Por Diogo Mainardi
Publicado na Revista Veja
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"Fim de agosto. Base aérea de Congonhas. Lula se encontra com Domingo Alzugaray,dono da IstoÉ. O encontro está fora da agenda presidencial. Alzugaray se lamentados problemas financeiros da revista. Lula pergunta como pode ajudá-lo..."
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Fim de agosto. Base aérea de Congonhas. Lula se encontra com Domingo Alzugaray, dono da IstoÉ. O encontro está fora da agenda presidencial. Alzugaray se lamenta dos problemas financeiros da revista. Sabe como é: salários atrasados, contas penduradas com o fornecedor de papel e com a gráfica. Lula pergunta como pode ajudá-lo. Alzugaray sugere o pagamento imediato de uma série de encartes encomendados pela Petrobras. Valor total: 13 milhões de reais. Lula promete se interessar pelo assunto. Duas semanas depois, a IstoÉ publica a matéria de capa com os Vedoin, incriminando os opositores de Lula.
Fim de agosto. Base aérea de Congonhas. Lula se encontra com Domingo Alzugaray, dono da IstoÉ. O encontro está fora da agenda presidencial. Alzugaray se lamenta dos problemas financeiros da revista. Sabe como é: salários atrasados, contas penduradas com o fornecedor de papel e com a gráfica. Lula pergunta como pode ajudá-lo. Alzugaray sugere o pagamento imediato de uma série de encartes encomendados pela Petrobras. Valor total: 13 milhões de reais. Lula promete se interessar pelo assunto. Duas semanas depois, a IstoÉ publica a matéria de capa com os Vedoin, incriminando os opositores de Lula.
Quem relatou o encontro confidencial entre Lula e Alzugaray foi o editor da sucursal brasiliense da IstoÉ, Mino Pedrosa. E quem o relatou a mim foi o PFL. Creio que seja verdade. Creio em tudo o que contam de ruim a respeito de Lula. O que posso garantir é que a imprensa lulista funciona assim mesmo. O presidente manda. O jornalista publica. O contribuinte paga. Aborreci um monte de gente para tentar descobrir se a IstoÉ foi socorrida pela Petrobras nas últimas semanas. Ninguém soube me dizer. Os gastos em publicidade da Petrobras competem somente a ela mesma. O presidente manda. O jornalista publica. O contribuinte paga. Mas nunca fica sabendo onde foi parar o tutu. É o esquema perfeito. A IstoÉ foi acusada por seu próprio editor de ter vendido a matéria de capa com os Vedoin. Quem forneceu o dinheiro? Meu conselho é perguntar ao diretor de marketing da Petrobras, Wilson Santa Rosa. Ele é homem da CUT, como muitos dos que foram pegos em flagrante nessa trama golpista. E é amigo de José Dirceu. Sempre desconfio de quem é da CUT e amigo de José Dirceu.
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Um dos principais petistas implicados na compra de matéria da IstoÉ foi Hamilton Lacerda. Ele era coordenador da campanha de Aloizio Mercadante. Foi afastado depois de admitir que negociou a entrevista com os Vedoin. O repórter Ricardo Brandt descobriu que Lacerda "atuou como intermediador de contratos da Petrobras com órgãos de imprensa". Esses fatos esclareceriam o que aconteceu desde o encontro de Lula com Domingo Alzugaray na base aérea de Congonhas até hoje. Lacerda era o responsável pela propaganda eleitoral de Mercadante. A produtora que faz a propaganda eleitoral de Mercadante é a VBC. VBC... VBC... O nome é familiar. É a mesma VBC que se meteu no escândalo do lixo de Marta Suplicy? É a mesma VBC que produziu farto material de propaganda da Petrobras, incluindo um documentário de três horas sobre o Pantanal? Sim. É a mesma VBC. Esse é o único lado bom do PT: seus enredos criminosos sempre fecham. Tanto que, nesse episódio da matéria da IstoÉ, já apareceram pessoas envolvidas com Celso Daniel, valerioduto, diretoria do Banco do Brasil, ONGs do Ministério do Trabalho, contratos de publicidade, Delúbio Soares, sanguessugas. De um jeito ou de outro, tudo se encaixa. Tudo remete a Lula e a José Dirceu.
Um dos principais petistas implicados na compra de matéria da IstoÉ foi Hamilton Lacerda. Ele era coordenador da campanha de Aloizio Mercadante. Foi afastado depois de admitir que negociou a entrevista com os Vedoin. O repórter Ricardo Brandt descobriu que Lacerda "atuou como intermediador de contratos da Petrobras com órgãos de imprensa". Esses fatos esclareceriam o que aconteceu desde o encontro de Lula com Domingo Alzugaray na base aérea de Congonhas até hoje. Lacerda era o responsável pela propaganda eleitoral de Mercadante. A produtora que faz a propaganda eleitoral de Mercadante é a VBC. VBC... VBC... O nome é familiar. É a mesma VBC que se meteu no escândalo do lixo de Marta Suplicy? É a mesma VBC que produziu farto material de propaganda da Petrobras, incluindo um documentário de três horas sobre o Pantanal? Sim. É a mesma VBC. Esse é o único lado bom do PT: seus enredos criminosos sempre fecham. Tanto que, nesse episódio da matéria da IstoÉ, já apareceram pessoas envolvidas com Celso Daniel, valerioduto, diretoria do Banco do Brasil, ONGs do Ministério do Trabalho, contratos de publicidade, Delúbio Soares, sanguessugas. De um jeito ou de outro, tudo se encaixa. Tudo remete a Lula e a José Dirceu.
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Lula ainda pode se eleger. No segundo turno. Se ele for eleito, cedo ou tarde seu mandato será cassado. Porque sua campanha usou dinheiro ilegal. Nos últimos anos, peguei no pé dos jornalistas alinhados com o PT. Foi burrice minha. A imprensa lulista é o melhor produto nacional. Primeiro derrubou Antonio Palocci. Agora vai derrubar Lula. Alguém aí quer me comprar?
