quarta-feira, fevereiro 04, 2009

Filosofia na escola

Marcos Nobre, Folha de São Paulo

Pode ser que a obrigatoriedade da filosofia no ensino médio tenha sido aprovada por força do lobby religioso, como meio de difusão de uma crença. É possível também que a lei tenha sido aprovada pela importância que têm profissionais de filosofia no debate público, como se devesse caber à filosofia trazer para a sala de aula o debate dos temas do momento.

São maneiras seguras de tornar deletério o ensino de filosofia. Não há nenhum sentido positivo em fazer da filosofia aula de religião, "educação moral e cívica" ou conversa sobre o noticiário do dia. O que também não quer dizer que vá adiantar de alguma coisa entupir a cabeça dos alunos com a história do pensamento filosófico, da Grécia Antiga aos dias atuais.Vai produzir, quando muito, bocejos ostensivos.

Pode ser que, em boas escolas, seja frutífero introduzir uma matéria árdua como a lógica, por exemplo, uma disciplina que aguça o raciocínio e a argumentação. Mas, mesmo assim, o mais importante será provavelmente o reflexo do ensino de lógica sobre o domínio da escrita e sobre o aprendizado de línguas e da matemática.

E um dos possíveis caminhos para introduzir a filosofia de maneira fecunda no ensino médio é justamente o de fazer com que se torne aliada de outras disciplinas do currículo escolar. Há uma infinidade de alianças interessantes possíveis com biologia, história, língua e literatura, física e química, matemática.

A filosofia poderia tornar-se um momento de reflexão sobre o próprio aprendizado dessas matérias, um exercício crítico sobre o que se costuma ensinar como óbvio e natural. Os diálogos entre professores responsáveis por essas disciplinas seriam certamente proveitosos para todos os envolvidos.

A dificuldade para fazer isso acontecer não está apenas nas condições precárias de trabalho em grande parte da rede pública e privada. Está também na ausência de profissionais formados segundo esses parâmetros. Para não falar na total ausência de material didático produzido com esse espírito.

O período de adaptação até a implantação definitiva está correndo. E as iniciativas continuam tímidas e isoladas. Faltam projetos federais e estaduais realmente inovadores, que proponham cronogramas realistas para formar uma nova geração de professores e que inventem novas maneiras de ensinar filosofia. Como está, a obrigatoriedade será, na melhor das hipóteses, inócua.