Sob o título, APERTEM OS CINTOS, LÁ VEM O PSOL, o blog Argumento & Prosa, reproduz um texto escrito por Guilherme Fiúza, e que representa o pensamento de alguns setores da mídia acerca do fenômeno que surge nesta eleição de tantas acusações, impropérios, baixarias, acusações de parte a parte, promessas e mais promessas, mas projeto de governo mesmo que é bom, com propostas de como realizar os projetos concebidos e cumprir as promessas de campanha, com seriedade, equilíbrio e racionalidade, muito pouco ou quase nada se vê. Achamos oportuno reproduzir não apenas o texto do Fiúza bem como o comentário feito por Francisco Nebel, para em seguida, o COMENTANDO A NOTÍCIA, fazer sua análise sobre o furacão chamado Heloísa Helena.
“Esse Brasil de jeans, camisa branca e rabo de cavalo é praticamente a encarnação do bem. A senadora alagoana Heloísa Helena cresce nas pesquisas para presidente embalada no seu discurso franco, afirmativo, contra tudo isso que aí está. Já é um fenômeno eleitoral, e há quem diga que pode chegar ao segundo turno. Ou seja, existe a chance de o Brasil ser governado a partir de 2007 por Heloísa Helena. Então é bom dar uma olhada no que ela pretende fazer com o país.
O programa do PSOL é boa literatura para quem está com saudades da esquerda pura, do tempo em que Lula exigia que o presidente do Banco Central recebesse os pobres em seu gabinete. Onde foi parar toda essa bondade? Pelo menos uma boa parte dela está na plataforma de Heloísa Helena.
O que fazer com a dívida externa, por exemplo? A proposta do PSOL é simples: não pagá-la. Por que isso? Eis a resposta:
“A dívida externa brasileira, por ter sido constituída fora dos marcos legais nacionais, sem consulta ao povo e por ferir a soberania é injusta e insustentável, ética, jurídica e politicamente.”
É interessante essa crítica a uma dívida “constituída sem consulta ao povo”. Aliás, é um absurdo a quantidade de coisas que se faz sem consulta ao povo. A renegociação da dívida externa brasileira, por exemplo, foi concluída no início dos anos 90. Hoje o país tem mais reservas em dólares do que dívida externa. Ou seja, passou de devedor a credor.
Segue o comentário de Francisco Nebel, analisando o texto acima:
“Mais uma vez terrorismo puro. O articulista coloca no programa de HH coisas que ela nunca afirmou, do tipo calote nas dívidas externa e interna, centralização do câmbio, estatização das empresas privatizada e outras balelas. É necessário ser um pouco mais responsável nas críticas para que elas não se transformem em folclore. Ler alguns pontos do programa econômico do PSOL ajuda a esclarecer dúvidas:redução rápida da taxa de juros para cerca de 4%, auditoria da dívida externa, auditoria da privatização de estatais, criação de uma fórmula de reajuste do salário mínimo baseada no crescimento do PIB, reavaliação e aperfeiçoamento do Bolsa-Família, revolução educacional, ampliando a qualidade das escolas públicas e o número de vagas nos ensinos infantil e médio, combate à discriminação racial, mas sem a adoção de cotas para negros em escolas e universidades, assentamento de 1 milhão de pessoas que vivem "em beira de estrada", com desapropriação de áreas improdutivas, política externa voltada para a construção de um "projeto sul-americano, extinção de 25000 cargos de confiança no Governo Federal, que passarão a ser preenchidos por funcionários de carreira (HH só levará para o Governo entre 200 e 250 pessoas).”
Bem , COMENTANDO A NOTICIA prefere não analisar o texto do Fiúza, até porque de forma clara, ali está manifestada a opinião dele sobre Heloísa Helena. Preferimos, isto sim, a partir dele, e do comentário do Sr. Francisco Nebel, apresentar nossa análise, até porque o que desejamos é dar nossa colaboração para o enriquecimento do debate sobre aquilo que é importante para o país. A conclusão, como sempre, fica por conta do leitor, e principalmente, do eleitor, o soberano que decidirá nas urnas, quem está certo ou não. Ele até poderá errar na escolha, porém é missão nossa fornecer subsídios para reduzir-se ao mínimo este risco.
