quarta-feira, novembro 29, 2006

Um estranho no ninho

Carlos Chagas, na Tribuna da Imprensa
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BRASÍLIA - Responda quem puder: quais as qualidades do ex-ministro Nelson Jobim para presidir o PMDB, além de apregoar que é amigo do presidente? Não dá para entender. Aliás, no partido, os que não entendem formam maioria, em condições de obstruir essa estranha ascensão. Os senadores Renan Calheiros e José Sarney parecem os autores da candidatura, governistas que são, interessados em degolar Michel Temer, por ter apoiado Geraldo Alckmin.
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Jobim foi deputado federal e acolitou Ulysses Guimarães na elaboração da Constituição de 1988. Até confessou, anos depois, ter enxertado no texto um artigo que a Constituinte não votou. Depois, mergulhou, até ser retirado das profundezas por Fernando Henrique, tornando-se ministro da Justiça.
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Transformou-se num tucano enrustido, saindo do ministério para o Supremo Tribunal Federal, que chegou a presidir pelo critério de antiguidade. Aposentou-se imaginando garfar o vice-presidente José Alencar na chapa da reeleição. Não conseguindo, percebeu que também não conseguiria eleger-se deputado pelo Rio Grande do Sul. Há pouco teve seu nome lembrado para voltar ao Ministério da Justiça, mas, como o novo ministro será Sepúlveda Pertence, ficou outra vez solto no espaço.
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Agora, sem mandato, Jobim aferra-se à pretensão de presidir o PMDB. Poderá desiludir-se mais uma vez, pois da nova bancada de 89 deputados talvez não conheça dez. É um estranho no ninho, que a seu favor dispõe apenas da constrangedora fotografia de Lula chorando no seu colo de presidente do Tribunal Superior Eleitoral, na entrega do diploma de presidente.
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Espinhos
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Há décadas que o ainda embaixador do Brasil em Portugal, Paes de Andrade, confidencia ter sido a sua longa carreira política um caminho feito de espinhos. Deixou de ser cassado porque os militares trocaram seu nome para "Vaz de Andrade". Deputado por sucessivas legislaturas, quase foi prefeito de Fortaleza e quase foi senador, favorito nas pesquisas até a véspera das eleições. Presidiu a Câmara e o PMDB, insurgindo-se contra o apoio do partido à reeleição de FHC.
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Queria o lançamento de candidato próprio: Itamar Franco. Não conseguindo, ficou com Lula. Convidado pelo presidente em 2003 para embaixador em Lisboa, Paes de Andrade viu-se atropelado por outro candidato, que por um triz não o ultrapassou. Levou para as universidades portuguesas um de seus livros, "História constitucional do Brasil", adotado oficialmente em Coimbra, Lisboa e no Porto.
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Encerrando-se o primeiro mandato, estava preparado para retornar ao país, presidente de honra que é do PMDB. De repente, nova tempestade. Acaba de receber o que chama de desrespeitoso e grosseiro telefonema do chanceler Celso Amorim, determinando-lhe encaminhar ao governo português pedido de agreement para seu substituto. Considerou-se ultrajado, porque, convidado por Lula para embaixador, aguardava dele a comunicação de estar encerrado o seu período na diplomacia.
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Reagiu: "Ministro, não estou entendendo. Um pedido de agreement quando o presidente da República nada me comunicou. Vossa Excelência sabe que fiquei no palanque de Lula por treze anos. A instância da solicitação do agreement é prerrogativa constitucional do presidente da República. Nada recebi, nenhuma instrução do presidente, e, por isso, aguardo que seja oficializada a comunicação. Não sou seu embaixador. Sou embaixador pela vontade e decisão do presidente."
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Paes explica que, no entanto, já estava oficializada junto à chancelaria portuguesa a entrega do pedido de agreement para o novo embaixador, Celso Marcos Vieira de Sousa, uma precipitação do chanceler Celso Amorim, que o atropelou de forma violenta. Conta que na mesma hora recebeu telefonema do presidente do Senado, Renan Calheiros, pedindo-lhe para sustar a formalização do processo, porque estava agendada reunião com Lula, da qual Paes de Andrade faria parte, ocasião, então, que seria comunicado da decisão presidencial de considerar encerrada sua missão em Lisboa.
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Lembra o ainda embaixador que Amorim continua filiado ao PMDB, foi militante até nas últimas eleições. Deveria tratar com respeito o presidente de honra de seu partido. Como o nome de Paes de Andrade vinha sendo cogitado para exercer a presidência do PMDB, quando de seu retorno, substituindo Temer, há quem veja no episódio o dedo de Jobim...