sábado, agosto 12, 2006

A pergunta que faltou...


Se a Globo quisesse poderia ter não ido ao Palácio Alvorada, porque o Presidente Lula, quando convidado a participar das entrevistas, não havia imposto nenhuma condição extra. A partir da entrevista feita com Geraldo Alckimin, candidato do PSDB, o comitê da campanha de Lula, se assustou. E, fazendo valer a condição de Lula de ser, além de candidato, também ser o presidente da República, quis fazer um joguinho de cartas marcadas. Com o jogo em movimento, tentou impor uma mudança nas regras: Lula aceitava a entrevista desde que a mesma fosse no Palácio da Alvorada, e apenas uma pergunta se reportasse à corrupção e sem referências a nomes. Acertou-se que a entrevista seria no Palácio da Alvorada, apenas. A tentativa de Lula, logo se vê, era valer-se do cargo e pôr seus entrevistadores sob cabresto. Levou o troco na medida certa. E mereceu. E, assim, a Rede Globo se penitenciou da forma como tratou Alckimin. Tentou mostrar sua isenção.

Simplesmente, se quisesse, poderia sequer ter aceito a condição de sair de seus estúdios. Ainda assim, mostrou ao governo Lula e ao PT, que neste país ainda vigora o bom senso, e não se deixou levar pela premeditada ação de ser tolhida em seu trabalho.

Até não seria condenada se, no momento da entrevista, com uma cadeira vazia ao lado de Willian Bonner e Fátima Bernardes, transmitisse a seguinte mensagem: "Boa noite, hoje o Jornal Nacional deveria entrevistar o Sr. Luiz Ignácio da Silva, candidato pelo PT à reeleição. Convidado, consentiram todos os candidatos com as regras estabelecidas, que procurariam ser equânimes para todos os candidatos. Num segundo momento, após já havermos o ciclo de entrevistas, o presidente quis que, no seu caso, fosse realizada no Palácio da Alvorada, com direito a uma só pergunta sobre corrupção e sem referências a nomes. Como isto fere e foge do verdadeiro debate democrático, e quebra a igualdade de condições com os demais candidatos, a Rede Globo de Televisão negou-se em atender as exigências para a entrevista e em respeito aos seus milhões de telespectadores. Desta forma, lamentamos não podermos contar com presença do presidente Lula, renovando o convite desde já para que compareça ao debate previamente marcado para o mês de setembro, e frente a frente com os demais candidatos, ele se proponha debater em igualdade de condições e sem a utilização de seu cargo para levar vantagem, porque esta é a essência do jogo democrático. Boa noite."

Apesar da imposição covarde, a Rede Globo preferiu contemporizar, e aceitou que a entrevista se realizasse em Brasília. Dali para frente, a Globo, por seus entrevistadores, mostrou e ressuscitou o bom e velho jornalismo, sem parcialidades, sem pender a balança para um ou outro lado. E ao abrir a série de perguntas, Wilian Bonner deu o tom ao dirigir-se à Lula na qualidade de “candidato”, e não como “presidente”. Bingo, Lula sentiu a pancada, mostrou no rosto visivelmente sua irritação e reprovação, e como que se desconcertou. O teatro ensaiado na véspera, não servira para nada. Dali para frente, o rei estava nu. E o que se viu foi um Lula enrolado, acuado, mentindo e dissimulando a rodo, mostrando quê presidente está nos governando desde 01° de janeiro de 2003. Para alguns, pode ter parecido surpreendente, não para mim. Lula é aquilo que se viu na entrevista. E apesar das críticas feitas pelos petistas quanto ao tratamento de “candidato” dirigido a Lula, este sequer pode reclamar, pois ele próprio se confessa que não sabe quando é candidato ou quando é presidente.

Porém, a sacada do dia em favor de Lula, não estava no Palácio da Alvorada, e sim no prédio ao lado, com a leitura do relatório da CPI das sanguessugas, porém disto falaremos na segunda parte deste artigo, quando analisaremos as reações, o dia seguinte à entrevista.