O que representa, afinal o voto ou ao menos sua intenção, na escolha de Heloisa Helena ? Protesto? Indignação ? Falta de melhor alternativa ? Ideologia ? É tudo isso junto. Dentre os principais candidatos, é a que tem o voto mais volátil, gente que agora prefere escolher a senadora alagoana, mas que até o dia da eleição, ainda poderá migrar sua preferência para outro candidato. Parte pretende HH como forma de dizer ao governo: olha, cansamos de vocês, se não mudarem escolheremos Heloisa Helena. Parte a escolhe por entender que o PT no poder, traiu toda a ideologia de esquerda, sua história, suas lutas, seus ideais. Não se enganem; no Brasil, há muitos para quem o sonho socialista ainda não morreu. E gente de peso, com formação superior, padrão socio-econômico elevado para a média nacional. Estes são ideológicos. Parte, porque mesmo não sendo socialistas de carteirinha, esperavam a partir de LULA que se operassem mudanças na economia, na saúde, na segurança pública, na educação, na infraestrutura, nos serviços públicos. Para estes, houve e há um sentimento de decepção com o presidente petista. Parte, que, juntando a frustação, se sentem indignados não apenas pelo que Lula deixou de fazer, mas com todo esse lodaçal que tomou conta do cenário político brasileiro. Como em praticamente todos os escândalos estourados nestes úlltimos tres anos e meio tem gente do PT ou de base aliada, imediatamente o eleitorado descarrega sua indignação no presidente, que aliás é do mesmo partido . São os indignados. Quando Heloísa de forma vibrante e com uma clareza e objetividade absolutas diz que acabará com tudo que está aí, imediatamente conquista parte deste eleitorado. Parte, porque foi atingido primeiro pela mensagem da senadora. Estes são ainda mais voláteis do que os outros, dependendo da mensagem dos demais candidatos migrarão sem pestanejar. Estes são aqueles que, por enquanto, não vêem outra melhor alternativa. Mas, do que ninguém duvida, é que a senadora, com as condições limitadíssimas de que dispõe, tem levado sua mensagem e suas propostas para parte de um eleitorado, que mais do que nunca, não concorda com as ações (ou falta delas) do governo petista, estão desencantados com governo federal por sua estreita ligação e coligação com políticos denunciados em diferentes escândalos, e que esperam encontrar alguém com propostas de realização, mas sobretudo que fale a linguagem que, neste momento da campanha, interessa a todos: a ética. E a senadora representa, para os olhos de muitos, exatamente a figura que o brasileiro busca como paradigma: um governante trabalhador como ele, humilde como ele e honesto como ele. E esta é a novidade: o brasileiro diz que é honesto, que quer o império da honestidade, e quer ser governado por alguém que a ele se iguale na honestidade. Isto visto desta forma é alentador: para muitos, o brasileiro já tinha enterrado a ética, aceitando que o fim justificavam os meios. Aleluia ! Há salvação do lado de lá da eleição. Entre mortos e feridos, todos poderão se salvar. Mesmo que tênue, pelo menos é uma esperança.
Até pode ser que no programa impresso do PSOL não se encontre muito do que se apregoa ao que a senadora tenha dito e afirmado. Mas em comentários que fiz em textos postados no A&P, e mesmo antes de sua ascensão nas pesquisas, por duas vezes afirmei que HH é uma estrela que brilha no cenário emporcalhado da política brasileira. Mas não acredito que vá além de provocar um segundo turno entre Lula e Alckmin. E por duas razões básicas: a primeira é que, mesmo não estando escrito, muito do divulgado deriva de entrevistas dadas pela própria senadora, e até pode ser que sejam apenas palavras ditas sob as circunstâncias de um determinado momento. Mas, inegavelmente, foram ditas por ela sim. Não tudo que se lhe atribuem, mas algumas com certeza. Eu mesmo em diferentes ocasiões ouvi ela falar coisas que realmente assustam, mas não ao povo. Quem se assusta é uma parte daqueles que sempre manipularam e ganharam muito pelo que aí está, e não irão poupar a senadora, fazendo um terrorismo de falcete para dar e impor um medo e aversão à Heloisa Helena.
