.
A idéia ventilada pelo petismo de que a reeleição de Lula representou a vitória das forças populares e progressistas contra os senhores do atraso e os guardiões do conservadorismo é de um simplismo ofensivo à inteligência.
.
.
Seria preciso ignorar quem são os parceiros políticos de Lula; seria preciso ignorar no que se transformou o próprio PT (uma máquina burocrática a serviço do novo patrimonialismo sindical, um instrumento para conferir vantagens a seus membros); seria preciso ainda ignorar o que foi o primeiro governo Lula e sua infinita capacidade de acomodar interesses sem resolver conflitos, tudo resultando num jogo de soma zero, sem crescimento ou distribuição de renda.
.
.
Se não desobstruiu a economia, a reeleição de Lula voltou a destravar o pendor autoritário do petismo e de amplos setores do governo. Notória em várias passagens deste mandato, essa tentação se viu obrigada a hibernar depois do mensalão, por força dos fatos. Ela voltou, com grau inédito de excitação..O próprio Lula dá sua contribuição ao clima despótico quando pede aos governadores eleitos que não lhe façam oposição até 2010. Ou quando lista a legislação ambiental, os órgãos encarregados de fiscalizar os atos do Executivo e a própria oposição como entraves "naturais da democracia" para seu sonho tardio de crescer. Alguns dirão que o presidente não falava a sério -embora o assunto e o cargo exigissem.
.
.
Lula brinca, mas não seus áulicos. É famosa a frase do vice-presidente Pedro Aleixo, quando, na reunião que decretou o AI-5, discorria sozinho contra a medida e foi interrompido por Gama e Silva, então ministro da Justiça: "Dr. Pedro, o sr. desconfia das mãos honradas do presidente, aqui presente?" E a resposta: "Não ministro, eu desconfio é do guarda da esquina".
.
.
Guardemos estas palavras, ao lado do que disseram na semana passada – sobre e para jornalistas – o presidente da Petrobras e o presidente do PT. Serão eles comissários do povo ou guardas da esquina?