Augusto Nunes, Veja online
Em outra madrugada obscena, os deputados federais recolocaram em movimento o trem da alegria que pretende despejar nas Câmaras Municipais, ainda nesta legislatura, os mais de 7 mil cabos eleitorais a bordo. Há meses, por determinação do Judiciário, locomotiva e vagões foram afastados dos trilhos. Decididos a promover a titulares os amigos suplentes, e garantir-lhes o salário com o dinheiro dos brasileiros que pagam impostos, os pais-da-pátria providenciaram remendos malandros e a viagem recomeçou.
A chegada do trem ao destino antes de 2012 é tão improvável quanto uma candidatura de Frei Betto ao trono do papa. Se a multidão fosse pendurada de imediato no cabideiro de empregos, o engarrafamento de absurdos jurídicos e confusões legais pareceria medonho até para os padrões do Congresso. Os cálculos de proporcionalidade para a distribuição das vagas, por exemplo, teriam de ser refeitos. O que fazer com os vereadores que, pelas novas contas, não alcançaram a votação necessária para permanecer no cargo?
Se tiverem o mandato cassado, continuarão em vigor os projetos que apresentaram e as medidas que ajudaram a aprovar? Deverão devolver os salários embolsados desde o ano passado? Se mereciam estar na Câmara já no começo de 2009, os suplentes que estão chegando receberão as mensalidades atrasadas ou o prazo de validade da gazua só terá início no dia da posse? O trem vai parar no meio do caminho. Caso se arraste até as cercanias da estação, os trilhos serão de novo removidos pelo Supremo Tribunal Federal.
Não é menos criminoso quem deixa de consumar o crime planejado por ter sido impedido de fazê-lo. O imenso prontuário do Legislativo acaba de incorporar mais uma delinquência. Neste inverno, enquanto o Senado foi mais estreitamente vigiado, a Câmara intensificou o ritmo das agressões ao bom senso e à lei. Continuou agindo com desembaraço e volúpia depois que o sumiço do camburão liberou o Senado para voltar à ativa.
No momento, o Brasil que presta enfrenta o Congresso inteiro. Fora o resto. Não é pouca coisa.