quinta-feira, julho 17, 2008

Governistas tentam evitar que banqueiro deponha na CPI

Karla CorreiaLuciana Abade, Jornal do Brasil

Em sessão com raro nível de comparecimento de parlamentares, o governo movimentou sua base na Câmara e conseguiu barrar as convocações de Naji Nahas, Luiz Eduardo Greenhalgh e Luiz Gushiken na CPI dos Grampos. Com isso, bloqueou a investida da oposição que pretende aproveitar a crise gerada pelos desdobramentos da Operação Satiagraha, da Polícia Federal, para ampliar o foco das investigações da comissão parlamentar e aproximar as investigações do Palácio do Planalto. A articulação do governo também adiou para hoje a votação do requerimento de convocação do banqueiro Daniel Dantas que, mesmo se aprovada, só deve acontecer depois do recesso parlamentar.

A estratégia da bancada governista é esperar o esfriamento da crise e ganhar tempo de articulação no Congresso – onde é notória a extensão dos contatos políticos de Daniel Dantas – antes da eventual oitiva do empresário. Normalmente esvaziado, o plenário da CPI estava lotado para o embate entre a ala menos interessada em convocar Dantas e os autores dos requerimentos com mira direta no Planalto. Diante da investida da oposição, a bancada governista partiu para a intimidação e pediu as convocações de Pio Borges, Pérsio Arida e Luiz Carlos Mendonça de Barros, personagens de destaque na privatização do Sistema Telebrás, ainda no governo de Fernando Henrique Cardoso, e fechou o cerco contra a convocação de Dantas.

– Seria um absurdo sair do foco das investigações da CPI, que trata de separar as escutas legais das ilegais – argumentou a deputada Iriny Lopes (PT-ES). – Vamos deixar as disputas de ordem político-partidária e nos ater ao tema da comissão.

– Essa CPI tem como objetivo apurar escutas telefônicas no país e não podemos nos afastar do objeto dessa comissão, mas as se outros fatos vierem a surgir, devem ser encaminhados às autoridades competentes – redargüiu o presidente da comissão, Marcelo Itagiba (PMDB-RJ).

Defesa de Greenhalgh
Coube ao relator da CPI, deputado Nelson Pellegrino (PT-BA) a articulação do acordo que blindou o advogado de Dantas e ex-deputado pelo PT de São Paulo Luiz Eduardo Greenhalgh, cujos contatos com o chefe de gabinete da Presidência da República, Gilberto Carvalho, levaram o caso Dantas para dentro do Palácio do Planalto. As conversas entre Greenhalgh e Carvalho, suspeito de tráfico de influência, foram tema de reunião da Coordenação Política na segunda-feira.

– O problema é que se fosse encarar a resistência do governo e insistir na votação dos 17 requerimentos apresentados, nenhum seria aprovado – explicou Fruet. –O pedido de oitiva para Daniel Dantas foi mantido porque ninguém, a esta altura dos acontecimentos, se atreveria a votar contra esse requerimento específico. Seria como assinar uma ficha de inscrição na "Bancada de Dantas".

A CPI do Grampo deve votar hoje as convocações de Daniel Dantas e dos delegados Protógenes Queiróz – afastado ontem da Operação Satiagraha – e Romero Menezes, coordenador da Operação Chacal, além dos juízes Fausto de Sanctis e Flávia de Toledo.

Objetivo também era proteger ex-deputado suspeito de lobby
A bancada governista conseguiu evitar a votação dos requerimentos da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Câmara que convocam o ex-ministro Luiz Gushiken e o ex-deputado federal Luiz Eduardo Greenhalgh (PT-SP), mas não conseguiu dar uma explicação pertinente para a blindagem.

O relator da CPI, deputado Nelson Pelegrino (PT-BA), negou que o acordo que propôs seja uma manobra para evitar que a crise chegue rápido ao Planalto. E parecia perdido ao argumentar que a oitiva de Greenhalgh fugia do foco da comissão. O ex-deputado foi alvo de escutas telefônicas, mas a premissa de que a CPI também investiga grampos legais parecia não valer no caso do ex-deputado:

– Greenhalgh foi vítima de escuta telefônica legal, como várias outras pessoas, por isso não será ouvido – argumentou o relator.

O deputado Antônio Carlos Biscaia (PT-PT), que era suplente na comissão, foi convocado para reforçar a tropa de choque do governo na CPI.

Para o governista, os requerimentos de convocação são uma tentativa clara de transformar a CPI em palanque político-eleitoral. Biscaia ressaltou, ainda, que quando os objetivos de uma CPI são desvirtuados, ela não chega a lugar algum. E questionou a convocação do juiz Fausto De Sanctis:

– Por que Sanctis está sendo convocado? indagou. – Por que ele estava cumprindo a sua função? Se o objetivo não é seguir o foco, que investigue a todos – disse.