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André Borges, do Estadão Conteúdo
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Energia nuclear: sobre o urânio encontrado no poço do vizinho,
o grupo Indústrias Nucleares do Brasil declarou
que se trata de condição natural da região
Caetité e Lagoa Real (BA) - A estatal Indústrias Nucleares do Brasil (INB) não explicou à reportagem por que a ocorrência da água contaminada por urânio verificada pela própria empresa em outubro de 2014 só foi informada à prefeitura de Lagoa Real (BA) em maio deste ano.
Em nota, a empresa também não se posicionou sobre o fato de deixar de inspecionar a qualidade da água utilizada pelos vizinhos do sítio onde o material radioativo foi encontrado.
A estatal declarou que o poço de Osvaldo Antônio de Jesus, na comunidade de Varginha, em Lagoa Real, "não está em área de influência das atividades da INB e por isso não é contemplado no programa de monitoramento aprovado pelos órgãos fiscalizadores".
Ocorre que, conforme informação oficial divulgada pela própria empresa, a comunidade de Varginha faz parte, sim, dos locais onde são - ou deveriam ser - coletadas as amostras de água para análise. O dado consta em documento de "perguntas e respostas" da INB, atualizado em abril deste ano.
A empresa declarou que as análises no poço de Osvaldo de Jesus "foram feitas atendendo a um pedido do próprio morador, não sendo de responsabilidade da INB determinar padrão de potabilidade da água, abertura ou fechamento de poços".
Sobre a quantidade de urânio no poço, declarou que se trata de condição natural da região, considerada "uma província uranífera" por causa da abundância do minério.
"É por esta razão que as águas dessa região podem apresentar concentrações de urânio mais elevadas do que outras, não sendo caracterizadas como contaminação."
Segundo a estatal, o poço foi perfurado há aproximadamente 20 km de distância do local da mineração, o que, justifica a INB, afasta sua responsabilidade pela ocorrência.
A estatal ligada ao Ministério de Ciência, Tecnologia e Informação afirma que acompanha e avalia 132 poços, "sendo que 39 estão localizados em comunidades próximas da área da empresa para garantir que as atividades de mineração e beneficiamento não prejudiquem a qualidade da água".
Esse trabalho chegaria a "mais de 16 mil análises por ano". Na comunidade de Varginha, que a empresa alega fiscalizar, nenhuma casa visitada pela reportagem declarou ter recebido agentes da empresa. A Cerb, que foi acusada pela prefeitura de Lagoa Real de ter aberto o poço sem autorização da gestão municipal, não se pronunciou até as 21h30 de ontem.
****** COMENTANDO A NOTÍCIA:
Segundo informação que circulou na imprensa durante o dia, a estatal afirmou que avisou a Prefeitura sobre a contaminação por telefone. Ao invés de amenizar, a desculpa só agravou a irresponsabilidade da estatal.
Tamanho acontecimento, de graves consequências para a população, jamais poderia ter sido tratado por telefone, se é que a ligação foi feita realmente.
A diretoria da empresa deveria ter se dirigido à Prefeitura, pedido audiência especial e urgente com o Prefeito, comunicando pessoalmente o acontecido e fazendo entrega de um laudo técnico atestando e avalizando a contaminação e solicitando, ainda, que fossem tomadas as providências pertinentes. Também deveria ter feito um comunicado oficial na imprensa alertando a população para os riscos de consumo da água contaminada, além de exigir a presença de técnicos especializados para proceder na descontaminação.
Como vemos, nada disto foi feito, apenas um simples telefonema atendido sabe-se lá por quem. Não sei quem dirige a estatal, mas toda a sua diretoria irresponsável deveria imediatamente ser afastada, e ainda responder as devidas ações judiciais que caso tão grave exige. Casos como este não podem simplesmente passarem em branco e impune. E olha que nem chegamos a tocar noutra questão relevante: em que condições foi fornecido a Licença Ambiental de Operação, sempre tão exigente para com empresas privadas que não trazem risco algum ao meio ambiente, e que parece, se comportou de forma negligente no caso de uma estatal!