Lula ainda pode se eleger. No segundo turno. Se ele for eleito, cedo ou tarde seu mandato será cassado. Porque sua campanha usou dinheiro ilegal. Nos últimos anos, peguei no pé dos jornalistas alinhados com o PT. Foi burrice minha. A imprensa lulista é o melhor produto nacional. Primeiro derrubou Antonio Palocci. Agora vai derrubar Lula. Alguém aí quer me comprar?
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UM DOMINGO ESPANHOL
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Por André Petry
Publicado na Revista Veja
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"Quando o eleitor percebe que está sendo vítima de manipulação, que o governante é um enganador, levanta-se – e usa as urnaspara mandar seu recado. Num bordel, isso não existe".
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Em março de 2004, faltando poucos dias para a eleição na Espanha, aconteceu um terrível atentado que matou 191 pessoas em Madri. Logo o governo conservador de José María Aznar tentou manipular o episódio eleitoralmente – já sabia que as bombas eram obra do terrorismo islâmico, mas mesmo assim difundiu a falsa informação de que eram coisa de terroristas bascos. Achava que, sendo o atentado obra dos separatistas bascos, seu rival, o socialista José Luis Rodríguez Zapatero, sofreria prejuízos eleitorais. Antes do atentado, as pesquisas, inclusive, davam vantagem aos partidários de Aznar. O mundo lhe parecia perfeito. Mas a tática de ludibriar o eleitorado espanhol revelou-se um rombo pela culatra: os espanhóis descobriram a manobra e viraram as pesquisas. Zapatero foi eleito. Está no poder até hoje.
Em março de 2004, faltando poucos dias para a eleição na Espanha, aconteceu um terrível atentado que matou 191 pessoas em Madri. Logo o governo conservador de José María Aznar tentou manipular o episódio eleitoralmente – já sabia que as bombas eram obra do terrorismo islâmico, mas mesmo assim difundiu a falsa informação de que eram coisa de terroristas bascos. Achava que, sendo o atentado obra dos separatistas bascos, seu rival, o socialista José Luis Rodríguez Zapatero, sofreria prejuízos eleitorais. Antes do atentado, as pesquisas, inclusive, davam vantagem aos partidários de Aznar. O mundo lhe parecia perfeito. Mas a tática de ludibriar o eleitorado espanhol revelou-se um rombo pela culatra: os espanhóis descobriram a manobra e viraram as pesquisas. Zapatero foi eleito. Está no poder até hoje.
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O episódio serve para mostrar a diferença entre um país e um bordel. Um país é assim: quando seu eleitorado percebe que está sendo vítima de manipulação, quando tem evidências de que o governante é um enganador, levanta-se – e usa as urnas para mandar seu recado. Num bordel, isso não existe.
O episódio serve para mostrar a diferença entre um país e um bordel. Um país é assim: quando seu eleitorado percebe que está sendo vítima de manipulação, quando tem evidências de que o governante é um enganador, levanta-se – e usa as urnas para mandar seu recado. Num bordel, isso não existe.
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O escândalo do dossiê é uma excelente oportunidade para o eleitorado brasileiro mostrar que vive num país. Nem precisa virar a eleição. Basta que, com seu voto, provoque a realização de um segundo turno na eleição presidencial. Basta que os eleitores envergonhados, aquela massa com pleno acesso à informação que vota em Lula mas não conta a ninguém, façam uma concessão ao tempo e uma homenagem ao debate. A esta altura, é o mínimo que um país, um país de verdade, poderia fazer.
O escândalo do dossiê é uma excelente oportunidade para o eleitorado brasileiro mostrar que vive num país. Nem precisa virar a eleição. Basta que, com seu voto, provoque a realização de um segundo turno na eleição presidencial. Basta que os eleitores envergonhados, aquela massa com pleno acesso à informação que vota em Lula mas não conta a ninguém, façam uma concessão ao tempo e uma homenagem ao debate. A esta altura, é o mínimo que um país, um país de verdade, poderia fazer.
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Isso não significa que Lula não possa ser reeleito. Pelas regras do jogo, é claro que pode, desde que tenha mais votos que seu adversário. Talvez até venha mesmo a ser reeleito, a julgar pelo que informam as pesquisas. A questão é que um segundo turno, mesmo que não mude o resultado final da eleição, mesmo que acabe dando vitória a Lula e sacramentando a derrota de Geraldo Alckmin, mesmo assim, ajudaria a deixar o Brasil mais parecido com um país decente, no qual a sociedade pergunta e o candidato responde.
O segundo turno é entre dois candidatos e, nessas condições, fica mais difícil para qualquer um deles negar-se aos debates na televisão. Assim, vira uma chance de diálogo com o país: o presidente poderia explicar muitas coisas do passado e algumas coisas do presente. Se quisesse, numa resposta só, falar do passado e do presente, poderia explicar por que todo escândalo produzido pelo gangsterismo petista sempre chega às vizinhanças de seu gabinete no Palácio do Planalto. Por quê?
Isso não significa que Lula não possa ser reeleito. Pelas regras do jogo, é claro que pode, desde que tenha mais votos que seu adversário. Talvez até venha mesmo a ser reeleito, a julgar pelo que informam as pesquisas. A questão é que um segundo turno, mesmo que não mude o resultado final da eleição, mesmo que acabe dando vitória a Lula e sacramentando a derrota de Geraldo Alckmin, mesmo assim, ajudaria a deixar o Brasil mais parecido com um país decente, no qual a sociedade pergunta e o candidato responde.
O segundo turno é entre dois candidatos e, nessas condições, fica mais difícil para qualquer um deles negar-se aos debates na televisão. Assim, vira uma chance de diálogo com o país: o presidente poderia explicar muitas coisas do passado e algumas coisas do presente. Se quisesse, numa resposta só, falar do passado e do presente, poderia explicar por que todo escândalo produzido pelo gangsterismo petista sempre chega às vizinhanças de seu gabinete no Palácio do Planalto. Por quê?
