Alessandro Lo-Bianco e Ana Claudia Costa
O Globo
Lucro por jogo era de R$ 1 milhão. Onze pessoas foram presas nesta terça-feira
Hudson Pontes / Agência O Globo
O argelino Mohamadou Lamine é conduzido
à frente dos outros detidos na Operação Jules Rimet
RIO — A Polícia Civil do Rio investiga se há ligação entre uma quadrilha de cambistas que vendia ingressos para a Copa do Mundo e integrantes da Fifa, da delegação do Brasil e de outros países. Nesta terça-feira, policiais prenderam 11 pessoas — nove no Rio e duas em São Paulo — durante uma operação para desarticular o grupo. Entre os presos, está o argelino naturalizado francês Mohamadou Lamine Fofana, de 57 anos, acusado de ser o chefe do bando. Ele, que se dizia empresário ligado ao futebol, tinha acesso a áreas exclusivas da Fifa e chegou a ser visto entrando no Copacabana Palace, onde está hospedada toda a cúpula da organização e onde, no dia 21, dois ingleses foram flagrados vendendo ingressos do Mundial. Segundo o delegado titular da 18ª DP (Praça da Bandeira), Fábio Barucke, há indícios de participação de integrantes da entidade no esquema.
Hudson Pontes / Agência O Globo
Material apreendido: ingressos, dinheiro e passaportes recolhidos
com os acusados de integrar a quadrilha
Batizada de Jules Rimet, a ação cumpriu 20 mandados de busca e apreensão. Policiais apreenderam com os envolvidos planilhas de contabilidade, dólares, reais e euros, celulares, máquinas de cartões de crédito e mais de cem ingressos da Copa do Mundo, dez deles fornecidos por alguém da comissão técnica do Brasil. Integrantes de delegações de outros dois países também estão sendo investigados.
FATURAMENTO DE R$ 1 MILHÃO POR JOGO
A quadrilha teria conseguido com esses grupos cerca de 50 ingressos que seriam vendidos no valor de mil euros cada. De acordo com Barucke, os acusados compravam ingressos distribuídos pela Fifa como cortesia e os revendiam a preços muito mais altos que os da tabela da entidade. Ele disse ainda que há provas da participação de pelo menos outras sete pessoas na quadrilha.
— Temos elementos que dão a entender que eles teriam envolvimento com algum membro da Fifa para adquirir tais ingressos. Investigamos e prendemos o argelino naturalizado francês e verificamos que, no carro dele, há um adesivo que dá acesso a qualquer evento privado da entidade. O inquérito está em curso. A prisão é temporária, e a prisão preventiva vai ser requerida. Documentos apreendidos estão sendo analisados — disse o delegado.
O grupo chegava a faturar R$ 1 milhão por jogo, segundo a investigação. A estimativa é que a quadrilha, que confessou ter atuado em outros quatro mundiais, poderia lucrar cerca de R$ 200 milhões nesta Copa. Um ingresso para a final no Maracanã, por exemplo, estava sendo oferecido a R$ 35 mil.
BANDO USAVA AGÊNCIAS DE TURISMO
Segundo as investigações, o grupo utilizava três agências de turismo em Copacabana para entrar em contato com turistas que queriam comprar ingressos. As empresas também serviam para lavar o dinheiro arrecadado com a venda. As três agências, que funcionavam no número 599 da Avenida Nossa Senhora de Copacabana e estavam em nome de Alexandre Marino Vieira, foram interditadas. As contas bancárias dos envolvidos foram bloqueadas.
As investigações para desarticular a quadrilha começaram um mês antes da Copa do Mundo. A ação contou com interceptação telefônica e filmagens da venda de bilhetes. Equipes da 18ª DP foram atrás de grupos que vendiam ingressos com valor muito acima do preço oficial da Fifa. De acordo com o chefe de Polícia Civil, delegado Fernando Veloso, o Juizado Especial do Torcedor ajudou nas investigações. A polícia apurou que a quadrilha também conseguia ingressos com três ONGs que ganhavam os bilhetes de cortesia e os revendiam.
Mohamadou mora em Dubai, segundo a polícia. Para a Copa do Mundo, ele alugou um apartamento no condomínio Santa Mônica, na Barra da Tijuca, onde foi preso. De acordo com policiais, Mohamadou negociava até mesmo a venda de camarotes para os jogos. A polícia acredita, no entanto, que há alguém acima do francês na hierarquia da quadrilha.
