Segundo ele, até dezembro, as empresas terão um custo adicional de R$ 900 milhões só com o câmbio, que afeta diretamente as despesas com combustível, item que pesa 40% no custo total. Além disso, os contratos de leasing e gastos com manutenção também são influenciados pela alta da moeda americana.

— Nós encerramos o primeiro semestre numa situação de desolação — disse Sanovicz. — Você tem um cenário muito ruim para o setor — emendou o economista da Consultoria LCA Wermeson França.

O ministro da Secretaria de Aviação Civil (SAC), Moreira Franco, disse que, diante dos investimentos programados para os aeroportos, interessa ao país ter companhias saudáveis.