Adelson Elias Vasconcellos
Confesso que sinto certa vergonha pelo papelão que o ministro Ricardo Lewandowski vem desempenhando. Não que ele me surpreenda, e já afirmei antes que tenho certa reserva em relação ao pensamento do ministro desde que este ocupou a presidência do Tribunal Superior Eleitoral. Não pode, contudo, ser aceitável que um juiz se comporte com tamanha vibração e euforia em defesa da inocência de um réu a quem o ministro cabe julgar se culpado ou inocente, como hoje se viu em relação José Genoíno. E o pior: apesar de todas as evidências, provas, perícias, testemunhos, auditorias, relatórios, e até dos votos da maioria de seus pares, é flagrante o quanto o ministro refuta a ideia de que houve um “mensalão”, ou uma compra promíscua de votos feitos pelo Executivo Federal com alguns parlamentares.
O senhor Lewandowski não perde chance para lançar esta dúvida sobre praticamente tudo o que contém a ação penal 470. De uma demagogia pegajosa e adulação despropositada, o ministro revisor tem usado de todos os artifícios, também, para prolongar seu voto, para espichar além do razoável o tempo das sessões, como o fez hoje, e tem feito sempre que a oportunidade se oferece.
O fato, por exemplo, de Genoíno ser presidente ao tempo dos tais empréstimos que avalizou, obrigavam-no a tomar conhecimento primeiro, se os empréstimos eram necessários, segundo, das condições em que os mesmos seriam concedidos, prazos e juros, e se as receitas do partido seriam suficientes. Isto serio mínimo a se exigir de alguém presidente de qualquer clube de quinta categoria, quanto mais de uma agremiação partidária, com o tamanho e importância do PT. O discurso proferido por Lewandowski parece querer colocar em Genoíno a pecha de um agente político ingênuo, tolo, simplório. Não sei a quem Lewandowski está tentando enganar, se a si mesmo ou aos amigos a quem pretender agradar com seu voto...
Outra questão que sustentou como tre-men-da-,men-te importante, foi o tal documento que o PT apresentou informando a quitação do empréstimo. Inquirido pelo relator, Joaquim Barbosa, sobre quando o empréstimo houvera sido pago, Lewandowski desconversou, afirmou que isto não era importante, e blá-blá-blá. Ocorre que o empréstimo foi pago agora, com o julgamento já constando da pauta do STF. Ou seja, a prova de que o empréstimo era fajuto, é o fato do PT só pagá-lo quando a ação do Mensalão já se encaminhava para sua fase final.
Dentre os petistas, Lewandowski se dispõe a condenar apenas Delúbio Soares. Ninguém mais. Duvido que condene José Dirceu, e seu voto, se o presidente Carlos Ayres Brito não tomar cuidado, periga demorar a sessão inteira, impedindo que Dirceu acabe condenado antes das eleições. Reafirmo o que disse desde o primeiro dia em que o ministro revisor abençoou e absolveu João Paulo Cunha: Lewandowski se comporta como o melhor defensor dos mensaleiros, petistas principalmente. Ele não está lá para julgar ou revisar. Sua missão, que se atribuiu desde o início, é confundir, atrapalhar, prolongar, obstruir que a justiça seja feita para os amigos do amigo. Este é o seu verdadeiro papel, patético e lastimável para alguém com a responsabilidade que tem de ter assento na mais alta corte do país.
Como bem observou o texto da Veja online, só faltou a Lewandowski transformar Genoino em mártir e pleitear sua canonização. A lembrança de Kafka, antes de ser uma luz dando brilho incomum à inocência de quem era presidente do partido e tinha a obrigação de conhecer as entranhas e os negócios e até, viu, Lewandowski?, saber as razões dos empréstimos feitos por Delúbio, é de uma supimpa frescura, data vênia, trazida pelo revisor para sustentar a tese de inocência que, nem por seu advogado, o petista foi merecedor de de tanto ardor, de tanta empolgação. Contudo, o senhor Lewandowski, acabou, em seu entusiasmo pueril, agredindo a todos os demais ministros da Corte Suprema, com um caso histórico de mal julgamento.
Entendo que na sessão de hoje, o ministro-revisor-defensor público talvez demonstre ainda mais ardor na defesa que fará em favor de José Dirceu. Mas creio que as argumentações bestiais de que se valeu para chutar o balde, o processo, as provas, as perícias, os documentos, os testemunhos, e até o bom senso, merecerá de alguns ministros, com maior decoro e comprometimento com a justiça e à altura do cargo em que se acham investidos, uma resposta que deverá fazer o revisor corar. Talvez até sinta vergonha de seu voto, de sua atitude patética, de seus argumentos furados, de seu abusado comportamento em papel invertido, pondo a toga de ministro do STF de lado, para assumir a de defensor público, sem ao menos apresentar um instrumento de mandato a autorizá-lo a tanto. Alguém precisa avisá-lo, imediatamente, de que lado do balcão ele se encontra. É visível sua tendenciosidade, para não dizer coisa pior.