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O segundo turno ainda tem a vantagem de evitar o triunfo da arrogância. Resolvendo a parada já no próximo domingo, Lula talvez se sinta revigorado para retomar a defesa da tese de que tudo – o mensalão, os bingos, o lixo, o caseiro, as cartilhas, o dossiê... – não passou de conspirata da elite.
O segundo turno ainda tem a vantagem de evitar o triunfo da arrogância. Resolvendo a parada já no próximo domingo, Lula talvez se sinta revigorado para retomar a defesa da tese de que tudo – o mensalão, os bingos, o lixo, o caseiro, as cartilhas, o dossiê... – não passou de conspirata da elite.
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O Brasil ganharia se fizesse um domingo espanhol...
O Brasil ganharia se fizesse um domingo espanhol...
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POR QUE NÃO CRESCER 10%
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Por Carlos Alberto Sardenberg
Publicado em O Globo
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Se é possível fixar uma meta de crescimento para o Brasil, então por que não mandar logo 10% ao ano? Porque pareceria um absurdo, não é mesmo? Assim, as propostas que circulam nos meios petistas e próximos, para o segundo mandato, estipulam metas mais modestas, tipo 6%.
Continua sendo absurdo.
Imaginem se Dunga dissesse aos craques da Seleção: “a meta é ganhar de 4 a zero; Fred, você faz dois gols, Ronaldinho, um, Kaká, um, e um daqueles sensacionais”. Os jogadores se espantariam, claro. Dunga, então, baixaria a bola: “tá bom, dois a zero, dois do Robinho”.
Crescer e enriquecer é, afinal , o objetivo de toda atividade econômica. Também da teoria, desde Adam Smith (1723-90). Para ele, aliás, um país cresce quando a “mão invisível” do mercado coordena os esforços de cada pessoa e cada empresa em obter seu lucro. Quando todos buscam seu crescimento individual, em ambiente de livre iniciativa, o resultado final é o crescimento de toda a economia.
De lá para cá, muitas teorias e experiências bem sucedidas trouxeram idéias novas. O Banco Mundial, por exemplo, com sua pesquisa “Fazendo Negócios”, mostrou que continuam verdadeiras algumas propostas de Adam Smith. Comparando o ambiente de negócios em 177 países, o estudo verifica claramente que quanto maior a liberdade de empreender – facilidades para abrir negócios e prosperar – maior o grau de crescimento do país.
Não há a receita única de crescimento. Mas há diversos pontos pró e contra bem assentados.
Não há caso de país que tenha se desenvolvido com inflação elevada e/ou crônica. Também não há história de sucesso quando o setor público é perdulário. Mais ainda, uma das idéias que caiu no final do século passado foi justamente a de que a combinação de controle estatal, propriedade pública e investimentos do governo levariam ao crescimento com justiça social. O socialismo real não deixou nem uma coisa nem outra.
Investimentos em capital geram crescimento, embora com limites. Os investimentos maciços são eficientes na partida de um processo de crescimento, mas depois começam a perder eficácia.
Entram em cena, então, outros fatores, como o crescimento e a formação da mão de obra, isto é, o desenvolvimento do fator trabalho. Acrescente-se aí, para os tempos contemporâneos, a tecnologia da informação e os ganhos da inovação, e se terá a explicação e a receita para o crescimento mundial recente: o avanço da produtividade, a capacidade de gerar mais produção com os mesmos fatores. (O que, aliás, também derruba preços, aumenta o consumo e, pois, estimula o crescimento).
Governos e políticas públicas continuam sendo essenciais. Primeiro, no incremento de bens universais, como educação, saúde e infra-estrutura. Depois, para estabelecer regras que garantam um bom ambiente legal, respeito à propriedade e a garantia ao empreendedor de que poderá se apropriar do resultado de seu negócio. Se não, quem iria à luta?
Pode-se verificar por aí que o Brasil apresenta vários quesitos negativos. O nível de investimento público e privado continua baixo, em torno de 20% do Produto Interno Bruto, quando precisaria ser pelo menos de 25%. O setor público não investe porque gasta muito em Previdência, pessoal e custeio. O setor privado, porque a taxa de juros é muito elevada e a carga tributária, idem.
E isto acontece porque, de novo, o governo gasta demais e fez uma dívida muito grande.
A formação da mão de obra é falha. O investimento público em educação está invertido: proporcionalmente elevado nos graus superiores e reduzido no ensino fundamental e básico. Há pouco estímulo à inovação e, em alguns setores, até hostilidade, como ocorre hoje com a biotecnologia.
Se perguntássemos, doze anos atrás, antes do real, por que o Brasil não cresce, a resposta seria direta: porque tem inflação, contas externas e contas públicas descontroladas. Bastaria. Já eram problemas demais.
Hoje, inflação e contas externas não constituem mais problema. Mas a eliminação desses dois enormes obstáculos macro torna mais evidente o que sobrou (o desarranjo do setor público, a carga tributária, os juros) e os fatores microeconômicos.
O crescimento será conseqüência da eliminação do obstáculo restante e da construção de um ambiente favorável ao empreendimento privado. Por isso é tão absurdo fixar meta de crescimento. O certo é fixar metas para as condições necessárias ao desenvolvimento: inflação baixa, redução da dívida e do déficit públicos, redução de impostos, avanços na educação fundamental, melhoras no ambiente de negócios (por exemplo, metas para reduzir dias e procedimentos necessários à abertura de empresa).
Sem isso, fixar meta de crescimento é bobagem ou campanha, ou as duas coisas.
Por Carlos Alberto Sardenberg
Publicado em O Globo
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Se é possível fixar uma meta de crescimento para o Brasil, então por que não mandar logo 10% ao ano? Porque pareceria um absurdo, não é mesmo? Assim, as propostas que circulam nos meios petistas e próximos, para o segundo mandato, estipulam metas mais modestas, tipo 6%.
Continua sendo absurdo.
