domingo, agosto 08, 2010

Ao fim e ao cabo...

O título acima é de um artigo do Percival Pugigina, transcrito de seu blog. O artigo todo é excelente e vale sua leitura e reflexão. Mas quero destacar, sobretudo, este trecho: “...Reconheça-se que a mídia eletrônica - rádio e tv -, por força de lei, não pode expressar opinião política mais contundente durante as campanhas eleitorais. Mas é escandalosa a omissão da mídia impressa. Nossos jornais, em vez de opinar sobre o que viram e sobre o que veem, ao término de um debate como o da Band, limitam-se a registrar o que cada lado disse de si mesmo e do opositor. Isso lá é opinião? Isso é suficientemente analítico? Serve à verdade? Serve ao país? Ao fim e ao cabo, diante do que vejo, acabarei concordando com a presunção do Lula. E com os fundamentos de sua opinião sobre o eleitorado nacional...”.

Inicialmente, a pergunta que faço: por que a mídia eletrônica está impedida de se manifestar e emitir opinião política durante as campanhas eleitorais? Acaso ela terá menos direitos constitucionais que os demais cidadãos deste país? O direito à livre manifestação do pensamento – e isto inclui emitir opinião, sim senhores – não é uma garantia constitucional? E por que justamente a MIDIA ELETRÔNICA, hoje uma conquista de toda a sociedade humana, a representar nosso progresso tecnológico ? Do que têm tanto medo seja lá a Justiça Eleitoral – uma excrescência de exclusividade brasileira – ou a classe política? Acaso os que se manifestam pela mídia eletrônica seriam menos cidadãos do que os que se manifestam via mídia impressa? Pelo engessamento de tantas – e burras – regras é que não se pode considerar o Brasil como vivendo uma democracia plena. Porque é justamente no período eleitoral que o livre trânsito de ideias e opiniões serve para esclarecer e informar melhor os eleitores, no sentido de lhes permitir fazer escolhas melhores. Sintoma da sandice eleitoral que nos cerca é o fato de que, ao invés de colaborarem tais regras para tornar melhor e mais ético o ambiente político do país, tem servido ao longo dos anos para torná-lo cada vez mais degenerado.

Não é o impedimento do livre trânsito das opiniões, parta de quem quer seja, que tornará mais limpo o processo eleitoral. Até pelo contrário. Acaba sempre vingando o uso abusivo da máquina do estado, abuso do poder político – no caso dos partidos do governo de plantão - ou o abuso do poder econômico.

Liberem-se as opiniões sem freios e, certamente, em nada elas influenciarão de forma negativa o processo eleitoral que, aliás, deveria ser uma festa da democracia e que, no caso brasileiro, tão cheio de regrinhas ridículas que acabam por espantar mais do que atraindo os eleitores. E se o voto, que, antes, é um direito, mais do que um dever, e que por isso cabe a cada um decidir pelo seu exercício ou não, fosse livre, facultativo, acreditem, teríamos a percepção exata do que a sociedade pensa de seus políticos. Mas quem disse que no Brasil o cidadão é livre para pensar, opinar ou exercitar seus direitos?

A seguir, a transcrição do artigo do Percival Puggina (*).

Não é de meu hábito travar por falta de palavras. Mas quando tento identificar o que tenha feito Lula ungir Dilma Rousseff como sua sucessora, entro em dispnéia vocabular. Fico que nem ela perante o mais trivial dos conceitos. Não sei o que levou o presidente a tal desatino. Se lhe foi dado escolher, por que escolheu assim?

Convenhamos, a candidata do presidente não consegue (ou não está conseguindo) articular uma frase inteligível sequer. Suas apresentações são incompatíveis com a imagem de mãe do PAC, dama de ferro do governo, gestora que permitiu a Lula ser o que sempre desejou ser desde seu primeiro orgasmo populista com um megafone nos idos de São Bernardo dos Campos. Quando, no debate da Band, ela teve que enfrentar uma questão sobre a falência da infraestrutura nacional depois de oito anos de governo Lula, a mãe do PAC esteve muito mais para madrasta. Dessas de histórias infantis. A verdadeira mãe do PAC, se existir, deve andar por aí, chorando em silêncio. Interrogada sobre a situação das Apaes, a candidata de Lula foi incapaz de acolherar três palavras que se relacionassem com o tema, demonstrando total desconhecimento a respeito dessas meritórias instituições.

O processo sucessório em curso não visa a escolher a reitora de um convento de monjas cartuxas, onde não se deve falar. Nem de um Clube de Xadrez, onde mero "Bah!" arranca eloquentes sinais de reprovação. Ninguém melhor do que Lula sabe a importância da comunicação para o exercício do poder político numa sociedade de massa. No entanto, escolheu para sucedê-lo uma candidata que se dá melhor quando não fala e tem seus melhores momentos totalmente muda, sob os respingos da popularidade do chefe. Vem, então, a pergunta: teria ela sido escolhida por Lula numa atitude do tipo "tudo posso" e, portanto, "posso até fazer uma coisa dessas"? Se os delírios messiânicos o levaram a tanto, a conta lhe haverá de cair na caixa de correspondência. Esteja ele onde estiver.

Dilma somente demonstrou segurança quando afirmou que "nós criamos 14 milhões de empregos". E errou. Errou sob silêncio dos demais candidatos, que não lhe perguntaram: criaram como? Criaram com quê? Governos somente criam empregos no serviço público (vitalícios) e em obras e serviços (temporários) que lhe são prestados. E basta! No mais, quem gera postos de trabalho é a iniciativa privada.

"Mas o governo não cria condições para a atividade privada?", indagará meu leitor petista ou lulista. Respondo: nesse particular, o que existem são sistemas que favorecem a atividade empresarial, porque favorecem a estabilidade da moeda, proporcionam segurança jurídica e respeitam o direito de propriedade, o livre mercado, os contratos e assim por diante. E não me parece que estejamos mais do que engatinhando nessa direção, entre mamadas nas tetas do governo, papinha socialista servida desde as creches até o topo do mundo acadêmico, e longas sestas tiradas em berço esplêndido. Como Lula nada fez para corrigir essas realidades (ao contrário, ampliou as tetas, as papinhas e as sestas), tudo que hoje se colhe foi plantado antes dele. E contra sua esforçada militância, como se sabe.

Reconheça-se que a mídia eletrônica - rádio e tv -, por força de lei, não pode expressar opinião política mais contundente durante as campanhas eleitorais. Mas é escandalosa a omissão da mídia impressa. Nossos jornais, em vez de opinar sobre o que viram e sobre o que veem, ao término de um debate como o da Band, limitam-se a registrar o que cada lado disse de si mesmo e do opositor. Isso lá é opinião? Isso é suficientemente analítico? Serve à verdade? Serve ao país? Ao fim e ao cabo, diante do que vejo, acabarei concordando com a presunção do Lula. E com os fundamentos de sua opinião sobre o eleitorado nacional.

* Percival Puggina (65) é arquiteto, empresário, escritor, titular do site www.puggina.org, articulista de Zero Hora e de dezena de jornais e sites no país, autor de Crônicas contra o totalitarismo e de Cuba, a tragédia da utopia.