domingo, janeiro 08, 2012

Fabricante de prótese admite fraude com silicone que ele mesmo produziu

Folha de São Paulo, e das Agências De Notícias

O fundador da fábrica francesa que produziu os implantes mamários PIP, Jean-Claude Mas, assumiu diante dos investigadores que produziu um gel de silicone não aprovado, derivado de uma fórmula própria, e que enganou o órgão certificador.

Segundo ele, suas próteses, que podem romper e são suspeitas de provocar câncer, não representam "nenhum risco para a saúde".

A empresa está no centro de um escândalo mundial, que envolve milhares de mulheres em diversos países, incluindo o Brasil, pela fabricação de implantes mamários defeituosos.

Eric Estrade/France Presse
O fundador da fábrica de prótese mamária, Jean-Claude Mas; 
silicone adulterado continha aditivo de combustível

O escândalo intensificou-se nas últimas semanas quando foi divulgado que as próteses continham um aditivo para combustíveis.

"Sabia que esse gel não tinha sido aprovado, mas o usei mesmo assim porque ele era mais barato (...) e de uma qualidade muito melhor", disse Mas em outubro aos oficiais que investigam o caso, segundo a transcrição do interrogatório efetuado durante sua prisão, ao qual a agência de notícias AFP teve acesso.

Jean-Claude Mas disse que a partir de 1993, ou seja, dois anos depois da criação da empresa PIP, orientou a empresa a "esconder a verdade" do órgão certificador alemão TÜV, anos antes da saída ao mercado dos implantes agora condenados.

"Era uma rotina. Eu dava a ordem de esconder todos os documentos relativos ao gel PIP não aprovado, e quanto as embalagens, os funcionários se encarregavam de fazê-las desaparecer", explicou em seu interrogatório. Ele disse que era "fácil" enganar os órgãos fiscalizadores.

Segundo o fundador da PIP, as mulheres denunciantes são "pessoas frágeis ou pessoas que fazem isso apenas por dinheiro". Ele disse à policia que não tinha "nada a dizer" às vítimas das próteses rompidas.

Jean-Claude Mas, 72, é alvo na França de duas investigações judiciais por "estelionato" e "homicídio culposo". Interrogado em duas ocasiões, não foi considerado culpado.

Ontem, Mas divulgou um comunicado dizendo que o escândalo reunia "um número impressionante de mentiras".

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Anvisa não respondeu a reclamações, diz mulher que recebeu prótese

Quando soube que sua prótese da PIP havia se rompido, a artista plástica Denise Berretta, 56, ligou para a EMI, importadora dos implantes no Brasil.

"A atendente disse que só poderia me oferecer uma nova prótese da PIP."

Com a Anvisa, "foi outra decepção". Ela fez a primeira reclamação sobre seu problema com a prótese na ouvidoria da Anvisa em 22 de julho de 2010. Recebeu apenas um link do anúncio da Vigilância Sanitária sobre a suspensão da venda das próteses.

"Fiz outra ocorrência no dia 23 de dezembro de 2011. Não me procuraram."

A esteticista Jany Ferraz, 54, viveu situação parecida. No dia 11 de abril de 2010, escreveu para o e-mail que a Anvisa disponibilizou no comunicado número 1.015 para relato de problemas com as próteses e reclamou que seu implante PIP havia se rompido. "Só mandaram o número do protocolo."

Ambas entraram na Justiça contra a EMI, importadora das próteses. Segundo Dirceu Freitas Filho, advogado que representa a EMI, dez mulheres processaram a empresa, seis por causa de rompimento do implante de silicone.

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Anvisa recebeu 94 queixas sobre silicone desde 2010
Johanna Nublat

Desde que foi proibida a comercialização no país das próteses de silicone francesas PIP, em abril de 2010, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) registrou 94 consultas ou queixas relacionadas a próteses mamárias em geral, disse ontem o diretor-adjunto da agência, Luiz Roberto Klassmann.

Ele afirma que as situações de rompimento relatadas não chegam a dez. "Em algumas, a pessoa identificou como PIP, mas são pouquíssimas."

A Anvisa havia informado em dezembro não ter registros de problemas específicos com a marca. Klassmann afirma que só houve informação clara sobre rompimentos na marca PIP após a retomada do assunto, no final de 2011.

Uma mulher ouvida pela reportagem, no entanto, afirma ter feito uma reclamação específica sobre o implante francês em julho de 2010.

FRANÇA
A agência teve ontem mais uma conversa com sua correspondente francesa, a Afssapas, que informou não haver consenso entre países europeus sobre a necessidade da retirada do silicone de forma ampla -o que foi orientado pela França, mas não pelo Reino Unido.

A França alerta que os cinco tipos de óleo identificados nas próteses --material diferente do registrado para uso em saúde-- podem provocar irritação se vazados. Descarta, no entanto, associação com a maior incidência de câncer ou toxicidade.

A recomendação do governo brasileiro é para que as pacientes procurem seus médicos e que as decisões sejam tomadas caso a caso.

A Anvisa já sabe para quais serviços foram vendidas as próteses francesas. Klassmann afirmou que o material foi usado para fins estéticos e para reconstrução da mama, também em centros de referência contra o câncer. O Instituto Nacional de Câncer, procurado pela Folha, informou não ter adquirido próteses dessa marca.

Falta agora, disse Klassmann, decidir se as vigilâncias sanitárias e serviços de saúde locais vão, de forma ativa, ligar para todas as pacientes que usam a prótese. A questão é medir se o risco para as pacientes justifica tal ação, o que vai ser discutido com entidades médicas na próxima semana.

Está em andamento um inquérito administrativo sanitário que pode apontar responsabilidade no caso. Quando concluído, segue para o Ministério Público Federal.

A EMI, distribuidora e responsável pela circulação do material no Brasil, deve ser recebida hoje pela Anvisa.
Dirceu Freitas Filho, advogado que representa a EMI em ações judiciais, disse à Folha que a empresa vai defender junto à Anvisa que não há prova de que o produto apresentou problemas, para evitar o descarte do material ainda armazenado.

Freitas Filho diz que a empresa vendeu a prótese no país respaldada em pareceres internacionais e seguindo a legislação nacional, que, diz ele, permite o uso do silicone não medicinal, afirmação negada pela Anvisa.

"Não houve caso de problema efetivo com o produto. Você teve uma venda de 12 mil [pares]e só dez [mulheres] entraram com ação. Só ficou provado que houve rompimento, o que pode ocorrer [com outras marcas]."