Bolívar Lamounier, Portal Exame
Lula ainda não saiu e Dilma ainda não entrou . Deve ser por isso que o governo está parecendo uma terra de ninguém : uma sucessão de equívocos e disparates .
Do famigerado “controle social da mídia” eu já falei diversas vezes. E é certo que Lula e Dilma têm feito referências à liberdade de expressão e da imprensa como pilares da democracia. Infelizmente, talvez por seu caráter genérico, tais referências não foram suficientes para tirar definitivamente do foco as ameaças do Sr. Franklin Martins e do PT ao que chamam de “grande mídia”.
Na política externa, o governo Lula já havia batido um recorde - o do ridículo. No começo do ano, como se recorda, o presidente enfiou na cabeça que ninguém melhor que ele reunia condições para mediar o conflito palestino-israelense.
Imbuído desse esdrúxulo propósito, Lula, seu chanceler e uma ilustre comitiva de assessores tomaram aqui o Aerolula e desembarcaram no Oriente Médio. Essa foi com certeza a ação externa mais ridícula do governo brasileiro em nossos quase 200 anos como nação independente.
Não satisfeito com o recorde do ridículo, o governo empenhou-se dias atrás em conquistar outro. Só não sei como nomear essa recente performance ; termos como equívoco ou disparate soam-me insuficientes e até cúmplices . Refiro-me evidentemente ao voto pela abstenção na moção da OU condenando o Irã por suas múltiplas violações dos direitos humanos e, em particular, pelo emprego da pena de apedrejamento.
Nos albores da campanha eleitoral, Lula arvorou-se em salvador da iraniana Sakineh. Condenada à morte por suposto adultério, Sakineh permanece presa, aguardando a execução por apedrejamento. Durante um comício no Paraná, Lula ofereceu-lhe asilo, caso o governo do Irã concordasse em libertá-la.
Se não fosse a megalomania, seria uma jogada de mestre. Com uma só cajadada, Lula aliviaria um pouco a barra do apoio brasileiro ao presidente Ahlmedinejad e faturaria alto em votos para Dilma Rousseff. Mas não deu, paciência.
Mas daí a abster-se na moção da ONU, fazendo coro com Venezuela, Líbia, Sudão e quejandos, é dose pra leão. É um novo recorde para a nossa política externa . Merece ser reconhecido como a ação mais abjeta que teremos perpetrado desde D. Pedro I.
Passo a um assunto mais leve : o trem-bala. Como é óbvio, Lula quer deixar sua marca. Quer dizer que nunca antes “nesse” país presidente algum implantou um trem-bala. Daí o ritmo frenético com que certas providências iniciais vêm sendo tomadas. Uma MP de duvidosa legalidade abriu um crédito preliminar de 5 bilhões de reais. A licitação está marcada para o próximo dia 29.
Qual é a prioridade dessa obra ? Quanto vai custar ? Detalhes dessa ordem não parecem interessar o presidente. Estudos efetuados por consultores técnicos põem em dúvida a viabilidade desse caríssimo empreendimento. Mostram que o valor orçado, na casa dos 30 bilhões, pressupõe uma taxa de ocupação totalmente fora da realidade e uma tarifa assaz elevada.
Outro dia, na CBN, eu ouvi o deputado Cândido Vacarezza, um petista de escol, dissertando sobre o tema. Questionado sobre o custo, ele não vacilou : precisamos pensar grande, essa é uma ótica mesquinha, coisa de país com complexo de vira-lata. As palavras podem não ter sido exatamente essas, mas o sentido foi. Ou seja, se houver déficit, e é claro que vai haver, a viúva paga.
Considerando, ademais, que o país se comprometeu com muitas outras obras para a Copa do Mundo e a Olimpíada, faz sentido tocar agora esse projeto ?
Para concluir, Dilma Rousseff e a montagem do ministério. Não vou aborrecer o leitor com as escaramuças do PT com o PMDB (ou do PMDB com o PT, como se prefira).
O ponto-chave já está definido. Mantega fica na Fazenda. Sua incumbência é conduzir o que se soe chamar de política “desenvolvimentista”. Pau na máquina. Meirelles sai. Dilma está procurando um novo diretor para o Banco Central.
Um dia desses um bom jornalista vai nos dizer se Meirelles quis dar a impressão de estar impondo condições porque não queria mesmo ficar, ou porque sabia que não ia ficar, ou se foi Dilma, agastada com as declarações dele, quem decidiu descartá-lo de vez.
O que de fato importa é o significado da saída de Meirelles. Significa que Dilma vai colocar no BC alguém que derrube os juros, de um jeito ou de outro.
Derrubar os juros com a inflação subindo ? Não deveria ser o contrário ? Não para Dilma. Ótimo, quer dizer então que ela vai aposentar a política monetária e trazer a política fiscal para o primeiro plano, como a principal ferramenta no controle da inflação ?
Mas política fiscal o que é, exatamente ? A presidente eleita vai ajustar para baixo as despesas, interditando a gastança com pessoal e cortando tudo o que puder ser cortado ? Vai reformar a previdência ? Ou vai ajustar para cima a receita, com novos impostos e/ou aumentando a fúria arrecadatória ?
Estes pontos permanecem na mais completa obscuridade. Que não tenham sido abordados na campanha, é triste, mas até se compreende. O que precisamos saber é se a presidente já tem pronto o seu plano de voo – e quanto de risco ele traz embutido.