Imaginem se Dunga dissesse aos craques da Seleção: “a meta é ganhar de 4 a zero; Fred, você faz dois gols, Ronaldinho, um, Kaká, um, e um daqueles sensacionais”. Os jogadores se espantariam, claro. Dunga, então, baixaria a bola: “tá bom, dois a zero, dois do Robinho”.
Crescer e enriquecer é, afinal , o objetivo de toda atividade econômica. Também da teoria, desde Adam Smith (1723-90). Para ele, aliás, um país cresce quando a “mão invisível” do mercado coordena os esforços de cada pessoa e cada empresa em obter seu lucro. Quando todos buscam seu crescimento individual, em ambiente de livre iniciativa, o resultado final é o crescimento de toda a economia.
De lá para cá, muitas teorias e experiências bem sucedidas trouxeram idéias novas. O Banco Mundial, por exemplo, com sua pesquisa “Fazendo Negócios”, mostrou que continuam verdadeiras algumas propostas de Adam Smith. Comparando o ambiente de negócios em 177 países, o estudo verifica claramente que quanto maior a liberdade de empreender – facilidades para abrir negócios e prosperar – maior o grau de crescimento do país.
Não há a receita única de crescimento. Mas há diversos pontos pró e contra bem assentados.
Não há caso de país que tenha se desenvolvido com inflação elevada e/ou crônica. Também não há história de sucesso quando o setor público é perdulário. Mais ainda, uma das idéias que caiu no final do século passado foi justamente a de que a combinação de controle estatal, propriedade pública e investimentos do governo levariam ao crescimento com justiça social. O socialismo real não deixou nem uma coisa nem outra.
Investimentos em capital geram crescimento, embora com limites. Os investimentos maciços são eficientes na partida de um processo de crescimento, mas depois começam a perder eficácia.
Entram em cena, então, outros fatores, como o crescimento e a formação da mão de obra, isto é, o desenvolvimento do fator trabalho. Acrescente-se aí, para os tempos contemporâneos, a tecnologia da informação e os ganhos da inovação, e se terá a explicação e a receita para o crescimento mundial recente: o avanço da produtividade, a capacidade de gerar mais produção com os mesmos fatores. (O que, aliás, também derruba preços, aumenta o consumo e, pois, estimula o crescimento).
Governos e políticas públicas continuam sendo essenciais. Primeiro, no incremento de bens universais, como educação, saúde e infra-estrutura. Depois, para estabelecer regras que garantam um bom ambiente legal, respeito à propriedade e a garantia ao empreendedor de que poderá se apropriar do resultado de seu negócio. Se não, quem iria à luta?
Pode-se verificar por aí que o Brasil apresenta vários quesitos negativos. O nível de investimento público e privado continua baixo, em torno de 20% do Produto Interno Bruto, quando precisaria ser pelo menos de 25%. O setor público não investe porque gasta muito em Previdência, pessoal e custeio. O setor privado, porque a taxa de juros é muito elevada e a carga tributária, idem.
E isto acontece porque, de novo, o governo gasta demais e fez uma dívida muito grande.
A formação da mão de obra é falha. O investimento público em educação está invertido: proporcionalmente elevado nos graus superiores e reduzido no ensino fundamental e básico. Há pouco estímulo à inovação e, em alguns setores, até hostilidade, como ocorre hoje com a biotecnologia.
Se perguntássemos, doze anos atrás, antes do real, por que o Brasil não cresce, a resposta seria direta: porque tem inflação, contas externas e contas públicas descontroladas. Bastaria. Já eram problemas demais.
Hoje, inflação e contas externas não constituem mais problema. Mas a eliminação desses dois enormes obstáculos macro torna mais evidente o que sobrou (o desarranjo do setor público, a carga tributária, os juros) e os fatores microeconômicos.
O crescimento será conseqüência da eliminação do obstáculo restante e da construção de um ambiente favorável ao empreendimento privado. Por isso é tão absurdo fixar meta de crescimento. O certo é fixar metas para as condições necessárias ao desenvolvimento: inflação baixa, redução da dívida e do déficit públicos, redução de impostos, avanços na educação fundamental, melhoras no ambiente de negócios (por exemplo, metas para reduzir dias e procedimentos necessários à abertura de empresa).
Sem isso, fixar meta de crescimento é bobagem ou campanha, ou as duas coisas.
Texto aqui
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"LULAGATE", O CREPÚSCULO DO PRÍNCIPE OPERÁRIO
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Por Pedro Porfírio
Publicado no Tribuna da Imprensa
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Lamento por tudo quanto é sagrado: mas o Sr. Luiz Inácio Lula da Silva, que se pretendeu um príncipe operário, vive seu momento crepuscular e não tem mais condições institucionais para ser o chefe de Estado da República Federativa do Brasil. A situação é particularmente delicada em face das eleições do próximo dia 1º. No entanto, neste caso, o que paradoxalmente menos conta é o resultado das urnas.
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Como esse nó pode ser desatado, eis o desafio. Lutamos e sofremos mais da conta para reconquistar a democracia, a liberdade e o direito de escolha de nossos governantes e representantes. Mas a democracia por que lutamos - que me custou a própria liberdade - não comporta esse cenário tão desolador: homens da copa e da cozinha do presidente foram pilhados numa "operação suja", que, como disse Helio Fernandes, precisa ser rapidamente esclarecida, sobretudo quanto à origem dos 1 milhão e 700 mil reais (R$ 1,16 milhãomais 248 mil dólares).
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Nem uma virgem da várzea acreditará que o Sr. Luiz Inácio não tinha conhecimento desse episódio macabro muito semelhante ao caso Watergate, que levou à renúncia do presidente Nixon, em 8 de agosto de 1974.
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Naquela tentativa de instalação de microfones de espionagem na sede do Partido Democrata, de oposição, foi preciso a ação decidida de dois jornalistas para que se chegasse até o presidente norte-americano.
