Eliane Oliveira
O Globo
Bloco deve aguardar mudança interna de comissários e de governantes no continente antes de negociar
BRASÍLIA — Para aqueles que creem na criação da maior zona de livre comércio firmada entre duas regiões, uma triste notícia: ao contrário do que previam os líderes do Mercosul, não haverá acordo este ano com a União Europeia (UE). Nem mesmo a troca de ofertas entre os dois blocos, que deveria ter acontecido no mês passado, antes da Copa do Mundo, deve acontecer. Mais uma vez, a conjuntura política atropela um processo econômico-comercial.
O ano de 2014 é de troca de comissários na UE. São 28 membros, um de cada país. O mandato é de cinco anos e termina agora. Ao mesmo tempo, haverá eleição no Brasil em outubro. A ideia que circula nos bastidores da Comissão Europeia e do Mercosul é que o melhor será uma troca de ofertas com os líderes definitivos, que ficarão no poder nos próximos anos.
— Haverá eleições no Brasil, e os europeus querem ter certeza sobre com com quem vão conversar a partir de 2015. Além disso, este ano há troca de comissários na UE — comenta um ministro de Estado brasileiro.
As negociações entre Mercosul e UE começaram em 1999. São o maior exemplo de que, apesar da vontade política, não há avanços na área técnica. Desde que o diálogo foi iniciado, ficou claro que o objetivo final desse caminho seria chegar a um nível elevado de relacionamento, que não se limitasse apenas à área comercial. Turismo, livre trânsito de cidadãos e trabalhadores entre os dois blocos, expansão de investimentos e maior cooperação em saúde, educação, ciência e tecnologia sempre fizeram parte de um desejo quase utópico.
A caótica situação econômica na Argentina também pesa no adiamento. Os vizinhos estão em guerra, na Justiça americana, com investidores que se recusaram a participar de reestruturações da dívida do país em 2002. O país está com a credibilidade seriamente afetada e não se encontra em condições de mudar sua estrutura comercial. Precisa melhorar o balanço de pagamentos, com a queda de importações e aumento de exportações.
Até cerca de um mês atrás, a Argentina criava dificuldades para fechar a proposta a ser apresentada aos europeus. Por exemplo, insistia em um prazo de 15 anos para a diminuição a zero das tarifas de importação de produtos da União Europeia. Brasil, Paraguai e Uruguai defendiam 12 anos e a UE, dez anos. Venceu a proposta dos demais sócios do Mercosul e cerca de 90% dos itens comercializados entre as duas regiões terão as alíquotas reduzidas.
A possibilidade cada vez mais concreta de adiamento preocupa a indústria brasileira, que pede rapidez na conclusão das negociações. Um dos temores do setor privado e do governo é que a França, beneficiada com os subsídios agrícolas europeus, apresente resistência a um acordo.
Sob o ponto de vista político, mais uma postergação representaria um fracasso para a presidente Dilma Rousseff em sua política externa. Em fevereiro deste ano, ela esteve em Bruxelas, na Bélgica, sede da Comissão Europeia, para tentar destravar as conversas. Pelo jeito, de nada adiantou uma viagem tão longa.