Adelson Elias Vasconcellos
Quando comentei o artigo do Josias de Souza sobre a divulgação de salários dos servidores públicos, com três casos bem apanhados de funcionários que recebem salários exorbitantes, recheados de penduricalhos imorais, sabia que haveria reação. Reação de alguns destes servidores elitizados que mamam os recursos do país. E reação também de alguns que se sentiriam ofendidos pelo comentário. Contudo, com a cara e a coragem, segui em frente, porque, até onde sei, ainda desfrutamos de liberdade de expressão. Segui em frente por dois motivos: um, porque conforme vou esclarecer mais adiante, o peso do funcionalismo público é desproporcional não somente às necessidades do próprio país, mas representam um privilégio indecente quando comparados aos demais trabalhadores que, aliás, formam o grosso da mão de obra ativa. Estamos gastando mais do que a sociedade pode pagar. E quanto maior for este peso, menos recursos sobrarão para os serviços que o Estado tem a obrigação de prestar aos contribuintes. E segundo, porque conforme são divulgados salários e vantagens, será possível separar o joio do trigo. Isto é, os que ganham muito pouco e trabalham muito, daqueles que ganham muito para não fazer coisa alguma. E segue o baile.
Destaco daquele comentário, e que foi alvo de críticas (e pelo tom de algumas, a maioria parte justamente de funcionários públicos), os trechos a seguir:
“...acabaria por mostrar ao povo brasileiro que há uma parcela pequena desta população que engole de maneira imoral grande parte de recursos, com vantagens que são verdadeiros assaltos aos cofres públicos...”
“...Apenas para que se tenha ideia da grandeza deste descalabro, apenas no governo federal, um quinto de toda a arrecadação de impostos é destinado ao “custo com pessoal”. “
“...Portanto, os casos relatados acima são exemplares da maneira sórdida como o funcionalismo desvia recursos que deveriam retornar em benefícios para TODOS, mas ficam aprisionados nas mãos indecentes de poucas aves de rapina...”
Muito bem: desafio aos críticos mais incisivos, a mostrarem a listagem de salários de TODO o funcionalismo ao povo brasileiro e medirem, a partir desta exibição, a reação que ele terá. Gostem da crítica ou não, a grandiosa maioria da população vai é se indignar, mesmo. A ponte que separa o que se paga no serviço público para o que acontece na iniciativa privada é imensa. Em outro post sobre o tema, também publicado na mesma edição, iniciei assim.
É claro que algumas categorias do funcionalismo público merecem e precisam de reajuste. Porém, é preciso compatibilizar o que se pede ao que se pode. (a íntegra está aqui)
Não sou contra que qualquer profissional, tenha o trabalhador o nível que tiver, receba o máximo de remuneração que puder. Mas é preciso compatibilizar todas as condições em que este salário será pago: a importância da função exercida, a formação técnica, a experiência, o tempo de serviço na mesma empresa, dentre tantas outras variáveis. Da mesma forma, é preciso que se ajuste a condição da empresa em poder pagar ou não aquilo que o profissional entenda ser justo.
A minha crítica está centrada justamente neste ponto. E atenção: quando lerem “pequena parcela elitizada”, não estou englobando TODA a categoria de servidores públicos, e aliás, sequer isto está escrito. Dou um exemplo: há destaque no comentário, por exemplo, do salário miserável que é pago aos professores. Como sabemos que as escolas privadas remuneram um pouco melhor, é evidente que estou defendendo milhares de profissionais de ensino da rede pública. Ficou claro?
Voltando à crítica. Não concordo, e é um direito meu e de qualquer cidadão não concordar, é que se pague salários exorbitantes, até para funções subalternas, enquanto o restante do país precisa conviver com um salário mínimo de R$ 622,00. Para os críticos, atenção: a renda média do trabalhador brasileiro na iniciativa privada gira em torno de R$ 1.700,00/mês. Como posso concordar que um simples garagista da Assembleia Legislativa de um estado, receba mais de R$ 23 mil por mês? Ou meros auxiliares administrativos de qualquer ministério, principalmente, os do Legislativo Federal, com salários superiores a R$ 10 mil/mês? Isto está totalmente fora de sintonia com a realidade do país, minha gente! Não dá para admitir que um quinto da arrecadação federal seja destinada apenas ao funcionalismo, em salários exorbitantes e injustificáveis, enquanto os serviços públicos são a miséria que vemos diariamente diante dos nossos olhos! E vejam: a questão não é se é legal ou não, mas se é moral diante da realidade de um país que, se é rico por natureza, é pobre e miserável pela maioria de seu povo. Não é possível contemporizar com altos ganhos entre salários e vantagens, muitas delas abusivas, num país com tantas carências e com massa salarial medial pouco além da miserável. E nem venham com a história inventada pelo governo federal quanto as classes de renda, considerando classe média aquilo que sempre de pobreza, assunto aqui que já desmistificamos. Ninguém constrói riqueza com mentira, com faz de conta, com demagogia.
