quinta-feira, julho 12, 2012

Teixeira e Havelange receberam R$ 45 milhões em subornos da ISL


Rodrigo Mattos
Folha de São Paulo

O ex-presidente da CBF, Ricardo Teixeira, 65, e o presidente de honra da Fifa, João Havelange, 96, receberam 21,9 milhões de francos suíços (R$ 45,5 milhões) em subornos da empresa de marketing esportivo ISL. Isso está confirmado no dossiê do caso ISL liberado nesta quarta pela Justiça suíça. 

A ISL foi durante a década de 1990 e o início da última década a principal parceira comercial da Fifa. Quando foi à falência, um processo judicial na Suíça demonstrou que houve pagamentos de mais 160 milhões de francos suíços para dirigentes em troca de benefícios nas negociações comerciais, envolvendo direitos de televisão e marketing.

Apesar das acusações de envolvimento dos cartolas brasileiras --feitas pela emissora britânica BBC e pelo jornal suíço "Handelszeitung"--, o processo judicial sempre vinha sendo mantido em sigilo até hoje, quando foi liberado para jornalistas que tinham entrado com ação pedindo a transparência integral dele. A Folha teve acesso ao dossiê por meio de um dos jornais que o obtiveram hoje.

Na ação, está descrito que Teixeira ganhou 12,74 milhões de francos suíços por meio da empresa Sanud, cuja ligação com o cartola já tinha sido estabelecida por meio da CPI do Futebol, no Senado. A Renford Investments Ltd foi outra empresa, cuja propriedade é de Havelange e de Teixeira, que recebeu 5,1 milhões de francos suíços. Não se sabe qual a divisão do dinheiro entre os dois neste caso.

Reprodução

Primeira página do processo (em alemão) que 
aponta os nomes de Havelange e Teixeira

Havelange ainda recebeu outro pagamento de 1,5 milhão de francos suíços. Essa transferência irregular ao cartola era conhecida pelo presidente da Fifa, Joseph Blatter, segundo o dossiê ISL. Todas essas transferências foram feitas por uma das subsidiárias da ISL de 1990 até 1998.

Mas, a partir de 1999, outra empresa do grupo ISL também passou a fazer pagamentos para a Redford. Foram pagos mais 2,465 milhões em francos suíços para a Redford, de propriedade de Teixeira e Havelange.

Por meio de sua secretária, o advogado de Ricardo Teixeira, José Mauro do Couto, informou que não falaria sobre o caso. O cartola atualmente mora em Miami, mas ainda tem cargo de assessor na CBF.

Já o advogado suíço de Havelange, Marco Niedermann, não estava em seu escritório em Zurique. Segundo funcionário do escritório, ele só voltará a Zurique na próxima semana quando decidirá se irá comentar a decisão. Era ele, juntamente com o advogado suíço de Teixeira, quem tentava barrar a publicação dos documentos.

Em 2010, durante a Copa, Teixeira e Havelange fizeram um acordo com a justiça suíça. Nele, pagaram uma quantia não revelada para em troca não tivessem o nome revelado publicamente.

Patrícia Santos - 6.fev.1996/Folhapress
João Havelange, então presidente da Fifa, ao lado de Ricardo Teixeira, 
então presidente da CBF, e Joseph Blatter, secretário-geral da entidade, no Rio

QUEM SÃO
Teixeira assumiu a CBF em 1989 e deixou a entidade em março deste ano. Na mesma época saiu do COL (Comitê Organizador Local da Copa do Mundo-2014) e do comitê executivo da Fifa. Alegou problemas pessoais e de saúde. Ainda em março, a reportagem da Folha tentou procurar Teixeira em sua casa em Miami, mas não foi recebido.

Havelange foi presidente da Fifa por 24 anos --o último, antes de Blatter. Ele ainda é presidente de honra da entidade. Em dezembro do ano passado, pediu desligamento do COI (Comitê Olímpico Internacional) por motivos de saúde. A saída foi entendida como uma medida para evitar uma possível expulsão devido o caso ISL.