Felipe Patury e Marcelo Sperandio, com reportagem de Teresa Perosa
Revista ÉPOCA
O Fundo Garantidor de Créditos assumiu a gestão do Cruzeiro do Sul e, depois, terceirizou o serviço para uma empresa vinculada a seu diretor executivo
(Fotos: Alexandre Rezende/Ag. O Dia e Jefferson Dias/Valor/Folhapress)
ENTRE AMIGOS
Celso Antunes (à esq.), diretor do FGC, contratou uma empresa de seu ex-sócio
para gerir o Cruzeiro do Sul, de Luis Octavio Indio da Costa (à dir.)
E DILMA DISSE: “DESSE JEITO NÃO DÁ”
O escândalo é um traço comum às liquidações bancárias. Está presente em todas, do princípio ao fim. A execração pública começa no momento em que o banqueiro é afastado de sua empresa. Evolui com a descoberta de fraudes, corriqueiras nesses casos. Quando a história deixa de ser acompanhada pela imprensa e a poeira baixa, vem a fase de boatos de desvios de liquidantes, de acordos espúrios feitos com devedores e de manobras ilegais dos falidos. Esse falatório costuma se esvair com o tempo, sem deixar consequências. As falcatruas, reais ou não, ficam impunes, e as calúnias são esquecidas. Parecia que seria assim também com o Cruzeiro do Sul, que naufragou em junho de 2012. Por causa do governo, o caso tomou outro rumo.
O burburinho sobre desvios na liquidação do banco que pertence à família Indio da Costa começou na caserna. Especializado em crédito consignado, o Cruzeiro do Sul tinha uma clientela cativa entre os militares. O controle desses empréstimos entrou em colapso depois que o Banco Central interveio no banco, afastou os controladores – Luis Felippe Indio da Costa e seu filho Luis Octavio – e incumbiu o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) de administrá-lo. Criado em 1995 sob a supervisão do governo, o FGC se tornou um elemento poderoso do mercado financeiro. Com mais de R$ 30 bilhões em caixa, socorre bancos em dificuldade. Quando não é possível evitar a bancarrota, o FGC entra para pagar os depósitos de seus correntistas.
Uma vez dentro do Cruzeiro do Sul, o FGC terceirizou a tarefa de auditar os empréstimos consignados concedidos pelo banco. Depois, terceirizou também as cobranças e os pagamentos. Em vez de diminuir, os problemas do Cruzeiro do Sul se avolumaram. Os clientes quitavam seus débitos, mas o banco não registrava os pagamentos. Por isso, os clientes continuavam devendo. O Cruzeiro do Sul lançou nomes de bons pagadores no Serviço de Proteção ao Crédito. Quem tentava transferir sua dívida para outro banco também não conseguia, o que contraria a lei.
Furiosa, a clientela militar se queixou ao Ministério da Defesa. As reclamações foram encaminhadas ao Planalto. O diretor executivo do FGC, Celso Antunes, foi o primeiro administrador do Cruzeiro do Sul depois da intervenção do BC e sabe exatamente o que aconteceu: “O caso subiu para a presidente Dilma Rousseff. Ela disse: ‘Desse jeito não dá’”. O presidente do conselho de administração do FGC, Antonio Carlos Bueno, diz que as mesmas falhas também motivaram questionamentos do Ministério Público. Ao se debruçar sobre o caso, o BC verificou que, em seu próprio serviço de atendimento à população, as queixas envolvendo o Cruzeiro do Sul triplicaram desde a intervenção. O diretor do BC, Sidnei Marques, responsável pela organização do sistema financeiro, descobriu uma situação ainda mais desconfortável. Durante a liquidação do Cruzeiro do Sul, todos os serviços do banco acabaram terceirizados para uma empresa desconhecida, ligada a dirigentes do FGC. Marques cobrou providências.
Em 24 de maio, o chefe de Liquidações do BC, Dawilson Sacramento, convocou o liquidante Sérgio Prates para uma reunião. Prates passou a apresentar o modelo que implantava no Cruzeiro do Sul. Sacramento interrompeu. “Você não está entendendo. Vim aqui para substituí-lo”, disse, ao anunciar o novo liquidante do Cruzeiro do Sul, Eduardo Bianchini. Terceirizações são comuns nas liquidações bancárias. O que o BC encontrara de tão grave no Cruzeiro do Sul?