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No episódio brasileiro, não: a tentativa de compra de um dossiê ao delinqüente que subornou deputados e senadores envolve gente que não teria se metido nessa sem o conhecimento do chefe, cuja maior obstinação é perpetuar-se no poder para além de um segundo mandato. No caso do dinheiro apreendido, que, inacreditavelmente, não foi fotografado, já se sabe quais os bancos brasileiros onde foram sacados os reais.
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Mas e os dólares? Um leitor me fez chegar o seguinte comentário: "As cintas douradas de papel que prendiam os maços de dólares apreendidos pela Polícia Federal trazem duas pistas para se descobrir quem deu os recursos para a compra do dossiê.
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1) Indicam que o dinheiro foi sacado em um banco nos EUA;
2) Como a numeração das notas é seqüenciada, rastreá-las é tão fácil quanto tirar pirulito das mãos de uma criança. Os US$ 139 mil apreendidos eram divididos em pacotes de US$ 10 mil, os quais estavam presos em cintas com a inscrição: `BEP - One Hundred - $ 10,000'. BEP é a sigla do Bureau of Engraving and Printing, a casa da moeda dos EUA.
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Os especialistas são unânimes em descartar que os dólares tenham passado por doleiros no Brasil. Esse tipo de dinheiro circula de forma similar ao contrabando: em aviões privados ou carros, quando se tem fronteira terrestre pouco vigiada". Trata-se, portanto, de uma tramóia muito mais explosiva do que aparenta à primeira vista. E uma operação dessa envergadura não pode ser abafada com uma simples e repetida queimação de subordinados.
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Doce é o poder
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O princípio de qualquer investigação é a quem interessa o crime. Certamente, não é ao Sr. Freud Godoy, o "sombra" do presidente, nem ao Sr. Oswaldo Bargas, um-ex-sindicalista ladino que sempre esteve por trás do Lula desde São Bernardo e da CUT, nem ao Sr. Ricardo Berzoini, presidente do partido que mandou a ética às favas.
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Interessa, sim, com todas as elementares evidências, àquele que quer ser reeleito no primeiro turno e a partir daí passar a trabalhar pelo terceiro mandato, como tentaram FHC, Menen e Fujimori. Se não ganhar dia 1º, Lula terá todo mundo contra ele. E isso pode ameaçar seu atual "favoritismo". Portanto, quanto antes "liquidar a fatura", melhor. Esclareça-se que esse favoritismo é irreal: sua "maior força" nas pesquisas se dá onde há maiores dificuldades com as urnas eletrônicas, mais votos nulos e em branco.
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E o terceiro mandato? As vitórias de Serra em São Paulo, Aécio em Minas Gerais, e Requião no Paraná tornam esse sonho mais difícil. Os três são potenciais candidatos em 2010. E não vão aceitar novas investidas, como as de FHC, que comprou a reeleição, ou as práticas recentes dos "mensaleiros".
Se enfraquecesse o candidato oposicionista, favorito no maior Estado do Brasil, se garantisse um segundo turno, tudo poderia acontecer. Eleito no primeiro, Lula poderia investir lá com todas as suas "tropas". E com São Paulo na mão, Minas e Paraná não teriam cartuchos para o confronto, tal como aconteceu na batalha de Xangai, que definiu a vitória de Mao Tse-Tung na China.
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A natureza dessa operação, valendo-se de um bandido sem qualquer escrúpulo, e a lista dos seus operadores já são elementos de sobra para tornar vulnerável a figura de Lula como chefe de Estado de um país da importância internacional do Brasil.
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Por menos disso, caiu o seu poderoso ministro da Fazenda. Por menos disso, desabaram seus áulicos prediletos, encabeçados pelo Zé. Em todas as investigações, que mostraram nos dois últimos anos a miséria moral da política, gregos e troianos trataram de poupar a figura do presidente da República, até por primário oportunismo político. Os artistas das CPIs, que só queriam aparecer, não contavam com a astúcia de um homem realmente inteligente, ambicioso, deslumbrado, para quem o Brasil só existe depois que ele foi inventado no ABC.
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Nesse caso, não quero nem saber se o ex-ministro Serra tinha ou não culpa no cartório. A gravidade da tentativa de compra da pasta e a negociação de sua publicação com duas revistas envolvendo homens do presidente remetem essa questão para um plano secundário, tal como aconteceu na hora em que Palocci cometeu o abuso infantil de quebrar o sigilo bancário do caseiro.
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Mesmo assim, há uma lógica em favor de José Serra: se estava na mamata, por que o delator premiado nada revelou antes?
.Resta saber o que as instituições farão para manter a integridade do estado democrático, quando o presidente da República e os parlamentares perderam o respeito e estão irremediavelmente prostrados pela avalanche de escândalos que se tornaram temas de chacotas e péssimos exemplos para a sociedade.
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Por Pedro Porfírio
Publicado no Tribuna da Imprensa
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Lamento por tudo quanto é sagrado: mas o Sr. Luiz Inácio Lula da Silva, que se pretendeu um príncipe operário, vive seu momento crepuscular e não tem mais condições institucionais para ser o chefe de Estado da República Federativa do Brasil. A situação é particularmente delicada em face das eleições do próximo dia 1º. No entanto, neste caso, o que paradoxalmente menos conta é o resultado das urnas.
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Como esse nó pode ser desatado, eis o desafio. Lutamos e sofremos mais da conta para reconquistar a democracia, a liberdade e o direito de escolha de nossos governantes e representantes. Mas a democracia por que lutamos - que me custou a própria liberdade - não comporta esse cenário tão desolador: homens da copa e da cozinha do presidente foram pilhados numa "operação suja", que, como disse Helio Fernandes, precisa ser rapidamente esclarecida, sobretudo quanto à origem dos 1 milhão e 700 mil reais (R$ 1,16 milhãomais 248 mil dólares).
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Nem uma virgem da várzea acreditará que o Sr. Luiz Inácio não tinha conhecimento desse episódio macabro muito semelhante ao caso Watergate, que levou à renúncia do presidente Nixon, em 8 de agosto de 1974.
