por José Silva Lisboa, site do Instituto Millenium
Em quase todos os países, sobretudo nos de forte tradição intelectual, são comuns os debates de idéias, seja em eventos acadêmicos, como seminários e colóquios temáticos, seja nas páginas de publicações especializadas, como as revistas de cunho científico, seja ainda por meio da grande imprensa. É nessas disputas, querelas, controvérsias ou polêmicas que o público, tanto o perito quanto o leigo, fica informado do conteúdo das idéias em debate bem como sobre a posição dos respectivos contendores ou participantes do exercício.
No Brasil, esse tipo de atividade intelectual parece ser raro, senão inexistente. Não me consta que as revistas acadêmicas mantenham seções de “disputas intelectuais” ou de confrontação de opiniões divergentes. Apenas um dos jornais diários, da capital paulista, mantém uma seção regular de “debate e opinião”, mas ele o faz de uma forma desnecessariamente maniqueista. O objetivo é sempre o de responder a uma determinada questão, colocada pelo próprio jornal, que então procura algum político ou acadêmico que responda pelo “sim” e um outro pelo “não”. Parece claro, entretanto, que o amplo leque de aspectos envolvidos em determinados problemas, geralmente complexos, nem sempre permite responder de modo afirmativo, positiva ou negativamente, à pergunta colocada.
O método é discutível porque o único objetivo é confrontar duas posições, organizadas de forma dicotômica, sem que haja, depois, tentativa de síntese ou a conjugação das propostas apresentadas com vistas a solucionar o problema. Ora, em toda questão de interesse relevante, para a qual se busca uma solução equilibrada, sempre existem aspectos contraditórios que devem ser ponderados em função de um cálculo do menor custo e da maximização de resultados sociais, não em função de uma separação estrita, tipo contra ou a favor, de “soluções” alternativas.
O Brasil carece de bons debates de idéias. Infelizmente, já não se encontra mais entre nós, figuras como as de Eugênio Gudin ou de Roberto Campos, este último um exímio debatedor, que escolhia um tema relevante para examiná-lo com sua lupa impiedosa e até mesmo para “esquartejá-lo” com seu bisturi afiado. Existem polemistas regulares, nas seções de “ponto de vista” de um semanário de sucesso, mas a opinião é ali servida de maneira unilateral, e não há espaço para o verdadeiro debate de idéias, a não ser de forma rápida na seção de Cartas. De resto, nem sempre, no Brasil, o debate de idéias é percebido de maneira positiva, nem seu formato preserva o equilíbrio entre a exposição objetiva dos fatos e a discussão realista de soluções, não raro descambando para ataques pessoais ou a simples desqualificação política do adversário (“neoliberal”, entre nós, ainda serve de argumento).
Por que motivos os intelectuais brasileiros, que são, no bom sentido da palavra, profissionais da manipulação de bens simbólicos, preferem a exposição solitária de suas posições, em lugar de aceitarem e promoverem os debates de idéias? Talvez porque o objetivo de suas manifestações públicas não seja, de fato, a verdade e o conhecimento, mas a simples manifestação de “poder acadêmico”, a dominação sobre os leitores, a eliminação simbólica do “adversário”? Alguns “combates” verbais seriam, na verdade, necessários para impulsionar o esclarecimento público e a busca de soluções adequadas aos muitos problemas brasileiros. A mais freqüente acusação feita nesses meios contra os chamados “neoliberais” é a de que eles estariam supostamente defendendo um “pensamento único”, quando não se tem nenhuma evidência de que as várias correntes que defendem idéias relativamente ortodoxas em economia – por oposição ao que seria o pensamento supostamente heterodoxo ou dito “desenvolvimentista” – sejam todas concordes nas suas propostas ou coincidentes nas suas inclinações filosóficas.
O que, ao contrário, ocorre de maneira mais freqüente é que a esquerda acadêmica defende, de maneira muitas vezes simplista, um pensamento único caracterizado pela antiglobalização e por uma rejeição incompreensível da economia de mercado. Onde estão os intelectuais e os meios de comunicação que se encarregarão de promover alguns bons debates de idéias no Brasil?