Porém, sejamos sinceros: o programa tem muitos aspectos positivos ? Sim, por certo. Mas pergunto: como implantá-los se sua grande maioria representa ou mudança da lei (e com um partido de pequena representatividade, convenhamos, é uma tarefa quase impossível por causa do grande jogo de interesses diferenciados), ou, de outro modo, representa rasgar contratos e ferir direitos, e aí, tudo se esbarra num Poder Judiciário sobre o qual já pairam dúvidas (graças a Deus estão acordando) sobre sua isenção e imparcialidade. A segunda questão é a própria senadora, ou mais apropriadamente, o temperamento da senadora. É visível nas aparições dela durante esta campanha, o quanto está comedida, freando impulsos e moderando palavras, sob a orientação de seus conselheiros políticos. Gosto da coerência da senadora, da franqueza (e que franqueza!), da sua fibra (e que fibra!) ao defender suas posições, suas idéias. Porém, por flutuar entre o extremo e o muito extremo, a sociedade brasileira meio que repele atitudes de pessoas que berram muito, de muito destempero, para legitimá-los e aceitá-los como seus governantes. Aliás, o de que menos precisamos é duma pessoa de pavio muito curto, e que no debate é a única a falar e a pensar. Talvez por ainda ser muito jovem, sua energia acaba por impulsioná-la com uma força excessiva, desproporcional para o que o momento exige. Quem sabe, com tempo e mais amadurecimento, ela passe a controlar-se mais, e ser mais política. Este é o termo exato, ser mais política, isto é, ter a qualidade para negociar com os adversários, e convencê-los não com verborragia e sob gritos, mas com tirocínio e até paciência, a se dobrarem aos seus argumentos. Quando digo ser mais política falo da ação de agir e convencer, não desta forma fedorenta que no Brasil tem sido a tônica dos políticos. Este é um jogo, tem momentos em que se vence, em que se perde, em que é preciso recuar para depois, no momento certo, avançar sobre o adversário e fazê-lo curvar-se pela razão. Nunca pelo peitaço (sem ironias, por favor), pelo grito, pelo descontrole, pelo desequilíbrio emocional. Tem que saber ser doce sem recuar jamais. Este é jogo democrático verdadeiro, e na sua essência mais simples.
Não pensem que o Brasil é uma ilha isolada do restante do mundo. Somos sim pertencentes a uma comunidade de nações, algumas das quais dependemos economicamente. Alguns pontos na plataforma da senadora HH vão provocar sim fuga de capitais em investimentos produtivos. O dinheiro, senhores, tem uma sensibilidade muito aguçada para retrair-se diante das incertezas, do misterioso, assusta-se facilmente. Nenhum país pode ser governado com autoritarismo. O jogo democrático exige negociação, debate, convergência de soluções e medidas adequadamente discutidas pela sociedade. Todos estes ingredientes são importantes e indispensáveis para reduzir o risco do erro ao mínimo. E aí, entendo eu, a senadora Heloísa Helena tem seu maior defeito. Ela entende que sua posição deve ser única, não deve ser discutida, e sim obedecida, não aceita o contraditório. E isso num país livre vai ser repelido. A senadora fala muito de jogo democrático, reparem. Mas quando a discussão adentra o círculo da contra opinião ela se exalta e esbraveja. E isso, o destempero, macula e embota a sua enorme inteligência e cultura. Em administração, se aprende que há não uma maneira única de se fazer o certo. Ninguém detém a verdade una e absoluta. Então atente: se ela pensa, que numa eventual vitória e, após empossada, governará o Brasil debaixo da chibata e sob decreto, vai quebrar a cara. Isto é autoritarismo, e se nos livramos a muito custo, suor e lágrimas de 21 anos de ditadura militar, muito menos aceitar-se-á uma civil. Nem o Brasil, muito menos o mundo, aceitam mais o regime da autocracia. "O poder em mim mesmo".
E para encerrar, e até podemos estar errados, com a senadora indo para um segundo turno, e disputando com Lula ou Alckmin quem presidirá o Brasil nos próximos anos. Mas, sinceramente, não acreditamos ser possível. Não pelo menos nesta eleição. Apostamos que ela deva chegar entre 15% a 20%. E isto é muito representando quase uma vitória, considerando-se ser mulher de porte franzino, sem muitas posses, fazendo uma campanha sem recursos a não ser o de sua própria figura, de sua força de caráter, e sem uma base política que lhe abra outras portas e outros palanques. Mas, mesmo não vencendo, se provocar um segundo turno, ela terá prestado um relevante papel nesta campanha: a de mostrar a Lula e ao PT que o Brasil vai muito além deles mesmos, que existe inteligência além da deles (?) por estas terras, e que, não apenas Lula é carismático, tem mais pessoas com capacidade e competência de se aproximar do povo, dar seu recado e ser ouvido e respeitado. E, para manter-se no poder, não precisa fazer concessões subalternas e de caráter duvidoso. Repito e não canso de reafirmar: Heloisa Helena é uma estrela que brilha, e que, pelo exemplo de dignidade, dá um inegável e claro recado às novas gerações: é possível ser político e fazer política no Brasil, com decência, com honestidade, sem máculas, e tendo como ideal, servir com dignidade ao seu país. Talvez, o exemplo frutifique e cresça. E se tal acontecer, acredite-me Francisco, a estrela da senadora se transformará numa constelação. É imperioso reconhecer-se: o Brasil tem cura, tem jeito, e o mais importante. Pode e merece ter um futuro digno, sobretudo graças a estas estrelas que brilham no nosso horizonte, mesmo que isoladas.