segunda-feira, dezembro 04, 2006

O Plano B?

Por Carlos Chagas, na Tribuna da Imprensa
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BRASÍLIA - A grande dúvida no final de semana que passou, em Brasília, era saber se Ciro Gomes foi explosivo e espontâneo como costuma ser, ou, ao contrário, se as diatribes por ele lançadas contra a política econômica fizeram parte de uma estratégia antes combinada com o presidente Lula. Porque o ex-governador e ex-ministro não teve meias palavras, falando lá de Fortaleza.
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Atribuiu a ida de Lula ao segundo turno, quando tudo indicava sua vitória no primeiro, à péssima performance da equipe econômica e pregou mudanças radicais. Aproveitou para criticar a Petrobras, mas por questões regionais. A empresa petrolífera parece ter optado por Pernambuco, não pelo Ceará.
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Ciro Gomes foi um dos deputados mais votados em todo o País e tem seu nome cotado para integrar o novo ministério. Ouve-se falar que daria um excelente ministro da Saúde, capaz de balançar velhas estruturas e abrir grandes horizontes para a saúde pública. O homem já foi ministro da Fazenda no difícil período de implantação do Plano Real. Convidado por Itamar Franco, deixou o governo de seu estado para enfrentar o desafio. E enfrentou, apesar de o ex-presidente FHC insistir até hoje em ostentar os galardões do combate à inflação.
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Por que, então, Ciro Gomes não poderia constituir-se no executor do Plano B para as mudanças prometidas pelo presidente Lula, visando à retomada do crescimento econômico? Já teria sido sondado para futuro ministro da Fazenda? Estaria começando a preparar o caminho, de comum acordo com o chefe?
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Nessa hipótese, haveria espaço para Guido Mantega, que pensa mais ou menos como Ciro Gomes, apenas um pouco mais tímido, e que no passado já deixou o ministério para presidir o BNDES. Henrique Meirelles, porém, não continuaria na presidência do Banco Central.
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Dezembro suprimido
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Algum dia, no futuro, alguém poderá compilar num grosso volume os improvisos do presidente Lula e, por certo, os seus efeitos. Porque, com todo respeito, ele não se emenda. Ainda esta semana, na Nigéria, comentando mais um fracasso das previsões de crescimento econômico, saiu-se com significativo diagnóstico, dizendo que para ele 2006 não interessa mais. Só cuidará de 2007 em diante, quando, então, deveremos assistir ao Brasil crescer, fruto das medidas que ainda não anunciou.
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É preciso atentar que o presidente desprezou e até suprimiu o mês de dezembro. Suas palavras foram pronunciadas a 29 de novembro. Quais os efeitos óbvios da determinação? De que o governo, se não parou, precisa parar imediatamente. O ano em curso não interessa mais. Como estará reagindo o ministério, em especial composto por tanta gente que sabe estar na marca do pênalti? Melhor arrumar gavetas, chegar tarde e sair cedo dos gabinetes, travar quaisquer programas porventura previstos para este ano.
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Num país como o nosso, prescindir de um doze avos do tempo é uma temeridade. Porque a sociedade não pode fazer o mesmo. Ninguém pode ficar considerando apenas o próximo ano, interrompendo suas preocupações e atividades até dia 31. Imaginem se Papai Noel escuta esse improviso de Lula...
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Basta
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Marcada para quarta-feira reunião entre Lula e representantes dos principais movimentos sociais, a pergunta que se faz é se mais uma oportunidade será perdida.
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Oportunidade de quê? De o presidente dar um basta nos excessos que se repetem todos os dias, interrompidos apenas no período pré-eleitoral. Ainda na semana passada os sem-terra invadiram o porto de Maceió e interromperam por mais de doze horas os trabalhos de carga e descarga. Qual o pretexto? Que os produtos sendo embarcados provinham de latifúndios contra os quais o MST se insurge... Ora, invadir propriedades agrícolas improdutivas pode ser um direito dos sem-terra. Mas a carga embarcada no porto de Maceió provém de propriedades produtivas.
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Qual a explicação, assim, para tão extemporânea manifestação? Já não bastam as invasões de prédios públicos urbanos? A falta de relação causa e efeito é flagrante e só cria reações negativas na opinião pública. A cada gesto irracional o cidadão desconfia mais dos sem-terra, que segundo Pedro Stédile estarão no Planalto para pressionar ainda mais Lula no sentido de atender suas reivindicações.
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Por essas e outras, donos da terra se unem, armam-se e ainda passam por bons moços. Está na hora de Lula dar um basta nesses excessos que só prejudicam os movimentos sociais.