Com relação às perguntas que foram feitas, todas foram direcionadas às principais questões éticas do governo Lula que, ao respondê-las, mostrou-se tenso durante o tempo todo. No fundo, o presidente Lula sabe que, dentre os cerca de 128,0 milhões de eleitores aptos a votar em outubro, ele conta com um exército de invejáveis 40,0/50,0 milhões de desinformados completos. São os sem jornal, sem revistas, sem internet, em resumo, os Sem Informação. Para defender o presidente Lula e seu PT, atualmente, só mesmo ignorando os fatos ou passando por cima deles por interesses suspeitos. Lula sabe disso, e como que para enganar os ignorantes, ao longo de 2006, tem se esmerado em liberação de verbas, aumentos despropositais, inaugurações de coisa alguma, e de alguma coisa às vezes em duplicidade. Ele sabe para quem se dirige em cada gesto, em cada palavra, em cada ataque à oposição – para a qual insiste em denominar como adversários – mas, no geral, sua atuação não deixou a desejar, conhecendo-se o Lula como o conhecemos.

Se poderia até contra-argumentar que Bonner e Fátima deixaram de abordar outras questões, também relevantes, em relação à ética do governo Lula e do seu partido. Mas seria difícil resumi-la em apenas 10 questões. No blog Minuto Político, há uma relação com 190 questões !!! Convenhamos, trata-se de uma super e abundante safra de escândalos, numa impressionante média de 5 ao mês, e que não se poderia resumir no âmbito de 10 perguntas apenas. Mesmo diante da dificuldade, acreditamos que o Departamento de Jornalismo da Globo, conseguiu resumir os principais pontos de interesse geral.

Apesar da tensão e contração do candidato Lula, acreditamos que ele comportou-se exatamente da forma como sempre fez: como contra fatos não há argumentos, Lula acabou enredado, não lhe restando outra alternativa a não ser enrolar, mentir o mais que pudesse, tentar mudar de assunto, evasivo, buscando justificar uma realidade distorcida e sem sentido e nexo com os fatos.O presidente Lula sabe que muitas coisas que seu governo patrocinou não chegam ao grande público. Mas caso pudesse haver algum ruído, tratou de antecipar-se para blindar-se a si e ao seu governo. O Bolsa-Família, assistencialista ao extremo, segura a onda, seguido das generosas doações de dinheiro público para as entidades ditas sociais, que diante disso sentem-se impedidas de protestar diante dos escândalos. Lula tenta mostrar-se distante dos escândalos, e com ações bem articuladas, tenta desmoralizar o Legislativo como um todo, esquecendo-se que as ações ocorridas lá, tiveram iniciativas decorrentes do lado de cá, a começar pelo mensalão. Por isso, a confiança de Lula de que suas ações assistencialistas haverão de calar a grande legião de beneficiados, o exército composto pelos sem informação.

Dentre as mentiras da noite, uma diz respeito à criação da CGU - Controladoria Geral da União.Uma vez mais, ele assume a paternidade de algo criado pelo ex - Presidente Fernando Henrique, tal o Bolsa Família. A CGU foi criada no dia 2 de abril de 2001, pela Medida Provisória n° 2.143-31, inicialmente, denominada Corregedoria-Geral da União (CGU/PR). Teve, originalmente, como propósito declarado o de combater, no âmbito do Poder Executivo Federal, a fraude e a corrupção e promover a defesa o patrimônio público. Quase um ano depois, o Decreto n° 4.177, de 28 de março de 2002, integrou a Secretaria Federal de Controle Interno (SFC) e a Comissão de Coordenação de Controle Interno (CCCI) à estrutura da então Corregedoria-Geral da União. O mesmo Decreto n° 4.177 transferiu para a Corregedoria-Geral da União as competências de ouvidoria-geral, até então vinculadas ao Ministério da Justiça.

A Medida Provisória n° 103, de 1° de janeiro de 2003, convertida na Lei n° 10.683, de 28 de maio de 2003, alterou a denominação para Controladoria -Geral da União, assim como atribuiu ao seu titular a denominação de Ministro de Estado do Controle e da Transparência. Mais recentemente, o Decreto n° 5.683, de 24 de janeiro de 2006, alterou a estrutura da CGU, conferindo maior organicidade e eficácia ao trabalho realizado pela instituição.

