quarta-feira, outubro 04, 2006

Leituras recomendadas

A OPINIÃO PÚBLICA AINDA EXISTE

Por Arnaldo Jabor,
Publicado no Estadão

São duas horas da manhã de segunda feira. Só agora vou escrever este artigo, pois tinha de esperar o resultado da votação.
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Estou vagamente irritado, pois escreverei até as cinco da 'matina', mas estou contente, porque a resposta do País foi sensata. Se o Lula fosse eleito no primeiro turno, como ele apregoava aos berros no palanque em S. Bernardo, num show onde ele parecia um Mick Jagger metalúrgico, a vitória seria péssima até para ele.
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Se Lula fosse eleito em primeiro turno, estaria consagrada a mentira, o cinismo, a ocultação de provas, a arrogância truculenta dos métodos de campanha. Se Lula fosse eleito no primeiro turno, o País não entenderia seu destino, depois daquela campanha turbulenta, com a gralha do agreste Heloísa berrando slogans dos anos 30, com o Cristovam falando coisas sérias mas inaudíveis. Se Lula fosse eleito de cara, ele começaria um governo do eu-sozinho, sem um programa que o segundo turno vai obrigá-lo a fazer; se eleito fosse, o PT e aliados se sentiriam num clima 'revolucionário', os cutistas e sindicalistas estariam legitimados em suas sabotagens. O sabor de uma vitória em primeiro turno, com tudo ocultado, seria a vitória da violência contra a razão, se consagraria a idéia de que não precisava nem programa de governo, de que bastam as juras de amor ao 'povo', as belezas do analfabetismo e a grandeza da 'sagrada ignorância operária' para justificar um presidente.
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Tudo que intelectuais e artistas ignorantes disseram, desde a 'condenação da competência', desde a atribuição dos mensalões a 'uma invenção da mídia', desde os brados boçais de dizer que 'tudo sempre foi assim e que tem mais é que meter a mão na merda' , que democracia é uma 'patranha burguesa para enganar o povo', todas as besteiras impunes que ouvimos nos últimos meses estariam legitimadas, co-honestadas pelo voto bovino e consagrador. O segundo turno será uma psicanálise para o Lula, uma revisão crítica de seu deslumbramento milagreiro, como um Tiradentes ou um Cristo traído. O segundo turno será bom para o Lula voltar à humildade mínima.
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Nos últimos meses, houve uma batalha feroz entre marketing e mídia, entre propaganda e imprensa. A democracia estava desmoralizada pelos métodos pós-modernos de escolha. O PT estava vencendo uma revolução ridícula, mas era uma revolução: bolchevistas tardios estavam realizando o sonho secreto dos comunas - desmoralizar a democracia. Tinham imposto à opinião pública a depressão da impotência. Os mensalões, a careca do Valério, os dólares na cueca, o sólido cinismo dos acusados, a inutilidade das provas, tudo estava amortecido na memória, enquanto o 'comandante' proclamava que as 'elites de direita' seriam vencidas. E as 'elites' (quem são?) estariam acoelhadas diante da eufórica vitória populista. Mas, nem precisaram despertar uma direita (quem, se Barbalho e Newtão são aliados? ). Os próprios petistas trapalhões mais uma vez deram uma rasteira em Lula e em si mesmos. A invenção sublime do 'dossier' contra o Serra foi um gol-contra espantoso. Aliás, essa fascinante propensão do PT para destruir as próprias vitórias está a pedir um estudo sério. Freud tem um texto, se não me engano, chamado O Fracasso do Êxito, em que o vitorioso acaba se consumindo de culpa diante do sucesso. Nunca uma hipotética direita foi tão auxiliada por uma ridícula esquerda.
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O segundo turno será muito bom para a democracia, pois os candidatos serão obrigados a discutir programas, para além das baixarias inevitáveis.
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Agora, o Lula e seus assessores terão de ser democráticos. Os programas serão discutidos e a oposição terá tempo e ânimo para explicar ao 'povo' a cartilha da subversão pela corrupção, explicar como se invocam idéias sérias de grande homens do passado para, hoje, no presente, justificar uma chanchada oportunista de pelegos e bolchevistas aposentados. Será claro como eles pretendiam desconstruir a democracia reconquistada em 1985 em nome de um cadáver desmembrado apelidado de 'socialismo' que, por ser impossível hoje, se degradaria num baixo populismo de direita sob o apelido 'de esquerda'. Agora, o povo vai prestar atenção na disputa, como um Fla-Flu decisivo. Acaba a profusão de times e de caras, acaba a poluição visual dos ratos e toupeiras ganindo no horário eleitoral e teremos um confronto.