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Naquela tentativa de instalação de microfones de espionagem na sede do Partido Democrata, de oposição, foi preciso a ação decidida de dois jornalistas para que se chegasse até o presidente norte-americano.
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No episódio brasileiro, não: a tentativa de compra de um dossiê ao delinqüente que subornou deputados e senadores envolve gente que não teria se metido nessa sem o conhecimento do chefe, cuja maior obstinação é perpetuar-se no poder para além de um segundo mandato. No caso do dinheiro apreendido, que, inacreditavelmente, não foi fotografado, já se sabe quais os bancos brasileiros onde foram sacados os reais.
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Mas e os dólares? Um leitor me fez chegar o seguinte comentário: "As cintas douradas de papel que prendiam os maços de dólares apreendidos pela Polícia Federal trazem duas pistas para se descobrir quem deu os recursos para a compra do dossiê.
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1) Indicam que o dinheiro foi sacado em um banco nos EUA;
2) Como a numeração das notas é seqüenciada, rastreá-las é tão fácil quanto tirar pirulito das mãos de uma criança. Os US$ 139 mil apreendidos eram divididos em pacotes de US$ 10 mil, os quais estavam presos em cintas com a inscrição: `BEP - One Hundred - $ 10,000'. BEP é a sigla do Bureau of Engraving and Printing, a casa da moeda dos EUA.
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Os especialistas são unânimes em descartar que os dólares tenham passado por doleiros no Brasil. Esse tipo de dinheiro circula de forma similar ao contrabando: em aviões privados ou carros, quando se tem fronteira terrestre pouco vigiada". Trata-se, portanto, de uma tramóia muito mais explosiva do que aparenta à primeira vista. E uma operação dessa envergadura não pode ser abafada com uma simples e repetida queimação de subordinados.
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Doce é o poder
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O princípio de qualquer investigação é a quem interessa o crime. Certamente, não é ao Sr. Freud Godoy, o "sombra" do presidente, nem ao Sr. Oswaldo Bargas, um-ex-sindicalista ladino que sempre esteve por trás do Lula desde São Bernardo e da CUT, nem ao Sr. Ricardo Berzoini, presidente do partido que mandou a ética às favas.
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Interessa, sim, com todas as elementares evidências, àquele que quer ser reeleito no primeiro turno e a partir daí passar a trabalhar pelo terceiro mandato, como tentaram FHC, Menen e Fujimori. Se não ganhar dia 1º, Lula terá todo mundo contra ele. E isso pode ameaçar seu atual "favoritismo". Portanto, quanto antes "liquidar a fatura", melhor. Esclareça-se que esse favoritismo é irreal: sua "maior força" nas pesquisas se dá onde há maiores dificuldades com as urnas eletrônicas, mais votos nulos e em branco.
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E o terceiro mandato? As vitórias de Serra em São Paulo, Aécio em Minas Gerais, e Requião no Paraná tornam esse sonho mais difícil. Os três são potenciais candidatos em 2010. E não vão aceitar novas investidas, como as de FHC, que comprou a reeleição, ou as práticas recentes dos "mensaleiros".
Se enfraquecesse o candidato oposicionista, favorito no maior Estado do Brasil, se garantisse um segundo turno, tudo poderia acontecer. Eleito no primeiro, Lula poderia investir lá com todas as suas "tropas". E com São Paulo na mão, Minas e Paraná não teriam cartuchos para o confronto, tal como aconteceu na batalha de Xangai, que definiu a vitória de Mao Tse-Tung na China.
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A natureza dessa operação, valendo-se de um bandido sem qualquer escrúpulo, e a lista dos seus operadores já são elementos de sobra para tornar vulnerável a figura de Lula como chefe de Estado de um país da importância internacional do Brasil.
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Por menos disso, caiu o seu poderoso ministro da Fazenda. Por menos disso, desabaram seus áulicos prediletos, encabeçados pelo Zé. Em todas as investigações, que mostraram nos dois últimos anos a miséria moral da política, gregos e troianos trataram de poupar a figura do presidente da República, até por primário oportunismo político. Os artistas das CPIs, que só queriam aparecer, não contavam com a astúcia de um homem realmente inteligente, ambicioso, deslumbrado, para quem o Brasil só existe depois que ele foi inventado no ABC.
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Nesse caso, não quero nem saber se o ex-ministro Serra tinha ou não culpa no cartório. A gravidade da tentativa de compra da pasta e a negociação de sua publicação com duas revistas envolvendo homens do presidente remetem essa questão para um plano secundário, tal como aconteceu na hora em que Palocci cometeu o abuso infantil de quebrar o sigilo bancário do caseiro.
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Mesmo assim, há uma lógica em favor de José Serra: se estava na mamata, por que o delator premiado nada revelou antes?
.Resta saber o que as instituições farão para manter a integridade do estado democrático, quando o presidente da República e os parlamentares perderam o respeito e estão irremediavelmente prostrados pela avalanche de escândalos que se tornaram temas de chacotas e péssimos exemplos para a sociedade.
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ISOLACIONISMO CONTINENTAL ?
Por Raphael Tosti
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Com o fracasso da Rodada Doha da OMC, os EUA devem voltar a priorizar os acordos de livre-comércio com os países hemisféricos. O governo Bush já se notabiliza por ter negociado grande quantidade de acordos do gênero com parceiros regionais. Por isso, é possível que os Estados Unidos aprofundem as negociações da ALCA no âmbito bilateral, contribuindo para que o Mercosul fique cada vez mais isolado.
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Com o fracasso da Rodada Doha da OMC, os EUA devem voltar a priorizar os acordos de livre-comércio com os países hemisféricos. O governo Bush já se notabiliza por ter negociado grande quantidade de acordos do gênero com parceiros regionais. Por isso, é possível que os Estados Unidos aprofundem as negociações da ALCA no âmbito bilateral, contribuindo para que o Mercosul fique cada vez mais isolado.
