domingo, outubro 07, 2007

Nós e eles

Reinaldo Azevedo

A falha moral essencial de um esquerdista está no relativismo. Para eles, não existem Bem nem Mal. Os eventos valem por sua utilidade instrumental. Lembro-me de um Roda Viva de que participei com o professor Octávio Ianni (1906-2004), acredito que ali por 2002. Ele era um socialista convicto e autor, acredito, da obra mais equivocada que já se escreveu sobre o país: O Colapso do Populismo, de 1968. Para o autor, a falência dos governos populistas, provada em 1964, demonstrava que o Brasil só tinha dois caminhos: o socialismo ou, para ficar no clichê, a barbárie. É contemporâneo de uma tese bastante conhecida, que afirmava a possibilidade do desenvolvimento do capitalismo nas nações “dependentes”, à época chamada “periféricas”. Sim, falo de FHC em Dependência e Desenvolvimento na América Latina, livro escrito em parceira com Enzo Faletto. Dado que o Brasil não acabou nem fez a revolução socialista, adivinhem quem estava certo... Não por acaso, Ianni virou uma referência teórica das esquerdas. Essa gente não resiste a um erro, desde que vazado em linguagem indignada e hostil ao capitalismo. Mas já me desviei. Queria falar de outra coisa. Mas antes noto: para que se entendam certas divergências contemporâneas, é preciso ir à fonte, à origem. Recomendo os livros de Ianni e FHC-Faletto. Volto lá ao Roda Viva.

Ianni acusava os EUA ferozmente por tudo o que de mal acontecia no mundo — morreu chamando o terrorismo da Al Qaeda de “revolucionário” — e, num dado momento, desandou a defender a China. Muito modestamente (tá bom: digamos que eu era um tanto incisivo quando participava do Roda Viva...), lembrei que o país era uma ditadura feroz.

— Mas o que é uma ditadura?, quis saber Ianni, para meu espanto.

Fiz ali um breve arrazoado do que caracterizava uma ditadura, sempre notando que perguntas como essa lembram o ateu que desafia o crente: “Defina Deus”... E concluí lembrando o massacre da Praça da Paz Celestial. E Ianni não se conteve:

— E o massacre de Tlatelolco?

Ele se referia a uma episódio acontecido no México, em 1968 (dêem uma pesquisada se for o caso). Coube-me responder que eu rejeitava que ele jogasse o massacre de Tlatelolco no meu colo para diminuir o peso moral de sua defesa do regime chinês. Eu lá defendo massacres? Eles defendem. A tese de Ianni era a seguinte: se o massacre na China condenava o comunismo, o do México condenava o capitalismo. Erro, tiro n’água, desculpa para o relativismo moral. O capitalismo não depende da tirania para existir. Ao contrário: sua melhor realização se dá nas sociedades abertas, plurais. Mas não se tem notícia de socialismo sem ditadura, sem partido único, sem o extermínio dos oposicionistas. Nos dias de hoje, como as esquerdas não conseguem impor, em sua pureza, o seu sistema, então tratam de desmoralizar a democracia, de enrijecê-la com mecanismos que chamam de “controle social”.Lembro-me de quando morreu Pinochet. Escrevi aqui que o inferno abria suas portas para ele. “Mas Pinochet não é da sua turma?”, provocavam os petralhas. Não! Fidel e Chávez é que são da turma deles. Mais Stálin, Lênin, o Porco Fedorento... Pretendem dividir comigo um bom par de ditadores nem tanto porque repudiam o suposto abrigo que eu dê aos meus (porque eu não dou), mas porque estão em busca de licença moral para adular os seus.

Posso mandar, e mando, para o diabo que os carregue todos os ditadores de países capitalistas. E sobra como herança do modelo praticamente a totalidade das conquistas da humanidade. E se os esquerdistas abrirem mão dos seus? O que é que lhes sobra?