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Agora, estamos diante do mistério de uma disputa, mas não estamos mais perante o inevitável fracasso dos que venceriam. Antes, eu tinha a certeza do desastre, pela lógica mais óbvia da ciência política, pela banal previsibilidade dos voluntaristas e sindicalistas truculentos. Agora, a racionalidade vai se impor de novo. Idéias vão surgir, provas e autocríticas terão de aparecer. Estamos diante de um momento histórico interessantíssimo. Sei que os chineses dizem: 'Pobres daqueles que vivem um momento histórico interessante'... Talvez, pois os 'grandes momentos' são em geral massacrantes e sanguinários. Mas, não no nosso momento. Veremos um país na mesa posta. Veremos um país dividido sim, não pela irracionalidade, mas entre duas tendências políticas. Um segundo turno nos fez reviver, nos sentimos mais respeitados.
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Nós, que andávamos cabisbaixos, não somos mais palhaços manipulados por uma ditadura mole, disfarçada de democrática. Descobrimos, maravilhados, que a opinião pública ainda existe.
(Texto completo aqui)
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LULA MUDA DA ÁGUA PARA O REFRESCO
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Por Villas-Bôas Corrêa
Do site NoMínimo
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A especulação está solta na praça e buscará todos os caminhos e atalhos para tentar adivinhar o resultado do segundo turno. Todos os esforços são bem-vindos e respeitáveis, como estimulantes da mobilização popular. E nada detém a coceira dos adivinhos amadores e dos profissionais dos institutos de pesquisas.Na primeira fase curta, nervosa e intensa da caça às alianças no mercado de partidos e lideranças disponíveis, tenta-se a costura dos acordos óbvios e avança-se nas áreas duvidosas. E, no plano mais alto das investigações da imprensa e dos teóricos especialistas no ramo, cada episódio das rixas estaduais, das vitórias e derrotas é virado e revirado pelo avesso para a antecipação das suas prováveis influências na decisão do mano a mano das urnas de 29 próximo, daqui a exatos 25 dias.
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A vitória do tucano Geraldo Alckmin, com as achegas das votações de Heloísa Helena, Cristovam Buarque e outros menos votados que bloquearam a disparada do candidato-presidente Lula à maioria absoluta, liquidando a fatura no primeiro turno, aconselha doses duplas de cautela nos palpites dos ansiosos e tripla aos advertidos pesquisadores especializados.
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Sem nenhuma pretensão de ensinar reza aos vigários crentes e ateus, apenas lembro as experiências recentes de decisões no segundo turno, como na eleição do novo senador alagoano Fernando Collor de Melo, em 1990, e na eleição de Lula, em 2002, quando derrotou o tucano José Serra, que acaba de ser eleito governador de São Paulo.
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Lula perdeu uma eleição quando tinha todas as condições para ganhar, com o catastrófico desempenho no debate, no mano a mano do segundo turno, contra Collor. Lição exemplar: foi melhor no primeiro debate e disparou nas pesquisas; meteu os pés pelas mãos no segundo, e entrou pelo encanamento.
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Na quarta tentativa que o levou ao Palácio do Planalto foi carregado pela militância do PT, nos bons tempos em que a bandeira vermelha arrastava multidões e a boca de urna virava votos aos milhões pelo Brasil. Mas, Lula participou das rodadas de debates no primeiro e no segundo turno com atuações sofríveis, que não resvalaram no seu favoritismo absoluto. Marchou para a decisão pisando firme, com a eleição garantida pela vantagem carimbada pelas pesquisas.
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Agora, o quadro é outro. Tudo é importante e pode fazer a diferença numa corrida de alta velocidade, na reta de três semanas. Do alinhavo de apoios dos milionários de votos estaduais às próximas etapas da novela do R$ 1,75 milhão apreendido com petistas para a compra do dossiê contra o candidato tucano José Serra, com rebate no candidato Geraldo Alckmin.
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O governo está acuado pela aflitiva urgência na apuração da origem da dinheirama e da identificação do articulador da marota e desastrada armação, antes que a exposição das fotos com as pilhas de notas novinhas, saídas da forma, de reais e de dólares complete o desmonte da imagem popular do benfeitor dos pobres e generoso distribuidor de milhões de Bolsas Família.
