terça-feira, outubro 03, 2006

Entre o hoje e o amanhã



A eleição para presidente vai ter uma nova rodada. Reduzido a Alckimin e Lula, é preciso que se tire algumas lições importantes que as urnas transmitiram neste domingo de 1° de Outubro.

A primeira, e aqui vamos considerar os resultados gerais, é que pesquisa eleitoral não tem o dom de fazer o eleitor votar. A começar por Alckimin. No máximo chegava a 33% e finalizou com quase 42%. Germano Rigotto (RS) e Paulo Sotto (BA) seriam reeleitos para governadores em seus estados. O primeiro, chegou em terceiro e está fora da disputa do segundo turno. O baiano sequer verá segundo turno: Jacques Wagner – PT atropelou na reta final e ganhou no primeiro turno. Para o senado, Eduardo Suplicy em São Paulo era absoluto: ganhou apertado de Afiff Domingos. No Paraná, Requião levava fácil: enfrentará segundo turno.

Então, a discussão de que pesquisa eleitoral condiciona o eleitor a votar no favorito é um conceito que precisa ser revisto, da mesma forma que os erros dos institutos requerem revisão da metodologia empregada. Este o caso do SENSUS, que na última pesquisa deixava Alckimin abaixo de 30%, garantindo a Lula uma vitória tranqüila no primeiro turno.

Tais erros deverão servir, também, para que analistas e comentaristas políticos saibam manter certas reservas quanto a estas pesquisas. Do mesmo modo, os comitês de campanha doravante deverão buscar outros indicadores para definir adequadas estratégias e que possam conduzir seus candidatos-clientes a performances mais acertadas.

Porém, quem sai desta eleição com a lição maior é presidente-candidato Lula, pois a resposta vinda dos 128,0 milhões de eleitores demonstra que o povo já não acredita que apenas abrindo-se saquinhos de bondades pré-eleitorais sejam suficientes para garantir reeleição. Para quem apostava numa eleição fácil baseado apenas no uso e abuso da máquina pública e recursos do Tesouro, sem dúvida que o resultado decepcionou. O Brasil quer muito mais de seu governante maior. Ele até reelege mensaleiros e sanguessugas, ele até admite devolver ao Parlamento os Maluf e Collor da vida. Mas para o Planalto, se exige um mínimo de ética, de honra, de caráter, de equilíbrio emocional, coisas das quais Lula afastou-se ao longo de seu mandato. O povo, quanto maior seu acesso à informação, mais repudia candidato desequilibrado para seu Presidente. E mais: Lula precisa entender, de uma vez por todas, que é se candidato à Presidente, o é para governar o país como um todo, e não apenas para uma determinada classe de pessoas. Que dê prioridade sem dúvida aos mais necessitados, sem contudo desprezar aos demais brasileiros.

O eleitor ainda deu a Lula outro recado: a um presidente se permite muita coisa, menos que minta para seu povo. E muito menos que se utilize de métodos guerrilheiros e ilegais para manter-se no poder, a si e seus asseclas. Poderá até ganhar no segundo turno, mas precisará urgentemente rever suas ações e seu pensamento.

E mesmo que vença a eleição, Lula conviverá o tempo todo com a falta de credibilidade em razão da lama que seu primeiro mandato ainda ostenta. Segundo, precisará livrar-se das ações de impugnação que cercam sua coligação em razão do dossiê anti-Serra, fora outras questões que o TSE está a lhe cobrar. E, mesmo que ainda supere estas sombras, já sabe que sua governabilidade precisará desdobrar-se politicamente com muita competência diante de um Senado Federal de maioria oposicionista. Não há dúvidas de que o seu partido sai enfraquecido e muito pouco lhe oferecerá como abrigo. Daí porque as reformas emergenciais necessárias para livrar o país do atoleiro e da estagnação exigirão uma negociação bastante hábil para superar as dificuldades que se apresentam, caminho este que Alckimin, em razão da composição do Parlamento, e se vencedor, lhe parecerá mais ameno.

A vitória final para Alckimin não será tão fácil, nem muito menos para Lula, muito embora lhe falte conquistar uma parcela menor de eleitores. O tucano precisará tirar votos de Lula, e aí o caminho será bastante espinhoso. Contudo, nada será impossível para quem entrou na campanha desacreditado, sem ter a unanimidade de seu próprio partido, e até a metade do caminho, era tido como verdadeiro azarão. Porém, estando Minas e São Paulo com seus resultados definidos em favor dos tucanos Aécio e Serra, tendo um respeitável palanque no Rio Grande do Sul, onde Yeda Crusius é fortíssima candidata a vencer a parada para o governo na luta com o petista Olívia Dutra, Alckimin pode aumentar sua força junto a um eleitorado sabidamente mais esclarecido. Mesmo no Norte e Nordeste, onde sua base ainda é frágil e Lula leva enorme vantagem, Alckimin poderá agora apresentar um programa que fale mais de perto ao eleitorado destas regiões. Já não haverá necessidade de gastar boa parcela de seu tempo de campanha para tornar-se conhecido. A Lula restará manter o eleitorado dividido, antes entre pobres e ricos, e agora, entre norte/nordeste versus sul/sudeste. Mas que não se iluda o petista: Alckimin mostrou consistência na reta final de campanha, claro que ajudado pelos erros de Lula e de seu partido. Porém, o tucano tem tudo para unir a coligação PFL/PSDB, que saíram fortalecidos das urnas, em torno de seu nome.

E assim como a contagem foi emocionante até praticamente o último voto, o segundo turno será uma briga de foice para motivar os eleitores. Desta vez Lula diz que irá debater. Porém, é bom preparar-se adequadamente: Alckimin demonstrou no debate da Globo que sabe portar-se diante das câmeras, tem respostas corretas para questões delicadas, tem senso de informação e sabe driblar dificuldades.

O que todos esperamos é que os dois possam mostrar programas e respostas para nossos problemas mais agudos, e que o eleitor possa escolher aquele que se apresentar com melhor competência. Afinal, independente do nome ou do partido, o que está em jogo é o futuro do Brasil. Esta a prioridade que esperamos que cada candidato considere e que o eleitor possa identificar no segundo turno.