domingo, dezembro 15, 2013

Após privatização, Infraero incha quadros de aeroportos paulistas

Danielle Nogueira e Lino Rodrigues
O Globo 

Com estabilidade até 2018, funcionários exercem função até de bombeiro

Eliária Andrade 
Mudança. Barbosa deixou o setor de cargas para virar segurança 

RIO e SÃO PAULO — A privatização dos aeroportos de Guarulhos, Viracopos (Campinas) e Brasília, em fevereiro de 2012, inchou os aeroportos paulistas que ficaram sob administração da Infraero. Protegidos pela estabilidade no emprego até 2018, acertada entre a estatal e o Sindicato Nacional dos Aeroportuários (Sina), 65% dos funcionários da Infraero que trabalhavam nesses terminais foram transferidos, principalmente para Congonhas, Campo de Marte e São José dos Campos.

Com a migração, o número de funcionários de Congonhas dobrou de 336, no fim de 2012, para 642 hoje. O de Campo de Marte triplicou de 47 para 159; e o de São José dos Campos foi ampliado em quase seis vezes, de 34 para 180. Com tanta gente para desempenhar as mesmas funções, surgiram situações inusitadas, como a de pessoas que trabalhavam no setor de cargas e que hoje exercem as funções de segurança ou bombeiro.

Há risco de que o mesmo ocorra no Rio, pois 944 funcionários do Galeão (privatizado em novembro) também terão a opção de serem transferidos para outros terminais da Infraero.

Só 10% não deixaram os terminais privatizados
Dos 13 mil trabalhadores da Infraero, 2.511 estavam lotados em Guarulhos, Viracopos e Brasília antes da privatização. Desses, 264 (10%) ficaram nos aeroportos privatizados. Eles terão até agosto de 2014 para decidir se voltam à Infraero. Até lá, o contrato com a estatal está suspenso.

Outros 619 (25%) aderiram ao Programa de Incentivo à Transferência ou à Aposentadoria, desligando-se da Infraero. Dos 1.628 transferidos a outros aeroportos, 329 foram cedidos à Polícia Federal e à Receita Federal.

A Infraero está dispensando terceirizados e suspendendo convênios com o Corpo de Bombeiros. Em Campo de Marte e São José dos Campos, desde novembro, quem apaga o fogo em caso de incêndio são pessoas que ocupavam funções como manejar máquinas na área de cargas.

Na formação, até curso de bolo
Caso de Edison Santana, de 53 anos, que após quatro meses na “faculdade” da Infraero em Campinas, fazendo cursos até de como fazer bolo, formou-se em bombeiro de aeródromo.

— O inconveniente é a distância. Além do cansaço, acaba prejudicando o relacionamento com meus filhos — diz ele, que acorda às 3h45m para chegar às 7h em Campo de Marte.

Jurandir Barbosa também deixou o setor de cargas em Viracopos para virar segurança em Congonhas. Alega que não ficou na concessionária porque o salário e os benefícios são menores:

— Essa privatização foi a pior coisa que aconteceu.

Para especialistas, a situação evidencia falta de planejamento.

— Com a privatização, sobrou gente. Tem muito macaco num galho só. A Infraero terá de se reinventar — resume Marcus Silva Reis, coordenador do curso de Ciências Aeronáuticas da Universidade Estácio de Sá.
A Infraero diz que a resolução 279 da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) prevê que bombeiros de aeroportos podem ser civis e que os funcionários transferidos foram treinados antes de assumirem novos postos. A Aeroportos Brasil Viracopos diz que os benefícios foram mantidos. O presidente do Sina, Francisco Lemos, reconhece que “há excesso de funcionários”, mas frisa: as pessoas “não são descartáveis”.