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Não falta munição ao candidato oposicionista para manter a ofensiva na série debates que devem ser promovidas por todas as emissoras de televisão. E se o estilo de Alckmin é mais para a amenidade dos temas administrativos, nos últimos dias da campanha, sob pressão e cobrança enérgica dos aliados, ganhou a agressividade que impulsionou a ascensão vitoriosa para o segundo turno.Tudo é importante e qualquer escorregão pode mudar o voto de milhares, de milhões. Certo mesmo é a poderosa influência das previsíveis polêmicas na decisão do eleitor.
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A definição afunila para as três semanas de crescente mobilização popular. Debate mano a mano é a fórmula perfeita para sacudir o eleitor, despertá-lo da indiferença, curar decepções, espanar a poeira das muitas e justas frustrações dos escândalos da corrupção, do mensalão, do caixa dois, das ambulâncias superfaturadas das trampas dos sanguessugas, da decadência moral do Congresso, doente terminal da praga ética.
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A mudança da tática escapista, faltando aos debates ao alto preço da exibição da cadeira vazia e nas negativas a falar com a imprensa é a mais límpida evidência do reconhecimento do erro. Horas amarguradas na revisão dos equívocos e na cobrança das falhas cabeludas de assessores diretos operaram o milagre da ressurreição do candidato risonho, bem-humorado, solícito a ponto de convidar a imprensa para a primeira entrevista coletiva com direito a perguntas dos jornalistas em três anos, nove meses e dois dias de mandato.O fantasma da derrota apavora o mais destemido dos mortais.
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E leva o candidato ao desatino.
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(Texto completo aqui)
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LULA OU CHÁVEZ, QUEM É O LÍDER DA AMÉRICA LATINA?
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The Economist
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Quatro anos atrás, quando eleito presidente do Brasil numa vitória esmagadora, Luiz Inácio Lula da Silva parecia destinado a tornar-se porta-voz de uma América Latina nova, mais confiante e socialmente mais justa. O Brasil, a quarta maior democracia do mundo, tem aspirações legítimas de se tornar uma liderança regional e de assumir um papel mais destacado no mundo. E a própria história de Lula - sétimo filho de uma família paupérrima do atrasado Nordeste brasileiro, que se tornou líder sindical - autorizava-o a assumir a liderança moral de uma nova e democrática esquerda latino-americana, uma esquerda que parecia ter cortado as antigas amarras a uma concepção de Estado todo-poderoso.
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Quatro anos depois, é praticante certo que Lula venha a conquistar um segundo mandato, seja na eleição geral deste domingo ou num segundo turno. Infelizmente, porém, ele perdeu um pouco de seu antigo brilho.
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Lula não é a voz mais forte na América Latina, nem mesmo de sua esquerda. A voz dominante é a de Hugo Chávez, o populista presidente da Venezuela.
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Em 20 de setembro, em discurso perante a Assembléia Geral das Nações Unidas (ONU), Chávez suplantou até mesmo o iraniano Mahmoud Ahmadinejad no ruidoso tom adolescente de seu anti-americanismo, referindo-se a presidente americano, George W. Bush, como "o diabo".
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Falar alto não é, necessariamente, um comportamento persuasivo. Mas Chávez é um comunicador esperto que traz os bolsos repletos de dinheiro do petróleo. Ele foi financeiramente magnânimo para com um leque de países - da Argentina à África -, e espera que isso assegure à Venezuela uma das duas cadeiras rotativas reservados à América Latina no Conselho de Segurança da ONU. Para isso, ele conseguiu o apoio adicional da Rússia e da China, bem como o de um punhado de ditadores - de Belarus à Coréia do Norte.
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As democracias latino-americanas têm reclamações justificadas contra Bush e os EUA. Mas é difícil ver como seus interesses serão efetivamente representados por Chávez, um autocrata eleito caracterizado pelo hábito de tentar esfacelar qualquer grupo que não ele não seja capaz de controlar. É realmente estranho que a candidatura da Venezuela à ONU tenha o apoio do Brasil. Lula, assim, está ajudando a assegurar uma plataforma mundial a seu principal contendor pela liderança na América do Sul.
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A visão de Lula é que a melhor maneira de conter Chávez é incluí-lo - por exemplo, no Mercosul. Isso parece atender os interesses de curtíssimo prazo de Lula: satisfazer a esquerda de seu partido, que discorda das políticas econômicas do presidente. E qual é a reação de Chávez? Ajudar a humilhar o Brasil na Bolívia, onde os ativos da Petrobras nos setores de petróleo e gás correm o risco de estatização, e empenhar-se em comprometer os princípios democráticos e de livre mercado com base nos quais o Brasil fundou o Mercosul.
