Clarice Spitz
O Globo
Mais de 83 mil pessoas abriram mão de tentar uma das vagas para o instituto
No fim de março, o instituto já havia postergado estudos em razão de corte de orçamento do Ministério do Planejamento
RIO - Concurso para trabalhadores temporários do IBGE, no fim de março, chegou ao elevado índice de 47,7% de faltosos. Ao todo, 83.206 desistiram de tentar uma vaga entre as 7.825 vagas oferecidas em todo o país. Os maiores percentuais de desistência ocorreram no Mato Grosso do Sul, 59,6% e no Rio, 56,6%. Em São Paulo, ficaram em 51,7%, segundo a Associação dos Trabalhadores do IBGE (ASSIBGE). As vagas preenchidas serão para trabalhadores que atuarão na coleta de dados para pesquisas.
No fim de março, o instituto teve de adiar pesquisas, como a Contagem da População, depois do corte de 50% no orçamento do Ministério do Planejamento, ao qual é vinculado. Embora ainda não seja oficial, a Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF), que atualiza orçamento das famílias utilizado para o cálculo do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), também deverá ser adiada.
Para a diretora da ASSIBGE, Ana Carla Magni, o baixo interesse na prova está no valor dos salários oferecidos, de cerca de R$ 1.000. Segundo ela, atualmente cerca de dez agências do instituto em todo o país não têm servidores efetivos, apenas temporários, com contratos de até três anos, mas que podem ser facilmente rescindidos.
— Os dados que fornecemos são absolutamente essenciais: desemprego, inflação, PIB, não há como ter negociação coletiva sem eles. A dimensão salarial é muito distinta da importância das pesquisas. Não há como depender apenas de quadros temporários — afirma.
Instituto diz que baixa adesão à prova não preocupa
Ela lembra que em muitas pesquisas econômicas, como Pesquisa Mensal de Comércio (PMC) ou Pesquisa Mensal de Serviços (PMS), as empresas que compõem a amostra não são obrigadas a fornecer os dados e que isso exige um trabalho de convencimento dos funcionários.
— O temporário tem menos treinamento. E enfrenta uma jornada extensas e sem qualquer benefícios — afirma.
De acordo com a sindicalista, o IBGE vem enfrentando dificuldades relacionadas a um processo de aposentadoria em massa, que tende a se agravar. Hoje, segundo dados do sindicato, 46,4% dos funcionários têm mais de 31 anos de serviço.
— Esse processo ainda vai ficar mais dramático. Mesmo se o Ministério do Planejamento autorizasse todas as vagas que o IBGE está requerendo, algo em torno de 2 mil vagas até 2017, não seria suficiente — afirma Ana Carla.
Segundo o IBGE, não há preocupação com a baixa adesão de candidatos à prova. O instituto informa que outros concursos, para funcionários efetivos, no ano passado, já tinham apresentado baixa adesão. Entre eles, os concursos para Analistas e Tecnologistas (nível superior), com 33% de faltosos e para pesquisador (com mestrado), com 66% de faltosos.
O instituto informa que o número de candidatos que compareceu à prova é mais que dez vezes o número de vagas oferecidas. Em outra seleção, que está em andamento, o IBGE, informa que as vagas para nível superior foram ampliadas de 140 para 210.