Em quase todos os países, sobretudo nos de forte tradição intelectual, são comuns os debates de idéias, seja em eventos acadêmicos, como seminários e colóquios temáticos, seja nas páginas de publicações especializadas, como as revistas de cunho científico, seja ainda por meio da grande imprensa. É nessas disputas, querelas, controvérsias ou polêmicas que o público, tanto o perito quanto o leigo, fica informado do conteúdo das idéias em debate bem como sobre a posição dos respectivos contendores ou participantes do exercício.
No Brasil, esse tipo de atividade intelectual parece ser raro, senão inexistente. Não me consta que as revistas acadêmicas mantenham seções de “disputas intelectuais” ou de confrontação de opiniões divergentes. Apenas um dos jornais diários, da capital paulista, mantém uma seção regular de “debate e opinião”, mas ele o faz de uma forma desnecessariamente maniqueista. O objetivo é sempre o de responder a uma determinada questão, colocada pelo próprio jornal, que então procura algum político ou acadêmico que responda pelo “sim” e um outro pelo “não”. Parece claro, entretanto, que o amplo leque de aspectos envolvidos em determinados problemas, geralmente complexos, nem sempre permite responder de modo afirmativo, positiva ou negativamente, à pergunta colocada.
O método é discutível porque o único objetivo é confrontar duas posições, organizadas de forma dicotômica, sem que haja, depois, tentativa de síntese ou a conjugação das propostas apresentadas com vistas a solucionar o problema. Ora, em toda questão de interesse relevante, para a qual se busca uma solução equilibrada, sempre existem aspectos contraditórios que devem ser ponderados em função de um cálculo do menor custo e da maximização de resultados sociais, não em função de uma separação estrita, tipo contra ou a favor, de “soluções” alternativas.
O Brasil carece de bons debates de idéias. Infelizmente, já não se encontra mais entre nós, figuras como as de Eugênio Gudin ou de Roberto Campos, este último um exímio debatedor, que escolhia um tema relevante para examiná-lo com sua lupa impiedosa e até mesmo para “esquartejá-lo” com seu bisturi afiado. Existem polemistas regulares, nas seções de “ponto de vista” de um semanário de sucesso, mas a opinião é ali servida de maneira unilateral, e não há espaço para o verdadeiro debate de idéias, a não ser de forma rápida na seção de Cartas. De resto, nem sempre, no Brasil, o debate de idéias é percebido de maneira positiva, nem seu formato preserva o equilíbrio entre a exposição objetiva dos fatos e a discussão realista de soluções, não raro descambando para ataques pessoais ou a simples desqualificação política do adversário (“neoliberal”, entre nós, ainda serve de argumento).
Por que motivos os intelectuais brasileiros, que são, no bom sentido da palavra, profissionais da manipulação de bens simbólicos, preferem a exposição solitária de suas posições, em lugar de aceitarem e promoverem os debates de idéias? Talvez porque o objetivo de suas manifestações públicas não seja, de fato, a verdade e o conhecimento, mas a simples manifestação de “poder acadêmico”, a dominação sobre os leitores, a eliminação simbólica do “adversário”? Alguns “combates” verbais seriam, na verdade, necessários para impulsionar o esclarecimento público e a busca de soluções adequadas aos muitos problemas brasileiros. A mais freqüente acusação feita nesses meios contra os chamados “neoliberais” é a de que eles estariam supostamente defendendo um “pensamento único”, quando não se tem nenhuma evidência de que as várias correntes que defendem idéias relativamente ortodoxas em economia – por oposição ao que seria o pensamento supostamente heterodoxo ou dito “desenvolvimentista” – sejam todas concordes nas suas propostas ou coincidentes nas suas inclinações filosóficas.
O que, ao contrário, ocorre de maneira mais freqüente é que a esquerda acadêmica defende, de maneira muitas vezes simplista, um pensamento único caracterizado pela antiglobalização e por uma rejeição incompreensível da economia de mercado. Onde estão os intelectuais e os meios de comunicação que se encarregarão de promover alguns bons debates de idéias no Brasil?