Não critico o servidor, não: critico o sistema caótico que se criou na esfera pública, onde, é inegável, gostem ou não, há sim uma elite privilegiada ganhando muito e trabalhando pouco. Não preciso de imprensa para saber disso, basta tentar utilizar qualquer serviço público, ou comparar o nosso com o de outros países. Com a internet, não precisamos ir muito longe para saber os absurdos que se praticam no Brasil. Mas não imaginem serem estas as únicas via de informação para conhecer a tragédia que é para o Brasil os altos salários que são pagos a uma elite de apaniguados.
Podem criticar a minha opinião à vontade, não temo a crítica. Porque, assim como os demais 200 milhões de brasileiros, me indigna ver a destinação dada ao dinheiro público em favor de uma elite, enquanto muitos servidores públicos, dentre os quais destaco os professores da rede pública, precisam trabalhar à exaustão para receberam uma merreca ao final do mês.
Para um povo que precisa suportar a carga tributária pesada e onerosa como o é a brasileira, educação, saúde, segurança, transporte coletivo, infraestrutura, saneamento básico deveriam ter qualidade de primeiro mundo, e na verdade são indignos, pobres e podres, e não justificam o preço que é nos cobrado. Se o quadro fosse outro, aí assim, se poderia dizer que os salários e, principalmente, as vantagens que são pagas ao funcionalismo, valem o quanto pesam. Mas, até que chegue esse dia, compete aos servidores mal pagos, exigir melhor remuneração e, aos que pertencem a elite estatal, dar o máximo de si para justificarem junto à população o custo de seus cargos. É disso que se trata.
Quanto às aposentadorias, não reclamo que servidores as tenham integrais. Reclamo é que os trabalhadores da iniciativa privada ganhem aposentadorias miseráveis. E isto está em todas as minhas críticas a respeito, e que venho fazendo desde sempre.
E mais uma coisa: quando falo em “desvios de recursos”, não é no sentido de que os “servidores públicos desviam dinheiro público de maneira desonesta”, porque não foi isto que foi escrito. Refiro-me ao custo, oneroso demais, em relação à arrecadação. Para o comentarista que apontou a “dívida pública”, deveria ter lido o último parágrafo do referido comentário; Ali apontei duas porteiras: a do custo com pessoal e a... vejam só... a dívida pública.
Assim, para os servidores que se sentiram ofendidos com o comentário, é preciso que vocês reflitam sobre a realidade do TRABALHO no Brasil, e não fiquem apenas examinando o próprio umbigo. Alias, corre na internet uma frase atribuída à estilista Gloria Kalil que não sei se é mesmo de sua autoria. Diz o seguinte: “Quem só olha para o próprio umbigo, não está apto a conviver com os outros. E atualmente isto é muito comum, o narcisismo virou um problema social...”
Não guardo preconceito algum contra o serviço público, mas serei sempre ferrenho crítico das barbaridades – e não dá para ignorá-las – que ali são cometidas em favor de poucos.
O Brasil não pertence a esta casta, ele é de todos nós. E todos, segundo a Constituição, são iguais perante a lei. Assim, não podemos ter trabalhadores sendo tratados como de quinta categoria, caso dos da iniciativa privada, e professores da rede pública, por exemplo, enquanto o grande bolo fica em poder desta elite. Se houvesse equidade, e por certo, sobrariam mais recursos para investidos em áreas e serviços essenciais. Aliás, convidaria os críticos para que viajassem um pouco por este país, conhecendo seus recantos e as misérias que ali existem. Miséria que, por sinal, aumentam ano após ano.
Porque, senhores, não é apenas vergonha que está faltando no Brasil: é a consciência de que um país civilizado não se constrói apenas em poucos anos, nem tampouco com pouco trabalho, nem tampouco financiando uma casta de privilegiados que sugam os recursos produzidos pelo conjunto da sociedade. Mas, certamente, nesta equação não pode conjugar o abuso e o privilégio em favor de uns poucos, como alguns entendem ser possível. É bom que esta gente se recicle rapidamente: o tempo em que a putaria corria solta, descambando uma orgia só feita com dinheiro público, está acabando. Não é só a imprensa que está mais vigilante, é o conjunto da sociedade que vai despertando e se dando conta do bordel instalado a sua volta. E ela não está mais disposta a sustentar este rebu, até porque a escravidão já acabou faz tempo. Por mais que sejam legais certas vantagens e benefícios, isto não o poder de torná-las menos imorais do que são.
Mas não esgotei o tema. Há um comentário que precisa ser registrado. Trata-se da posição que alguns servidores resolveram adotar em relação críticas. Mas amanhã retomo a partir deste ponto.