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Em 2002, Bush conseguiu obter do congresso americano o chamado Trade Promotion Authority (TPA), mecanismo legal que permite ao Executivo negociar acordos comerciais com maior liberdade. É claro que o TPA limita os temas a serem negociados, mas, ao menos, assegura aos parceiros de comércio dos EUA que não haverá emendas aos acordos, já que os parlamentares só poderão aprová-los ou rejeitá-los integralmente. O problema é que o último TPA foi prorrogado por dois anos em 2005 e vai expirar em julho de 2007. E o governo tem pouca esperança de que os lobbies protecionistas permitam que o Congresso aprove outro.
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A atual estratégia da Casa Branca é negociar temas como serviços, investimentos e propriedade intelectual na OMC, na ALCA e, também, diretamente com os países interessados. O fato de todos os membros da OMC terem direito a veto tende a gerar impasses difíceis de serem contornados, como o que ocorre no momento. Enquanto os europeus fazem jogo duro para reduzir o protecionismo agrícola, os EUA não param de subsidiar a produção de seus agricultores e o G20, encabeçado pelo Brasil, evita uma abertura comercial mais abrangente. Dessa forma, a atual suspensão da Rodada Doha por tempo indeterminado e o fim do TPA dentro de alguns meses indicam que haverá tentativas de aprofundamento das negociações bilaterais por parte dos EUA.
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O Brasil, contudo, prefere negociar os temas caros aos americanos no âmbito multilateral da OMC, que, como já se sabe, anda meio conturbado. Na ALCA, o país não negocia individualmente, mas como Mercosul. Se já era difícil para os negociadores brasileiros harmonizarem interesses de parceiros tão dispares quanto Paraguai, Uruguai e Argentina, imagine agora, com a entrada da Venezuela no bloco. Basta lembrar que durante a IV Cúpula das Américas, em Mar Del Plata, no final de 2005, Hugo Chávez, discursando por duas horas seguidas, como uma imitação barata de Fidel Castro, afirmou que havia trazido a pá de cal para enterrar a ALCA. Assim, o único tabuleiro de negociação significativo que resta ao Brasil é o da União Européia. E negociar com os europeus não é nada simples.
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Prevendo dificuldades nas negociações convencionais da ALCA e, também, na OMC, os EUA tem fechado acordos de livre-comércio com diversos países da América Central e com alguns da América do Sul, área estratégica de atuação brasileira. Chile, Colômbia, Peru já têm acordos com o país e o Equador deve seguir o mesmo caminho. No começo do ano, o Mercosul estremeceu quando soube do interesse uruguaio de se associar aos Estados Unidos. E, nem mesmo a Venezuela, maior opositora declarada do Tio Sam, abre mão da parceria, já que o país é o maior importador do petróleo revolucionário-bolivariano de Chávez. Parece que a ALCA vai sair independentemente da vontade brasileira.
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O Brasil é o país que detém uma das economias mais diversificadas da região e, talvez, o que tenha menos motivos para se isolar dentro de um bloco mercantilista como o Mercosul. Apesar de não ser o único culpado pelos impasses nas negociações, atualmente, o maior desafio brasileiro é conseguir superar a fobia do livre-comércio.
Em 2002, Bush conseguiu obter do congresso americano o chamado Trade Promotion Authority (TPA), mecanismo legal que permite ao Executivo negociar acordos comerciais com maior liberdade. É claro que o TPA limita os temas a serem negociados, mas, ao menos, assegura aos parceiros de comércio dos EUA que não haverá emendas aos acordos, já que os parlamentares só poderão aprová-los ou rejeitá-los integralmente. O problema é que o último TPA foi prorrogado por dois anos em 2005 e vai expirar em julho de 2007. E o governo tem pouca esperança de que os lobbies protecionistas permitam que o Congresso aprove outro.
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A atual estratégia da Casa Branca é negociar temas como serviços, investimentos e propriedade intelectual na OMC, na ALCA e, também, diretamente com os países interessados. O fato de todos os membros da OMC terem direito a veto tende a gerar impasses difíceis de serem contornados, como o que ocorre no momento. Enquanto os europeus fazem jogo duro para reduzir o protecionismo agrícola, os EUA não param de subsidiar a produção de seus agricultores e o G20, encabeçado pelo Brasil, evita uma abertura comercial mais abrangente. Dessa forma, a atual suspensão da Rodada Doha por tempo indeterminado e o fim do TPA dentro de alguns meses indicam que haverá tentativas de aprofundamento das negociações bilaterais por parte dos EUA.
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O Brasil, contudo, prefere negociar os temas caros aos americanos no âmbito multilateral da OMC, que, como já se sabe, anda meio conturbado. Na ALCA, o país não negocia individualmente, mas como Mercosul. Se já era difícil para os negociadores brasileiros harmonizarem interesses de parceiros tão dispares quanto Paraguai, Uruguai e Argentina, imagine agora, com a entrada da Venezuela no bloco. Basta lembrar que durante a IV Cúpula das Américas, em Mar Del Plata, no final de 2005, Hugo Chávez, discursando por duas horas seguidas, como uma imitação barata de Fidel Castro, afirmou que havia trazido a pá de cal para enterrar a ALCA. Assim, o único tabuleiro de negociação significativo que resta ao Brasil é o da União Européia. E negociar com os europeus não é nada simples.
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Prevendo dificuldades nas negociações convencionais da ALCA e, também, na OMC, os EUA tem fechado acordos de livre-comércio com diversos países da América Central e com alguns da América do Sul, área estratégica de atuação brasileira. Chile, Colômbia, Peru já têm acordos com o país e o Equador deve seguir o mesmo caminho. No começo do ano, o Mercosul estremeceu quando soube do interesse uruguaio de se associar aos Estados Unidos. E, nem mesmo a Venezuela, maior opositora declarada do Tio Sam, abre mão da parceria, já que o país é o maior importador do petróleo revolucionário-bolivariano de Chávez. Parece que a ALCA vai sair independentemente da vontade brasileira.