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À parte a ingenuidade da política externa de Lula em relação à América do Sul, há duas razões mais graves pelas quais o presidente brasileiro perdeu seu brilho. Uma delas é que durante seu mandato aconteceu o pior agravamento da corrupção política no Brasil. No ano passado, tornou-se público que diversos de seus assessores mais próximos orquestraram um esquema sob o qual um grande número de legisladores de partidos aliados recebiam dinheiro em troca de seus votos no Congresso. Neste mês, estourou em um novo escândalo: membros da campanha de Lula demitiram-se depois de negociar o pagamento e a publicação de documentos comprometendo adversários, ao vinculá-los a um outro esquema de corrupção. E para completar, Antonio Palocci, eficaz ministro das Finanças de Lula durante boa parte de seu primeiro mandato - e possivelmente o futuro líder do partido de Lula no Congresso -, poderá ser indiciado por envolvimento em um terceiro escândalo.
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A economia é motivo para outra frustração. Sensatamente, Lula e Palocci ficaram distantes de qualquer moratória da dívida externa e mantiveram políticas macroeconômicas responsáveis. Mas a economia brasileira avançou muito pouco, tendo crescido a uma média de apenas 2,8% ao ano sob Lula. Foi o crescimento excessivo da receita tributária - e não uma política mais inteligente de gastos -, que manteve as contas fiscais sob controle. Investimentos do setor privado são limitados devido a complicações burocráticas, infra-estrutura insatisfatória e incertezas quanto aos marcos regulatórios, bem como pela prejudicial carga tributária sobre as empresas.
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Por tudo isso, então, é ainda mais extraordinário que Lula esteja a caminho de um segundo mandato que, sob diversos ângulos, parece não merecido. Já é antiga a conclusão da maioria dos brasileiros, de que os políticos do país são irremediavelmente corruptos. Mas muitos brasileiros identificam-se com Lula e não acreditam que ele tenha se beneficiado pessoalmente das propinas. Acima de tudo, o segredo do êxito eleitoral de Lula é que ele cumpriu sua promessa de ajudar os brasileiros mais pobres.
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Graças a um bem-sucedido programa contra a pobreza (que faz chegar pequenos pagamentos a 11 milhões de famílias), à inflação baixa, ao maior acesso a educação e a grandes aumentos no salário mínimo, a renda dos pobres está subindo muito mais que a da classe média. O resultado é que, num país de má reputação por suas desigualdades, a renda está hoje mais bem distribuída do que em qualquer momento nos últimos 30 anos.
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Alguns dos sucessos de Lula devem muito a seu antecessor, Fernando Henrique Cardoso (assim como o mau hábito de tributar e gastar). O modo como o Brasil está ajudando os pobres parece mais eficaz, sustentável e democrático do que os de Chávez, que recorre aos rios de dinheiro do petróleo e depende de assessores cubanos. Mas um progresso continuado exigirá políticas distintas, como Lula às vezes parece reconhecer.
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Num segundo mandato, ele precisaria envolver-se em um esforço concertado para tirar o Brasil de sua armadilha de baixo crescimento. Isso exigirá cortes nos impostos e na burocracia federal, e redução de gastos perdulários do governo - bem como reformas no sistema previdenciário, nas agências reguladoras, no sistema educacional e no mercado de trabalho. E isso será difícil. O próprio partido de Lula resiste a tais medidas, e ele poderá ficar ainda mais à mercê do apetite voraz por dinheiro público da parte de seus aliados no Congresso. Para aprovar as reformas necessárias, ele poderá precisar apelar à oposição.
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O Brasil é freqüentemente citado, juntamente com a China, a Índia e a Rússia, como sendo uma das potências econômicas emergentes. No que se refere a crescimento econômico, a citação é puro confete. Ela é também enganosa: o Brasil viveu um surto de crescimento nos anos 50 e 70, e é atualmente um país de renda média, no qual é mais difícil sustentar um crescimento rápido.
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Se a economia brasileira estivesse crescendo a 5% ou 6% ao ano, a reivindicação do Brasil à liderança regional teria maior peso. E se Lula desse vários passos sérios no sentido de promover uma limpeza na cena política brasileira - empenhando-se na aprovação de sistemas partidários e eleitorais nos quais houvesse maior cobrança de responsabilidades e maior transparência - ele começaria a resgatar seu próprio direito à liderança moral da esquerda na região. Isso é algo beneficiaria tanto o Brasil como a América Latina.
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(Tradução de Sergio Blum)
(Enviado pelo leitor e amigo Fábio Zuanon/SP)