Adelson Elias Vasconcellos
Criado em 1998, o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) tem o objetivo de avaliar o desempenho do estudante ao fim da escolaridade básica. Podem participar do exame alunos que estão concluindo ou que já concluíram o ensino médio em anos anteriores.
O Enem é utilizado como critério de seleção para os estudantes que pretendem concorrer a uma bolsa no Programa Universidade para Todos (ProUni). Além disso, cerca de 500 universidades já usam o resultado do exame como critério de seleção para o ingresso no ensino superior, seja complementando ou substituindo o vestibular.
Quando de sua criação, os petistas em peso o condenaram. Um dos ilustres representantes da categoria, que à época liderava o movimento estudantil, Lindenberg Farias, foi para as ruas pedindo que os estudantes se negassem a prestar o exame, que outra coisa não era senão um exame de avaliação da qualidade do ensino brasileiro.
Agora, já no poder, os petistas querem transformar o exame que eles, na oposição tanto combateram em “política de Estado".
A bem da verdade, o ENEM, que se tentar impor como “substituto do vestibular” como instrumento de ingresso no ensino superior, não deixa de ser o próprio vestibular mascarado.
Contudo, a forma como se está procedendo contraria a lógica de um instrumento de avaliação. Primeiro, por não ser obrigatório. Segundo, porque o critério está sendo o de avaliar os alunos e não o ensino e sua qualidade propriamente.
Para que cumprisse sua finalidade o ENEM deveria, portanto, ser obrigatório, para que, no universo total dos alunos matriculados no ensino médio, se pudesse avaliar a qualidade final de sua formação. Depois, deveria ter provas individualizadas por matéria, e não tudo amontoado em duas provas apenas. E, por ser obrigatório, sua inscrição deveria simplesmente ser dispensada e sem custos para os alunos. Da forma como está sendo conduzido pelo MEC, está rapidamente transformando-se num provão igual ao que o vestibular sempre foi,porém, feito ao atropelo, sem critério avaliativo nenhum. E, a tal ponto isto é verdadeiro que, os próprios cursinhos pré-vestibulares estão criando cursinhos pré-enem.
E, a mais sintomática prova de que este tipo de exame perdeu seu foco principal, é a confusão implementada pela pressa, pela falta de organização, pela falta de finalidade e até pela clamorosa falha que agora atinge mais de 4,0 milhões de estudantes, além de centenas de ensino de todos os níveis, sejam públicas ou privadas.
Portanto, por mais que o MEC e seu ministro e assessores tentem “enganar” a torcida, faltou seriedade na condução do evento. Faltou tratar a prova com a competência que ela merecia. Porque, no fundo, se o ENEM é avaliativo da qualidade do ensino, quanto maior o universo de alunos “examinados” melhor a perspectiva de se avaliar adequadamente a qualidade do ensino que a eles está sendo ministrado. Estamos invertendo a ótica da função primordial do ENEM: ele deveria era avaliar o sistema de ensino como um todo, e não apenas os alunos e, ainda assim, de forma “opcional”.
É lamentável que a boa idéia que este instrumento de avaliação esteja sendo transformado numa vigarice sem critérios algum. E o que é pior: esteja sendo usado como instrumento político e não como instrumento de formação de cidadania. Este nunca será o melhor caminho para a correção do rumo do sistema educacional brasileiro.