Editorial
O Globo
Sintonia entre órgãos de prevenção, atuação do poder público e colaboração da população ajudam a reduzir danos do furacão
Tragédias, especialmente as climáticas, dificilmente passam sem deixar no rastro importantes lições. O furacão que devastou parte da Costa Leste dos Estados Unidos também deixou ensinamentos. Em Nova York, que se tornou cenário preferencial de filmes-catástrofes e, durante a semana, sofreu o impacto de ver a ficção se transformar em terrível realidade, Sandy foi inclemente: os serviços de transporte entraram em colapso, milhões de pessoas tiveram a rotina alterada, ruas ficaram inundadas, boa parte da população mergulhou na escuridão e, inevitável diante de tamanha fúria da natureza, mais de oitenta pessoas morreram. A cidade parou, mas antes mesmo de os ventos chegarem, dava-se início a uma elogiável mobilização, comandada pelo poder público e obedientemente abraçada pelos cidadãos, para atenuar o rastro de destruição a caminho.
Esta foi a mais importante lição do furacão. A significativa redução de danos deveu-se a uma eficiente sintonia entre os órgãos governamentais de controle de catástrofes, e destes com a população, exaustiva e permanentemente informada da gravidade da situação, com detalhes sobre a intensidade do fenômeno que davam a medida da seriedade com que deviam seguir as orientações das autoridades.
O presidente Obama despachou recursos para ajudar as áreas afetadas e sua atuação, bem como a do prefeito Bloomberg, foi fundamental para passar à população sinais de que o poder público, dentro das circunstâncias, mantinha a situação sob controle. Ambos transmitiram segurança à população. Bloomberg ordenou pessoalmente medidas para problemas pontuais — como impor a carona obrigatória nas pontes de acesso a Manhattan, para reduzir os engarrafamentos.
Outra lição de Sandy foi pelo aspecto negativo. Cerca de cem cidades costeiras não levaram a sério as recomendações dos órgãos de prevenção, ignoraram o programa federal que incentiva comunidades a se precaverem contra alagamentos e pouco fizeram para proteger a população. A leniência teve alto preço, e essas foram as localidades que mais sofreram com a passagem do furacão.
Furacões e tempestades são fenômenos distintos, mas ambos têm alto poder de destruição e de se transformarem em tragédias. O Rio de Janeiro, vítima sazonal de enchentes, deve analisar com atenção essa particularidade climática e mirar-se no exemplo americano. O estado e município têm investido no aperfeiçoamento do sistema de prevenção de calamidades, mas o protocolo de ação em situações de emergência ainda é falho. Disso são evidências, por exemplo, os equívocos do poder público, incluindo o Executivo federal, antes da enxurrada na Serra Fluminense, ano passado, que custaram a vida de centenas de pessoas. As lições de Sandy precisam ser estudadas a sério.