Adelson Elias Vasconcellos
As últimas pesquisas de opinião, principalmente, a do Datafolha, desenha uma perspectiva bastante negativa para a senhora Rousseff, atual presidente e candidata à reeleição. Muita gente boa já se debruçou sobre os números, e se encarregaram, à exaustão, avaliarem a posição de governista e oposicionistas.
Já há algum tempo que estamos alertando os leitores do blog para o fato de que, em 2015, independente do candidato vencedor, Dilma ou alguém da oposição, terá de conviver com uma herança prá lá de maldita. Precisará consumir pelo menos meio mandato para por a casa em ordem. E por a casa em ordem significa ter de conviver com uma economia estagnada, uma inflação em alta e que tende a crescer ainda mais em razão dos preços represados por Dilma, queda de investimentos, gastos correntes fixos em alta, e uma economia mundial que estará voltada mais a sua recuperação do que andar em ritmo mais forte, portanto, uma força com a qual o vencedor em outubro não poderá contar.
Assim, se o futuro ou futura presidente quiser governar com olhos postos exclusivamente no interesse público, precisará administrar e conviver com indicadores ruins (o que não colaborará para alavancar índices de popularidade), deverá adotar medidas restritivas nas despesas de governo, precisará convencer o Congresso a aprovar projetos de reformas impopulares mas indispensáveis, tudo coisas que Dilma e, antes dela, o própria Lula, se negaram em adotar. Ambos dedicaram seus mandatos a ações de caráter populista, calçados em uma fabulosa e bilionária máquina de propaganda oficial, e com um único propósito: manter-se no poder.
Olhando-se para o Brasil deste ano da graça de 2014, a impressão que salta aos olhos é a de que vivemos num paraíso artificial. Diz-se que temos um país de classe média, mas esquecem de dizer que esta classe média, em sua grande maioria, convive e sobrevive com uma renda entre meio e um e meio salário mínimo mensal. Vivemos uma explosão de consumo baseado apenas no crédito e, dada a renda baixa, com altos níveis de endividamento das famílias. E o pior: consumo em produtos muito mais caros aqui do que em qualquer lugar do mundo. Ao invés de cuidarmos de elevar a produção, estimulando justamente a saudável concorrência, o Estado teima em expropriar a pouca rentabilidade das empresas. Assim, esta demanda aquecida acaba sendo atendida por importação até de quinquilharias, levando à indústria nacional a se manter estagnada e fechar um crescente número de postos de trabalho. Com a indústria sem estímulos, acaba trocando a produção por plantas de distribuição de importados, o que compromete ainda mais a renda. Inovação? Esqueçam, isto é proibido no Brasil das carroças.
E já que acima mencionamos empregos, se diz que temos pleno emprego, o que não passa de uma pilhéria. Menos de um terço da força de trabalho encontra-se empregada. E a estatística só não é mais horrorosa porque não se computa mais de 60 milhões de trabalhadores que deixaram de procurar emprego.
Paraíso artificial? Claro, quando se fala que sofremos uma enorme melhora na renda das pessoas, deixam de lado a informação de que, primeiro, 25% da população brasileira depende de programas assistencialistas, e sua maioria tem em tais programas sua única fonte de renda. Ou seja, esta tal “renda” não é produzida pelo trabalho.
Quando os críticos voltam suas baterias para o incipiente PIB do país nos últimos anos, é desastroso ouvir do ministro da Fazenda que o povo não come PIB. Ou seja, é o ministro da Fazenda sustentando que desenvolvimento é algo insignificante para o país.
A esta altura do campeonato, já começo a duvidar que os petistas estejam empenhados em reeleger Dilma Rousseff. O próximo governo viverá períodos bastante difíceis. Terá que se dedicar a recolocar o país nos trilhos. Assim, melhor seria que as atuais oposições bancassem o custo desta arrumação para depois, em 2017, aparecer um tal salvador da pátria capaz de, outra vez, surfar nas ondas da obra alheia.
Como os petistas, na oposição, sabem como ninguém fazer barulho, e seus congressistas tem um longo histórico de sabotagem a governos alheios, o caminho para o retorno de Lula em 2018 seria asfaltado desde 1º de janeiro de 2015.
Claro que sempre haverá o risco do próximo governante começar a colher os frutos de um projeto bem conduzido, ainda em seu primeiro mandato.
É um risco para os petistas? Em política ninguém vai em frente sem correr riscos. Mas são enormes as possibilidades da estratégia resultar vitoriosa, abrindo caminho para um novo ciclo para o PT ficar à frente do poder.
Mas pensemos o contrário: que Dilma vença a eleição e se dedique a fazer tudo aquilo que o país precisa para retomar seu rumo. Neste caso, como seria seu último mandato, seria ela a pagar o preço político para a adoção de medidas impopulares. Resultado: casa arrumada, em 2017, reapareceria novamente o salvador da pátria exibindo aquelas estatísticas indecorosas de seu tempo no poder, acenando com os ventos de uma nova onda de esperanças venturosas.
Seja como for, com Dilma ou com alguém da oposição, um ou outro precisará pagar o preço político para corrigir os rumos do país. Na área das concessões, por exemplo, pequenas correções nos marcos regulatórios e será suficiente para o Brasil atrair centenas de bilhões em investimentos em infraestrutura, parte do nosso calcanhar de Aquiles do baixo crescimento. Pequenas arrumações no nosso maluco sistema tributário serviriam para tornar o ambiente de negócios mais favorável, atraindo investimentos para novas plantas industriais, ampliação das já existente, elevando nossa produção interna, aliviando a balança comercial e favorecendo o consumo interno. Tais arrumações poderiam ocorrer no alongamento de recolhimento de tributos, na redução das atuais alíquotas e uma simplificação, racional e moderna, da burocracia de apuração.
No campo das reformas urgentes, creio que a Previdenciária não mais pode ser adiada. O momento preciso é este, enquanto há tempo para o necessário debate com a sociedade, com o objetivo de se criar um sistema que seja viável. Por mais que haja resistência, encarar este desafio é imprescindível antes que o atual sistema se torne inviável, obrigando o país a fazer uma reforma a facão.
Lenta e gradualmente os preços dos combustíveis, da energia elétrica e do transporte público precisam ser liberados. Num primeiro momento, haverá uma explosão nos índices de inflação que poderá ser contemporizada por uma política fiscal rígida e disciplinada por parte do governo. É quase uma regra geral no Brasil o poder público fazer política fiscal com redução de investimentos, ao invés de corte de despesas. O Estado está inchado demais, nele o que faltam são gorduras para serem podadas. Precisamos mudar esta cultura para dar margem a elevação de investimentos capazes de alimentar um ciclo virtuoso de crescimento.
Além disso, precisamos olhar para a educação com a máxima atenção. Dali, devem ser expurgados os métodos de ideologia política com os quais a educação brasileira foi infestada nos últimos dez anos. Escola deve formar alunos com um mínimo de conhecimentos e habilidades em áreas básicas para a formação do cidadão. Matemática, Língua portuguesa, geografia, história (sem preconceitos) e ciências Além de conteúdo, precisam de professores preparados, com formação superior e, claro, salários condizentes, além de estruturas físicas adequadas. E isto vale para a saúde, saneamento e segurança.
Em resumo, nem é preciso provocar uma revolução no governo para que o país colha bons frutos. Ou seja, o Brasil precisa de um governante que governe o Brasil para o Brasil e para os brasileiros, e não para uma gangue reduzida de políticos do crime, dedicados apenas ao poder. Pode até parecer coisa simples de se fazer, mas precisará enfrentar o barulho que estes marginais são capazes de provocar.
.jpg)