— O argelino naturalizado francês tem acesso a vários jogadores de futebol, brasileiros e de pelo menos três comissões técnicas de seleções. A quadrilha ganha tanto dinheiro que só atua nos períodos de Copa do Mundo — disse o delegado Fábio Barucke.
Os outros dez presos são brasileiros. Entre eles, está o policial militar reformado Osséas do Nascimento. Segundo a polícia, ele seria responsável por vender ingressos. Além dele, de Mohamadou e do dono das agências, também foram presos no Rio Antônio Henrique de Paula Jorge, Marcelo Pavão da Costa Carvalho, Sérgio Antônio de Lima, Ernane Alves da Rocha Júnior, Júlio Soares da Costa Filho e Fernanda Carrione Paulucci. Já em São Paulo foram detidos o advogado José Massih e Alexandre da Silva Borges.
Pessoas que compraram os ingressos vendidos por integrantes da quadrilha, segundo o delegado, serão qualificadas como testemunhas no inquérito.
O delegado Fernando Veloso afirmou que pretende procurar a Fifa, para sugerir que os ingressos doados como cortesia sejam marcados, a fim de dificultar a ação dos cambistas.
— Se a Fifa marcar de alguma forma os ingressos de cortesia, será mais fácil rastrear os bilhetes e chegar até os cambistas — disse.
O Departamento de Imprensa da Fifa informou que a entidade não foi contactada pelas autoridades locais, nem recebeu informações oficiais sobre o assunto.
Veloso reiterou que a quadrilha pode ter ligação com pessoas importantes:
— O destaque desta investigação é que os policiais da 18ª DP descobriram a fonte, a origem onde vários cambistas iam buscar os ingressos para revender. Essa quadrilha tinha várias ligações com gente de prestígio. Foram feitas gravações, pois a polícia estava monitorando o caso há 60 dias. E há mais envolvidos em São Paulo. Advogados fazendo parte do esquema, várias pessoas que ainda serão identificadas e terão o pedido de prisão feito nos próximos dias.
GRUPO VAI PARA O COMPLEXO DE GERICINÓ
Os 11 cambistas presos nesta terça-feira responderão pelos crimes por cambismo, formação de quadrilha e lavagem de dinheiro. Todos foram levados para o complexo penitenciário de Gericinó, onde, desde o dia 20, estão presos quatro chilenos, um paraguaio e um colombiano. Eles foram flagrados dentro do Maracanã, no dia 18 de junho, com credenciais falsas durante o jogo Chile x Espanha.
Já os dois ingleses detidos no Copacabana Palace foram soltos no último dia 27. Eles estão em liberdade condicional e terão que aguardar o julgamento no país..
Segundo um balanço parcial divulgado nesta terça-feira pela Polícia Civil, 97 cambistas foram autuados no Rio desde o início do Mundial.
OUTROS PRESOS COM INGRESSOS
Investigações da polícia já levaram cambistas à prisão no Rio e em outras cidades-sede ao longo do mundial. Na segunda-feira, em Copacabana, na Zona Sul, dois americanos e uma italiana foram detidos, em flagrante, por venda irregular de ingressos para a Copa do Mundo. Os três atuavam pela internet, por meio do site das empresas Ludus Tours e Red Carpet. Com eles, policiais civis apreenderam cerca de 200 entradas, 10 mil dólares americanos (R$ 22.115), 750 dólares australianos (R$ 1.562) e 160 euros (R$ 483). Os três foram autuados por formação de quadrilha e pelo crime de cambismo (previsto no Estatuto do Torcedor). A Justiça decretou a prisão preventiva dos três estrangeiros.
Às vésperas do último jogo do Brasil, dezenas de vendedores irregulares agiram livremente em frente à sede do Botafogo, no Rio, onde foi montado, pela Fifa, o único centro oficial de vendas e distribuição de ingressos para jogos no Rio.
Também na capital fluminense, no quarto jogo do Mundial realizado na cidade, no dia 22 de junho, agentes da Secretaria municipal de Ordem Pública detiveram 12 cambistas (nove brasileiros, dois neozelandeses e um americano) que agiam no Maracanã. Desse total, oito foram encaminhados à Delegacia Móvel instalada no estádio. O restante foi levado à 20ª DP (Vila Isabel).

