domingo, março 16, 2008

As Farc já tentaram invadir o solo brasileiro

Jornal do Brasil

A tranqüilidade com que os militares brasileiros têm tratado a hipótese de uma invasão pelas Forças Armadas da Colombia (Farc), o grupo guerrilheiro que há 34 anos se transformou no principal foco de conflito na região amazônica, tem explicação dentro de uma experiência militar pouco difundida: a guerrilha já tentou entrar várias vezes em território nacional, mas sempre acabou rechaçada e empurrada de volta para a Colômbia.

O mais conhecido confronto ocorreu em fevereiro de 1991 nas margens do Rio Traíra, na fronteira entre Brasil e Colômbia, envolvendo um grupo de 40 guerrilheiros contra um guarnição de 17 homens estabelecidos num posto do Exército na Serra de Traíra (AM). Apanhados de surpresa, três soldados brasileiros foram mortos e nove saíram feridos. Tudo o que havia no posto foi levado.

Num artigo publicado na página do Ministério da Defesa, na internet, o coronel da reserva Álvaro de Souza Pinheiro - o mesmo que comandava um grupo de pára-quedistas na Guerrilha do Araguaia e acabou sendo ferido no conflito em maio de 1972 - afirma que a ação das FARCs "foi uma ação inesperada, covarde, traiçoeira e inusitada" e sugere que a guerrilha colombiana se constituiria numa ameaça permanente ao Brasil. A ação provocaria uma reação em conjunto entre as Forças Armadas brasileiras e colombianas para rechaçar o ataque meses depois. Teriam sido recuperados uma estação de rádio, munição e armamento levados na ocasião pelos guerrilheiros.

Polichinelo
Tratados com discrição pelo governo, fustigamentos e confrontos isolados se tornaram um segredo de polichinelo na fronteira com a Colômbia e uma realidade concreta com a qual o Exército tem lidado de forma preventiva. Na faixa de fronteira próxima à área de domínio das Farc, como São Grabriel da Cachoeira ou Tabatinga, no Amazonas, 70% dos pelotões de selva são formados por índios e o restante por caboclos da região que têm intimidade com a floresta, proximidade com a população e, portanto, estão atentos a toda a movimentação estranha à região. Em outubro do ano passado, ao participar da formatura de uma nova turma em São Gabriel da Cachoeira, o ministro Nelson Jobim foi saudado por caciques de diferentes etnias, em sete línguas indígenas, todos eles parentes dos soldados que estavam ingressando nos batalhões de selva. (V.Q)