Guilherme Fiuza, Revista Época
Delfim Netto declarou que Lula salvou o capitalismo brasileiro. Não é uma declaração surpreendente. Surpreendente é que Delfim continue sendo ouvido e publicado como um oráculo.
Delfim Netto declarou que Lula salvou o capitalismo brasileiro. Não é uma declaração surpreendente. Surpreendente é que Delfim continue sendo ouvido e publicado como um oráculo.
Delfim Netto é ideológico. Sempre foi. Um propagandista de crenças. Entre elas, a de que a moeda nacional deve valer pouco frente ao dólar. Música para os ouvidos dos empresários de vida fácil, cupinchas do Delfim.
Quando comandou a economia no período militar, Delfim usou e abusou de seu expediente preferido: contra o galope da inflação, a maxidesvalorização da moeda. (Infelizmente não existe o ponto de ironia. Ao leitor vigilante: isto é uma ironia). Era um tempo em que as contas nacionais eram caóticas, ninguém levava o Brasil a sério e política econômica era cortar alguns zeros do dinheiro de vez em quando.
Hoje Delfim Netto tem a cara de pau de dizer que Fernando Henrique levou o país à falência. O mesmo Fernando Henrique que tirou as contas públicas da clandestinidade, que devolveu crédito ao Brasil na praça e ressuscitou a moeda nacional – ou seja, salvou os brasileiros das lambanças do Delfim.
A cara de pau do Delfim não é intrigante. Intrigante é que o ex-ministro da desvalorização, hoje conselheiro de Lula, continue sendo consultado como economista. Aviso às redações: Delfim Netto é um político (aliás um político casuísta). Assim deve ser apresentado.
A esquerda, eterna refém dos estereótipos, festeja Delfim como um homem que serviu à direita e hoje abraça os ideais de Lula, falando inclusive em “igualdade de oportunidades”. Seria cômico se não fosse trágico.
Delfim Netto é um dos pais da bagunça monetária e cambial brasileira, hoje felizmente superada, depois de décadas produzindo desigualdade social. E quem superou a bagunça não foi a “mão de Deus”, citada por ele em entrevista à revista “Poder”.
Ao apontar Lula como salvador do capitalismo e Fernando Henrique como coveiro das contas nacionais, Delfim Netto está sendo o que sempre foi: politicamente provocativo e intelectualmente desonesto