terça-feira, outubro 03, 2006

LEITURA RECOMENDADA.

OS AIATOLÁS E OS AIATOLOS
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Por Sebastião Nery
Publicado no Tribuna da Imprensa
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Em 54, o ex-ministro da Educação de Getulio, Antonio Balbino, vetado por seu partido, o PSD, que lançou Pedro Calmon, era candidato a governador da Bahia pelo PTB, com Juracy Magalhães candidato da UDN a senador, apoiado pelo PTB, que indicou seu colega de chapa, Lima Teixeira.
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Na praça de São Caetano, centro da maior concentração popular de Salvador, uma vedete: João Goulart, presidente nacional do PTB, fora à Bahia assegurar a vitória do neopetebista Balbino e do udenista Juracy.
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O comício estava frio. Apesar da presença de Jango, ninguém se animava. O povo não entendia direito aquele estranho casamento do PTB de Getulio, que acabava de se matar, com a UDN de Carlos Lacerda. Juracy sentiu que só um golpe espetacular sacudiria a praça. Pegou o microfone:
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- Minha boa gente baiana (era assim que sempre falava, com sua voz fina e anasalada)! Nesta praça, por cima de todos nós, há um homem morto: meu amigo, amigo de João Goulart, amigo dos trabalhadores do Brasil. Vamos, todos, de joelhos, rezar um Padre Nosso pela alma de Getulio Vargas!
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A praça caiu de joelhos, rezando. De joelhos, no palanque, Juracy, Balbino, Lima Teixeira, Manoel Novais (presidente do PR), piedosos como noviças em êxtase. E Jango, a perna direita dura, ajoelhado com um joelho só, agarrado às costas de Juracy, como um Cristo bêbado de Salvador Dali. Balbino, Juracy e Lima Teixeira ganharam.
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Pesquisas
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O povo brasileiro pôs muita gente de joelhos, domingo: Lula, o PT, os vampiros, os mensaleiros, os sanguessugas, os "dossieiros", os doleiros, os "reaiseiros". Arrogantes, soberbos, enganadores, mentirosos, achavam que iam ganhar tudo. E começaram, ali, a perder tudo, inclusive o segundo turno.
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Mas a grande derrota, a suprema desmoralização e humilhação foi dos "aiatolás" das eleições, os grandes institutos de pesquisa, que passaram meses vendendo fraudes aos "aiatolos", as televisões, revistas, jornais e jornalistas. Não há, na história da pesquisa política, brasileira ou universal, desastre igual. Errar é humano. Pesquisa pode errar. Não pode é escancarar a enganação.
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A primeira providência que deviam tomar era trocar de nome, no mínimo para se esconderem. Há algumas sugestões: o Ibope podia ser o "Igolpe". O "Datafolha" virar o "Datafalha". O "Vox Populi" passar a ser o "Vox Pecuniae". E o "Sensus" o que ele é mesmo, o "ContraSensus".
A prova do escândalo está nos números deles mesmos. De todos.
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Margem de erro
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No "Globo", o excelente Jorge Moreno relembrava, e o também ótimo Ricardo Noblat publicava, a sabedoria de Ulysses Guimarães:
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"A margem de erro é a margem de lucro das pesquisas". Até aí ainda seria tolerável. Mas as pesquisas, meses a fio, "erraram" duas, dez vezes além da margem de erro. Um "resultado", no penúltimo dia, no dia seguinte, na eleição, era absolutamente diferente, quando não ao contrário. .
Isso aí não é mais erro nem margem de erro. É pirataria mesmo.
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Confiram as pesquisas do último mês, até o último dia. Ou nenhum grande instituto brasileiro sabe fazer pesquisa (e sabemos que sabem) ou, o que é indecoroso, inaceitável, intolerável, mercadejavam os números.
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MA, RS e BA
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As TVs e os jornais davam, várias vezes por semana, até o fim, as pesquisas presidenciais do Ibope, Datafolha, Vox Populi e Sensus. Lula sempre com mais de 48% ou 50% e Alckmin com menos de 30%. Depois, Alckmin chegou a 31%, 32%, na véspera até 35%. E o País viu, estarrecido, o resultado final, verdadeiro: Lula 48,6%. Alckmin, 41,6%. E a "margem de erro" era sempre 2 pontos.
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Nos estados onde havia candidatos governistas ou "amigos" foi ainda pior. No Maranhão, a Roseana Sarney (PFL) tinha sempre mais de 60%. E o Jakson Lago (PDT) pouco mais de 20%.
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Depois, um pouco mais. O resultado final foi Roseana 41,29%, Jakson 30,12%, Vidigal 12,45%, Aderson 3%. Por que derrubavam sempre os outros e subiam Roseana? E assim pelo País a fora.
No Rio Grande do Sul, no dia 1º de outubro, segundo o Ibope ("Globo"), Germano Rigotto (PMDB) tinha 34%, Yeda Crusius 25%, Olívio Dutra 25%. Resultado final: Yeda 30,5%, Olívio 25,40% e Rigotto 25,16%.
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A Bahia é um escândalo nacional: domingo, o Ibope publicava Paulo Souto 51%, Jaques Wagner 41%. À noite, Wagner ganhava com 45% a 36%.
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Os quatro
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Dirão eles que todo mundo tem o direito de errar. Primeiro, então não enganem o público com a farsa da "margem de erro de dois pontos". Depois, e isso é que é sobretudo grave e aético, se não têm segurança quanto aos números, se pesquisa é coisa fluida, os donos ou diretores dos institutos não se metam a aiatolás da verdade, dando sempre a última e definitiva palavra.
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A toda hora o Montenegro, do Ibope, estava na Tereza, a Incrivinel, no "Globo", assegurando, jurando, imposturando que Lula já estava reeleito e não havia hipótese de segundo turno. E o falso profeta não era ele só. O Paulino, do Datafolha, meteu-se a editorialista do jornal: Lula já estava reeleito. O Marcos Coimbra do Vox e o Ricardo do Sensus, também. Impostura pura.