Do mesmo modo, o presidente Lula meteu os pés pelas mãos quanto as demissões de José Dirceu e Antonio Palocci. Abaixo a carta-resposta de Lula, que enterra de vez outra das tantas mentiras de Lula:

“Querido Zé,
Recebi seu pedido de afastamento das funções de chefe da Casa Civil. Decidi aceitá-lo, louvando seu desprendimento pessoal. Só pessoas de sua grandeza são capazes desses gestos. Compartilho seu sentimento de que esta decisão permitirá a você melhor defender nosso governo, nosso partido e sua própria pessoa.Como parlamentar brilhante que é – um dos líderes políticos mais importantes e respeitados da República – você poderá, na casa do povo brasileiro, desfazer as infundadas acusações lançadas por aqueles que querem desconstruir nossa história e nosso projeto de mudança social.Esta é a ocasião para expressar meu apreço por sua lealdade, dedicação, competência e honestidade no trato da coisa pública, como ministro-chefe da Casa Civil.
É também a ocasião para reiterar minha amizade e gratidão por tudo o que fez pelo povo brasileiro em nosso governo.
Como você mesmo diz em sua carta, a luta continua.
Luiz Inácio Lula da Silva”
Fonte: Minuto Político.

Da mesma forma como mentiu quando disse que seu governo está investigando tudo. Em tudo, ao contrário, colocou sua tropa de choque no Congresso ou para impedir o início das investigações, ou para coagir testemunhas e esconder fatos, barrar, atrapalhar e até impedir que as investigações se tornassem de conhecimento público. Assim foi no mensalão, que estourou pela propina recebida de um funcionário dos Correios e pelas delações abertas de Roberto Jefferson, e a última, a dos sanguessugas, que seguiram para uma CPI devido à determinação de Fernando Gabeira e Raul Jungmann. Do contrário, teria sido abafada. Sem falar do até agora não esclarecido do ex-prefeito Celso Daniel, um crime aguardando o momento certo para ser enterrado.

Há muito tempo o PT no governo e o Presidente Lula deixaram de lado a coerência com sua história. Quando na oposição, o PT queria cadeia até para simples suspeitos. Hoje, Lula não se constrange em ir para o palanque alinhado com ex - Presidente Sarney que ele chamou de ladrão, em São Paulo a Orestes Quércia, em Minas com Newton Cardoso e em Belém, com Jader Barbalho. Bem como, um partido cuja cúpula diretiva toda caiu por envolvimento direto com a corrupção, não pode ficar posando de bonzinho achando que isto tratou-se apenas de erros eventuais. E vários acusados além de não serem punidos pelo próprio partido, ainda pretendem se candidatar novamente agora. E novamente negou-se em responder quem são os supostos traidores. Seriam os que traíram a pátria, desviando recursos, ou os que traíram o PT, delatando o esquema? Neste tópico, aliás, o PT tem uma história um pouco nebulosa: dentre os expulsos do partido, constam apenas aqueles que se rebelaram à ideologia. Por corrupção, ninguém foi mandado embora. Não é estranho ?

Mas, a meu ver, faltou uma e mais importante pergunta, e que poderia ter sido a última ou a penúltima:

Candidato Lula, o senhor disse que companheiros, assessores e ministros erraram sem seu conhecimento, e o que o senhor os afastou, muito embora se saiba que não foi bem assim. Porém, olhando-se para essência dos erros cometidos, e não, simplesmente, para as pessoas, verificamos que tudo foi feito unicamente para beneficiar o senhor. Candidato, além do senhor, quem mais se beneficiou de todos os erros cometidos em seu governo e pelo seu partido ?

Acreditem, seria a única para a qual ele não saberia responder: porque apenas ele foi o grande e único beneficiado, e sendo assim, todas ações tinham o propósito e faziam parte da estratégia do seu governo para beneficiar o presidente Lula. Impossível alguém de sã consciência achar que ele é inocente. E o que mais lamento é que até hoje, esta questão, que é o foco central de todo o governo Lula, em tudo aquilo de pior fez e continua fazendo, foi a que menos se ouviu falar, ou sobre ela se escreveu. Aqui, Lula, realmente, ficaria sem saída. Porque a questão do crime não é apenas o benefício financeiro que ele rende. Não precisa sequer estar configurado qualquer aspecto econômico- financeiro. Ele é criminoso, de um lado ou por negligência e ou por omissão, e de outro, por ter sido o beneficiário maior e final de todos os atos praticados. Se tivessem seguido por esta rota...

De qualquer forma, o roteiro está desenhado. A oposição já sabe o que fazer. Já tinha errado lá atrás quando poderia ter aprofundado mais e ter tirado a credibilidade perante a opinião pública do governo Lula, que foi eleito para governar o Brasil sob a bandeira da ética e da moralidade. Ao andar no sentido contrário, traiu o voto que houvera recebido. Na segunda parte deste artigo vamos analisar as repercussões da entrevista, o dia seguinte e o impacto para o governistas, oposicionistas e opinião pública.