José Casado
O Globo
Maduro é cada vez mais pressionado por aliados e enfrenta grave crise econômica
Há 100 dias Nicolás Maduro declarou-se presidente da Venezuela. Em meio a uma das maiores confusões eleitorais da história recente, começou a cumprir um mandato de seis anos.
Maduro tem o poder, mas falta-lhe o governo. Presidente débil, com a legitimidade questionada nas ruas desde a abertura das urnas, acabou emparedado por aliados e está cada vez mais acossado por uma grave crise:
* O primeiro semestre terminou com uma inflação oficial de 25%, o que representou um salto extraordinário sobre a taxa registrada nos primeiros seis meses do ano passado (7,5%). Significa que o governo Maduro está conduzindo o país na direção de um outro estágio econômico, o da hiperinflação;
* O preço dos alimentos subiu em média 36,2% no semestre; e a escassez de mercadorias avança - do papel higiênico ao dólar;
* O mercado paralelo de moedas mostra a expectativa dos venezuelanos para o segundo semestre: ontem à tarde eram necessários 36 bolívares para comprar um único dólar - pouco mais que o dobro da cotação do último dia útil do ano passado (17,4 por dólar);
Maduro se mantém no desfrute do poder, dentro dos limites da fatia que lhe foi concedida por aliados civis, como Diosdado Cabello, presidente da Assembleia Nacional; governos amigos, como o Raúl Castro, que controla os principais serviços secretos do país; e, chefes militares que detêm o controle direto de 11 governos estaduais, alguns dos ministérios mais importantes (Secretaria da Presidência, Relações Exteriores e Defesa, entre outros), além de autarquias, empresas estatais de energia e embaixadas relevantes - desde a semana passada, também, a de Brasília.
Num papel pouco mais que figurativo, Maduro tem dedicados esforços a se apresentar como líder ao velho estilo chavista, dentro e fora do país. Mês passado, por exemplo, desembarcou em Montevidéu como um sultão: levou uma comitiva de 150 pessoas, isolou três andares do luxuoso Radisson, e se fez acompanhar por um aparato de segurança que incluiu um cargueiro militar com tanque a bordo - o avião foi obrigado a uma escala técnica no Mato Grosso.
Com a legitimidade questionada desde as urnas, debilitado nas ruas, nos quartéis, nas milícias e no seu condomínio político, Maduro chegou ao final do primeiro semestre como um refém no Palácio Miraflores, sede do governo venezuelano. Em discursos diários, apresenta-se como governante ainda liderado pelo líder morto (Hugo Chávez). Na vida real, acabou subjugado por aliados cada vez mais vivos.
