segunda-feira, dezembro 04, 2006

O clube dos cafajestes

Por Augusto Nunes no Jornal do Brasil
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Bandido federal é ruim de choro. Quando consegue produzi-las, são lágrimas rasas, sem convicção, escancaradamente artificiais. Muito compreensível: no Brasil, pecadores que atuam na divisão dos impunes não são dados à prática do pranto convulsivo. A bandidagem dolarizada sabe que vai rir por último. É natural que tenha o riso fácil. Não é estranhável que seja ruim de choro.
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A turma até capricha. Mas não convence, como reafirmou o desempenho no tribunal do ex-deputado federal Hildebrando Paschoal. De repente, o delinqüente que perdeu o mandato parlamentar conquistado pelo PFL do Acre caiu na choradeira. Remorso por ter adubado covas rasas, nos tempos de chefão da PM, com corpos mutilados pela moto-serra que pilotava? Nada disso.
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Seria medo do inferno, especialmente apavorante para alguém que desfrutou do paraíso no Congresso? Também não. Hildebrando fez essa ligeira escala no vale de lágrimas para jurar-se inocente, conduzido ao calvário por uma trama de inimigos políticos. É choro passageiro. Em pouco tempo, o matador sorrirá em liberdade.
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Sorrirá como sorriem os três sanguessugas comprovadamente envolvidos na quadrilha das ambulâncias e, ainda assim, absolvidos pela Comissão de Ética do Senado. Durante o curto pesadelo, Ney Suassuna (PMDB-PB), Magno Malta (PR-ES) e Serys Slhessarenko (PT-MT) tiveram seu dia de choro. Agora é a hora da festa.
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O espetáculo do corporativismo foi ornamentado pela inventividade do senador Wellington Salgado (PMDB-MG), autor da idéia de castigar com "uma censura verbal" o colega paraibano. "Não faça mais isso, Excelência", sussurrará a Suassuna algum pai da pátria. E o Poder Legislativo terá provado ao país que sabe ser duro com pecadores domésticos.
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Desse grave constrangimento foram poupados a mato-grossense de nome impronunciável e o capixaba de penteado ingovernável. Serys e Malta choraram no inverno. A desforra chegou com o fim da primavera. "Fui vítima de uma trama de inimigos políticos", Suassuna plagiou Hildebrando, que seria plagiado pelos demais sanguessugas.
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Com as variações de praxe. "Tudo foi tramado pelos meus adversários", recitou Serys Slhessarenko, cujo genro a cobiça transformou em co-piloto de ambulância superfaturada. Refeita do susto, trocou o abraço dos impunes com a catarinense Ideli Salvatti, um berreiro à procura de uma idéia, além de parceira de emprego e de partido.
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O coro dos risonhos vai incorporar dezenas de deputados federais, todos envolvidos na roubalheira consumada ao som de sirenes. Apesar dos esforços profiláticos de parlamentares que prezam a decência, como o mineiro-carioca Fernando Gabeira e o pernambucano Raul Jungmann, este final de legislatura não será entristecido por mais perdas.
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Nestes quatro anos, assombraram a Praça dos Três Poderes aparições de mensaleiros, vampiros, sanguessugas, comerciantes de dossiês e outras criaturas do pântano. As bandalheiras são incontáveis. Cassações de mandatos, houve apenas três. Se não houver intervenções cirúrgicas nesse organismo necrosado, o Congresso acabará reduzido a um clube de cafajestes.