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O Brasil é o país que detém uma das economias mais diversificadas da região e, talvez, o que tenha menos motivos para se isolar dentro de um bloco mercantilista como o Mercosul. Apesar de não ser o único culpado pelos impasses nas negociações, atualmente, o maior desafio brasileiro é conseguir superar a fobia do livre-comércio.
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Texto aqui
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REAL E PREÇO AMEAÇAM 72% DA EXPORTAÇÃO
Estudo da Fiesp mostra que apenas 7 de 31 setores têm condições favoráveis
para vender sua produção no exterior
Segmentos que ainda mantêm cenário positivo respondem por apenas
3% da força de trabalho da indústria e do agronegócio
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Por Marcelo Billi
Publicado na Folha de São Paulo
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.Apenas 7 de 31 setores da economia brasileira têm hoje condições favoráveis para exportar. Os demais enfrentam condições de preços que exigem compressão de margens ou que os deixam de fora do mercado externo. Mais: os setores que têm condições vantajosas de preços, apesar de responderem por quase um terço das exportações, empregam só 3% da força de trabalho da indústria e da agropecuária.
.Apenas 7 de 31 setores da economia brasileira têm hoje condições favoráveis para exportar. Os demais enfrentam condições de preços que exigem compressão de margens ou que os deixam de fora do mercado externo. Mais: os setores que têm condições vantajosas de preços, apesar de responderem por quase um terço das exportações, empregam só 3% da força de trabalho da indústria e da agropecuária.
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Os dados, que fazem parte de relatório divulgado ontem pela Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), mostram, na avaliação da entidade, que o desempenho ainda positivo da balança comercial, puxado pelo aquecimento da economia global, esconde situações muito diferentes. "O crescimento mundial caiu no quintal do Brasil [aumentando a procura por produtos que o país exporta]. O período de forte apreciação do real foi acompanhado de forte alta dos preços", diz Paulo Francini, do Departamento de Pesquisas Econômicas da Fiesp.
.Segundo a Fiesp, só sete setores, que respondem por 28% das exportações, têm condições favoráveis no mercado externo.
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Os dados, que fazem parte de relatório divulgado ontem pela Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), mostram, na avaliação da entidade, que o desempenho ainda positivo da balança comercial, puxado pelo aquecimento da economia global, esconde situações muito diferentes. "O crescimento mundial caiu no quintal do Brasil [aumentando a procura por produtos que o país exporta]. O período de forte apreciação do real foi acompanhado de forte alta dos preços", diz Paulo Francini, do Departamento de Pesquisas Econômicas da Fiesp.
.Segundo a Fiesp, só sete setores, que respondem por 28% das exportações, têm condições favoráveis no mercado externo.
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Para chegar à conclusão, a Fiesp calculou índices de preços, em reais, das exportações para os 31 setores, de 1980 ao segundo trimestre de 2006. Depois, calculou o preço médio para cada setor no período 1980-2006. A diferença entre o preço atual e o preço médio mostra o quão favorável está o mercado para aquele setor.
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Os preços médios das exportações brasileiras são hoje 6,5% superiores ao período 1980-2006. Mas a média esconde situações bem díspares. O setor açucareiro, por exemplo, tem preços de exportação hoje 37% superiores ao preço médio 1980-2006. Como o cálculo é em reais, o indicador considera tanto o efeito do câmbio quanto o efeito do preço dos produtos no mercado internacional.
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Os setores podem ser divididos em dois grandes grupos: o dos setores com condição de mercado favorável e o dos com condição não-favorável. Dentro deste último grupo há dez setores que, apesar de terem preços em média menores do que a média histórica, ainda têm alguma margem de manobra para exportar. Eles são responsáveis por exportações que totalizaram US$ 39 bilhões em 2005, ou 39% da pauta brasileira. Esse é o caso, por exemplo, de laticínios, cujo preço atual é 3% inferior à média histórica.
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Já setores como químicos, farmacêuticos e plásticos registram preços 10% menores do que a média história, nível a partir do qual a Fiesp considera não haver margem para sustentar as exportações, que eram, em 2005, 37% da pauta.
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Outro levantamento, do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), mostra que entre o segundo trimestre deste ano e o último do ano passado, a quantidade exportada aumentou em 12 setores, ficou praticamente estável em 3 e caiu em 11.
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"O câmbio é uma variável que afeta a balança, mas não é só o câmbio. O preço e as condições de mercado também", diz Marcelo Nuremberg, do Ipea, argumentando que a diferença de desempenhos mostra que os setores são afetados diferentemente pelo câmbio.
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Um agravante, diz Francini, da Fiesp, é o fato de que são justamente os setores em pior situação que empregam mais pessoas. Em 2005, dos 21,5 milhões de pessoas trabalhando na indústria exportadora e na agropecuária, apenas 649 mil, ou 3% do total, estavam empregados nos sete setores que gozam de condições favoráveis de preços para exportar.
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COMENTANDO A NOTÍCIA: Não é de hoje que somos críticos sobre a política ambial adotado pelo Governo Lula. O incentivo patrocinado pelo governo de modo artificial para valaorização do real, muito mais são negativos para importantes setores da economia, do que propriamente estejam a contribuir para um crescimento que não se vê. Claro, o fundo disto tudo é a manautençãoa e contenção da inflação em níveis mais baixo, só que a custo social e conômico altíssimo. Enquanto o gverno Lulas preocupar-se, irresponsavelmente, com o volume financeiro de nossas exportações, estará exterminando importantes cadeias econômicas e de grande geração de empregos. O senhor Lula deveria entender que para questões técnicas, as soluções deverão, necessariamente, serem de cunho técnico. Pode-se até considerar outros aspectos, os políticos por exemplo. Mas tais "soluções políticos" quando passam a entravar o crescimento e exterminar postos de trabalhos, o país acaba sofrendo enorme prejuízo de difícil reposição no curto prazo. e falácia do volume financeiro logo desaparecerá. E a recuperação interna será difícil e lenta. Governo politiqueiro dá nisso !