segunda-feira, junho 30, 2014

O ajuste de 2015 e o choque de expectativas

Angela Bittencourt
Valor

Transição do governo lembra 2002 pela exigência do ajuste

A chance de vitória da oposição na eleição de outubro deixou de ser zebra. As últimas pesquisas de intenção de voto aproximaram o candidato tucano Aécio Neves da rampa do Palácio do Planalto para entusiasmo do setor privado e principalmente do mercado financeiro que retoma os negócios para valer nesta terça-feira, após o feriado de Corpus Christi e a segunda-feira truncada em função do jogo Brasil e Camarões pela Copa do Mundo. Os investidores retornam sob a influência de novas informações decorrentes da pesquisa CNI/Ibope divulgada na quinta-feira e nos encontros políticos e convenções partidárias que ocorreram no fim de semana.

Na convenção do PT, que oficializou a candidatura de Dilma Rousseff à reeleição, prevaleceu o mote "Mais mudanças, Mais reformas". De encontros políticos saíram as primeiras revisões de apoio de partidos aos principais candidatos à Presidência. E da pesquisa CNI/Ibope surgiu um quadro consistente ao resultado de levantamento anterior, com Dilma praticamente estável com 39% das intenções de voto; Aécio com 21% e o socialista Eduardo Campos com 10%. O candidato tucano Aécio Neves foi além do esperado e, na sexta-feira, confirmou o ex-presidente do Banco Central (BC) Arminio Fraga como coordenador técnico de economia durante sua campanha eleitoral.

O empenho de Dilma por "Mais mudanças" não produziu impacto tão positivo quanto a confirmação formal de Arminio na campanha de Aécio, ainda que a presidente seja a favorita dos eleitores. O recorde de rejeição do seu governo - que pela primeira vez desde a posse superou a avaliação positiva -, praticamente sancionou a convivência de dois cenários para 2015 contemplados pelos investidores, o de reeleição de Dilma e o de vitória do PSDB. Mas, a despeito de quem assumir o comando da Nação em janeiro de 2015, a expectativa do setor privado, não apenas financeiro, é de que o próximo mandatário deverá fazer um ajuste na economia - tarefa nada trivial, uma vez que o Brasil está muito próximo da estagflação. Isto é, sem gás para manter um crescimento consistente e sem vontade de conter a inflação.

No sentido de que a correção de rota será quase uma imposição ao futuro presidente, a transição de governo que se avizinha pode ter pontos em comum com a chegada do PT à Presidência da República em 2003. Tal semelhança fica restrita, porém, à inquietação com as decisões que serão tomadas pela nova equipe. Não se estende ao comportamento de investidores que especularam contra o real em meio à incerteza do 'novo' representado pela condução da economia por um partido de esquerda. Mas com o dólar a quase R$ 3 em meados de 2002 e a flagrante dificuldade de o Tesouro financiar a trilionária dívida pública, o PT de Luiz Inácio Lula da Silva optou pelo gradualismo. Lançou a "Carta aos Brasileiros" e assumiu sob o carimbo da "continuidade" parte dos pilares do governo anterior.

Quase ao fim de 12 anos de PT no Planalto, a "continuidade" esmaeceu. Entregar superávit primário do setor público superior a 4% do PIB, como ocorreu durante meses em 2005, ou mesmo sustentar ano após ano resultados fiscais acima de 3% do PIB tornou-se uma proeza. O governo Dilma, reduzido à metade graças à antecipação do processo eleitoral, chegou a ter desempenho igualmente satisfatório em 2011. Mas parou aí. Para alcançar resultados mais modestos o atual governo lançou mão de operações que arranharam a credibilidade.

Recentemente, ao discursar nas convenções do PMDB e PDT, que oficializaram o apoio a sua candidatura, a presidente tocou num ponto crucial. Declarou não ter sido eleita para tomar medidas impopulares, para desempregar ou arrochar salários. Em alto e bom som, Dilma rebateu afirmações do senador Aécio Neves que, em reunião com empresários, disse que não hesitaria em tomar medidas impopulares. Tal afirmação despertou a curiosidade de grandes investidores.

O economista Arminio Fraga, apontado como virtual ministro da Fazenda no governo Aécio Neves, aplacou a expectativa que ameaçava se formar e em entrevista a Claudia Safatle, na semana passada, disse ser contra "tratamento de choque" na economia, seja para derrubar a inflação ou para perseguir superávit primário maior. Diante dessa colocação, ficou mais evidente a necessidade de Aécio dar um "choque nas expectativas", caso seja eleito.

Na sexta-feira, após a confirmação de Arminio como coordenador de economia durante a campanha, o blog "Casa das Caldeiras", da redação do Valor, conversou com quatro gestores - dois baseados no Brasil e dois em Nova York - sobre qual "choque" seria necessário para zerar a era petista e recomeçar o tucanato e os entrevistados estão convencidos de que o ex-presidente do BC é o próprio "choque de credibilidade". "Arminio tem reputação suficiente para reverter o pessimismo no mercado. Se for ministro da Fazenda todos acreditarão que em dois ou três anos a política fiscal estará mais equilibrada, que haverá um programa de crescimento de médio e longo prazo e com uma política de incentivos mais alinhada ao capital privado. A nomeação de Arminio provocaria uma elevação no nível dos investimentos externos diretos no Brasil", diz um dos interlocutores.

Outro entrevistado acredita em uma virada instantânea nos índices de confiança de empresários e consumidores, o que favoreceria a queda da inflação. "O anúncio de um ajuste fiscal, mesmo que não draconiano em 2015 poderia ser feito. Com metas anuais de redução das despesas do governo em relação ao PIB."

A credibilidade de uma equipe comandada por Arminio daria segurança aos agentes a respeito da "direção e intensidade" de quaisquer ajustes, diz outro profissional que considera a independência do BC "um choque complementar de 220 volts".

Outra fonte vê a "troca da equipe" como informação suficiente para corrigir as expectativas. Cedendo à insistência da pergunta, esse profissional pondera que reforçaria o ambiente positivo algumas medidas na direção da retomada do tripé macroeconômico. De preferência algo que reforce compromisso com o equilíbrio fiscal.