Gabriel Justo
Exame.com
Ao apostar em um cenário de otimismo irreal, equipe econômica deixou de se preparar para as dificuldades de 2021; ouça a discussão no novo episódio do podcast EXAME Política
(Bruna Prado/Getty Images)
Brasileiros aguardam em fila para receber segunda parcela
do auxilio emergencial do governo durante a pandemia do novo coronavírus.
Apesar de já estarmos no quarto mês de 2021, o Orçamento federal para este ano ainda é tema de discussão no país. Para acomodar um aumento de R$ 26,2 bilhões em emendas parlamentares, o governo federal cortou nessa proporção a estimativa de gastos como a Previdência, abono salarial e seguro-desemprego, que são obrigatórios - sem nenhuma garantia de que essa projeção se confirme. O malabarismo fiscal acabou por tornar o Orçamento aprovado no final de março inexequível, criando um impasse entre os Poderes..
Para a consultora econômica Zeina Latif, houve um erro crasso do governo ao ignorar os alertas de especialistas em relação à duração da pandemia - que, ao contrário do que previa a PEC emergencial aprovada no ano passado, claramente não se encerraria em dezembro de 2020. Ao apostar em um cenário de otimismo irreal, a equipe econômica deixou de se preparar para as dificuldades de 2021.
"Com uma crise dessa natureza, como não nos preparamos para 2021?", indagou a economista no último episódio do podcast EXAME Política, destacando que o Orçamento aprovado ignora as necessidades da população neste momento. "É um Orçamento desconectado das necessidades do país. Neste momento, as pessoas precisam ter o mínimo de socorro, assim como as empresas. No fundo, ele é um reflexo triste da má gestão da politica econômica e da má gestão da articulação politica."
Latif pontua ainda que a gestão fiscal temerária do governo já gera impactos macroeconômicos, como as altas da inflação, dos juros e do câmbio, e que a confusão do orçamento, somada à má avaliação do presidente na gestão da pandemia, mostram um lado positivo: que a sociedade está antenada no que acontece, e tem uma visão crítica.
A última pesquisa EXAME/IDEIA mostrou que, após um ano de pandemia, os brasileiros passaram a confiar mais no SUS e nos governos locais, ao mesmo tempo em que perderam confiança no governo federal - e reprovam sua atuação como nunca antes.
"Pela primeira vez, o Bolsonaro ultrapassou os 50% de avaliações ruim/péssimo, o que é muito difícil de ser revertido. E na avaliação da gestão da pandemia, ele tem 21% de ótimo/bom, o que eu estimo ser o piso da sua boa avaliação", explicou o pesquisador Maurício Moura, fundador do IDEIA.
Também no último episódio do EXAME Política, Moura discute os resultados da última pesquisa EXAME/IDEIA, que mostrou governadores e prefeitos melhor avaliados na gestão da pandemia do que o governo federal.
Para o parlamentar, é infinitamente melhor ter dinheiro no bolso para fazer as suas obras do que fazer parte do governo cuja aprovação está em queda, com a imagem muito abalada. Isso aumenta o desejo por emendas. A impressão que eu tenho é que, já que se está violando regras básicas das finanças públicas, o certo seria enviar outro Orçamento e começar tudo de novo.
Zeina Latif, consultora econômica
